02 maio 2006

Os colonialistas: a tribo branca da África Oriental (7)

Do Minho à savana
O meu avô paterno (1904-1975) nasceu na Barca de Alva, pequena aldeia terminus da linha dos Caminhos de Ferro que ia do Porto até à fronteira espanhola, uma estação ferroviária que ainda existe com belíssimos azulejos em azul e branco e que, anos atrás, estava abandonada. Por parte da mãe (Madeira Clemente ou Clemente Madeira), eram pequenos proprietários com olivais, árvores de fruto, pinhais e prédios (hospedaria, lagar, forno de pão casario popular) e lembro com curiosidade que possuíam algumas oliveiras (como é vulgar em zonas de minifúndio) dentro da propriedade do Guerra Junqueiro - depois dos Sarmento Rodrigues e hoje de um inglês - a que se tinha acesso para a apanha da azeitona. Gente baixa, entroncada, aparentada com outras famílias de Vila Nova de Foz Côa, Escalhão, Almendra e Figueira de Castelo Rodrigo: os Bordalo, os Nabuco e outras de que esqueci o apelido, tanto mais que tal como em outras zonas populares as famílias eram conhecidas pelas alcunhas. Sempre me pareceu que por ali havia sangue judaico, até porque eram pouco crentes e dados ao negócio. Do Avô e das suas 4 irmãs que chegaram a adultos só a mais nova é que era praticante, para não dizer beata. A sua família paterna não era da zona, tendo chegado à Barca de Alva- não sei de onde - nos trabalhos da linha férrea: gente alta e loura, seca, magra, trabalharam nos C.F. O Pai do avô. - ouvi dizer - foi cabo eleitoral do Afonso Costa, não sei se na Barca de Alva, se em Valença do Minho, onde se fixou depois da morte da mulher e por transferência da C. P. Depois da morte da Mãe, o Avô Alfredo, ainda criança, foi enviado para LMarques onde o tio materno José Clemente fez fortuna com diversos negócios: restaurante na Consiglieri Pedroso, armazéns para venda a grosso e prédios na Av. Manuel de Arriaga, mais conhecida por Av. Central. O tio pô-lo logo, a trabalhar, colocando-o em cima de um estrado, por forma a chegar à altura da máquina registadora. Isto passava-se em 1916. Viveu, então, em casa dos Clementes e foi crescendo, avesso a grandes estudos mas amigo das pândegas da boémia laurentina: cerveja e whiskys nos quiosques da pequena cidade colonial, nos bares e nos casinos que enxameavam de mulheres (taxi-girls) vindas de toda a Europa e da África do Sul para alegrar as noites da grande cidade portuária - escoador do minério do Transvaal - e que muitas casaram em famílias que depois tiveram nomeada. Fazia parte de um grupo da estúrdia local (de que sei algumas histórias bem engraçadas): os irmãos Rodrigues, donos de cinemas ("T. Gil Vicente", depois, também do "T. Manuel Rodrigues"); o Américo Galamba que foi mais tarde um empreendedor e próspero negociante; o Monteiro, chamado "Monteirinho", dono da mais elegante e requintada casa de objectos de decoração da cidade; Vladimiro Cardiga - filho de um capitalista de renome - que deu o nome ao meu pai. Era homem de estatura média, pés pequenos, olhos cor de mel, magro e vestia com a elegância tropical: fatos claros, chapéu de asas desabadas, etc. Com a idade, aquietou-se, engordou e contentava-se com uma vida calma. Tinha grandes irritações com o meu pai - até destemperos -, em especial porque este era mau estudante; só lhe apetecia ler... e ler o que lhe apetecia. Não percebia bem o seu interesse pela ficção e pela História. Seguindo a tradição do avô paterno e do pai, entrou para os Caminhos de Ferro, sector que estava em expansão - tal como na Europa e Américas -, o que significava emprego e salário garantidos. Foi, por diversas vezes, membro da direcção do Clube Ferroviário de Moçambique, aliás, o seu clube de estimação.
Não tinha a menor vocação comercial e sempre que o intentou, deu com os burrinhos na água. O seu maior sonho era ver um dos filhos formado em Engenharia, provavelmente porque toda a vida foi "mandado" por engenheiros. O filho mais novo formou-se em Engenharia. Era da época em que uma das formas de promoção social e de garantia de estabilidade económica se garantia com um curso superior, em especial Direito, Medicina e Engenharia.
Guardou vários hábitos citadinos da Metrópole: comprava diariamente o jornal, lia revistas (Século Ilustrado, Cruzeiro - grande magazine brasileiro de Assis Chateaubriand -, a Eva e Modas e Bordados para a Avó, o Mosquito para os filhos); assistia às representações teatrais das companhias que no verão lisboeta iam à procura das patacas africanas; assistia à apresentação das grandes vedetas internacionais, mas não era entusiasta de concertos musicais. Faziam, anualmente, dois períodos de férias: no chamado Inverno, não saíam de L.M.; no Verão, ou faziam praia no Oásis, uma praia no caminho da Costa do Sol, ou iam à África do Sul (Machadodorp, em homenagem ao General Joaquim José Machado), Johannesburgo, Durban e Bloomfonteen, a capital do Orange Free State, a zona mais boer da União. Tinha a obra completa do Guerra Junqueiro, o "homem" da Barca de Alva, onde construíra a tal propriedade acima citada, porventura utilizando meios pouco ortodoxos. Não era dado a grandes leituras; gostava de uma vida calma, uma boa mesa, não gostava de ser contrariado. Penso que a sua grande ambição - se é que tinha alguma, para além de ver um filho formado em Engenharia e de ter casa própria, era fazer uma vida de pequeno burguês e voltar um dia a Portugal para viver em Lisboa.

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