13 maio 2006

O império imóvel

A Europa de hoje assemelha-se em tudo à China setecentista: decretou a fixação de tudo o que julga a SUA tradição. Como não há TRADIÇÃO - o fluir ininterrupto dos tempos históricos encarrega-se de o demonstrar - esta tende a confundir-se com a memória das últimas duas ou três gerações, ou seja, aquelas que ainda vivem e exigem a preservação do "SEU" tempo. Tremendo erro, este, o de recusar as grandes correntes do tempo presente, fechando o futuro e acumulando absurdas contradições que levarão ao colapso de uma sociedade casmurra e ancorada. A globalização faz-se sem os europeus, o pensamento político hodierno encontra sede em universidades norte-americanas, a literatura, as belas artes e as experiências de vanguarda nascem e irradiam da América do Norte e do Extremo-Oriente. De nada nos serve bramar contra a "injustiça" , o "capitalismo selvagem", o "neo-liberalismo" e quejandas fórmulas diabolizadoras do desajustamento dos europeus à realidade global. A excelência do "modelo social europeu" - que criou um aquário clautrofóbico que tomamos por referência - substituíu o credo ideológico que fez dos europeus reféns de ideias oitocentistas. Não há modelo social que resista à pauperização, ao estrangulamento geopolítico, à fraqueza militar e ao embotamento da vontade política de correr riscos. Os europeus não existem fora da ficção piedosa da União. A União já não é outra coisa que uma "tradição" da guerra-fria e do brevíssimo momento de euforia que se lhe seguiu. É claro que a União não se fará jamais sem um grande projecto mobilizador. Onde estão as ideias ? Onde está a energia ? Os estão os políticos de contagiante exemplaridade ? A fúria dos europeus contra Blair e Bush não é, afinal, outra coisa que inveja. Souberam correr riscos e triunfaram. Nós, continuamos amarrados às excelências de um passado morto.

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