29 maio 2006

O homem que esmagaria Hitler

Kurt von Schuschigg, um grande orador que meteu medo a Hitler

Recebi, de um paciente leitor, um comentário a respeito do texto aqui publicado ontem sobre o falseamento da vontade popular. Apontei, como caso paradigmático, o plebiscito que Hitler fez votar para cobrir com um duvidoso véu de legitimidade a anexação da Áustria. O meu paciente crítico afirma: "sabe tão bem como eu que Hitler derrotaria democraticamente qualquer líder austríaco que lhe fizesse frente". Meu caro José Manuel, perdoe-me contrariá-lo, mas acho que se passaria precisamente o inverso. Hitler não resistia a um debate. Hitler era um orador ditirâmbico, inflamado, estridente, mas incapaz de manter uma conversa com quem quer que fosse, muito menos um adversário com a chama e racionalidade de um Schuschnigg. Hitler vivia de lugares comuns, enxertando-lhes um profetismo digno de pregador pentecostal. Falo alemão, pelo que, ao ouvi-lo, pergunto-me qual o interesse daquele chorrilho de banalidades. Um discurso sem ideias, carregado de insultos, ameaças e chalaças, psicologicamente impressivo, mas - repito - privado de ossatura. Aquilo funcionou dois, três, quatro anos. A partir de 1936 deixou de arengar às massas: já nada mais tinha para oferecer. O mote, as imagens, a forma foram concebidos para a Alemanha faminta, ressentida e amedrontada de 1930, 31 e 32. Quando alcaçou o poder, o nazismo encontrava-se em pleno recuo eleitoral, momento em que foi convidado por Hindenburg para formar governo. Quanto a Schuschnnig, político inteligente, ponderado e veemente, era temido pelos dotes de uma oratória imbatível. Hitler convidou-o para um encontro em Fevereiro de 1938, um mês antes do Anschluss. Foi um desastre para o chanceler alemão, que se vingou do seu triunfante interlocutor saíndo intempestivamente da sala com as ameaças mais soezes, palavrões dignos de cabaret e chantagem. Se Hitler vivesse no tempo dos debates televisivos, teria tanto impacto como Arnaldo Matos !

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