08 maio 2006

O fim dos congressos


A perenidade das igrejas assenta num facto banal: obriga a que se celebre liturgia todos os dias. Porém, nem sempre a acção repercute vitalidade. Há organizações - conjunto de homens agregados em torno de certas ideias - que melhor sobreviveriam se não se manifestassem. Esta fórmula cínica fez as maravilhas dos reis absolutos, para os quais as cortes existiam mas não se reuniam, permitindo manter a ficção da legitimidade dos actos de uma governação teoricamente aprovada e assistida. Lembrei-me da contradição ao longo deste fim de semana. O congresso do CDS/PP e a investidura verdadeiramente plebiscitária e cesarista de M. Mendes demonstraram à saciedade como a vitória eleitoral de líderes pode acelerar a diminuição moral dos vencedores quando, presumindo fortalecer-se, exibem, mais que a fraqueza dos seus opositores, a sua insuportável pequenez. M. Mendes venceu ninguém: mobilizou inutilmente um partido que, por ora, não centuria lugares, nada pode prometer e não pensa ter qualquer ambição de poder enquanto não encontrar um líder à altura. Por seu turno, o flácido líder Castro, ao bater-se com um miúdo, exibiu a aviltante diminuição de um partido que ainda há um ano detinha ministérios e influia no governo do país. O PSD e o CDS ainda vivem no velho tempo em que aparecer na televisão presumia existir. Hoje, com a despolitização galopante e a apatia generalizada, para não dizer hostil, aparecer desgasta, cansa e afugenta. Privados de ideias e sedução, os dois partidos, mais que congressos, precisam de uma boa reforma. Se continuarem a cooptar quadros famintos e semi-letrados, evitando olhar-se no espelho, incapazes de um assomo de originalidade, estarão condenados ao limbo. Até lá, Sócrates - sem dúvida o político mais ousado que despontou no regime desde os anos 80 - determinará o rumo e o ritmo da vida política nacional.

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