23 maio 2006

Gente chata, cinzenta e manienta


Manhã solarenga, 10 horas. Condutores de fato escuro conversando e gargalhando com a simplicidade de quem desconhece Proust, Dante, a pinacoteca de Munique, os arquivos do Vaticano e os heterónimos de Pessoa. Entro em passo acelerado, atrasado como sempre. Um hábito antigo, que me segreda ao ouvido "não te preocupes, nada tem importância". Entro no salão escuro, bafiento e tresandando a coisas mortas. Dúzias de figuras, altas, baixas, gordas, invariavelmente de escuro, mãos atrás das costas ou cruzadas, como quem vai receber a santa hóstia. Discursos mais discursos em voz monótona, monocórdica, sem chama e sem conteúdo. Coisas banais, frases feitas. Em suma, gente importante trocando prendas, elogios e promessas de entreajuda. É a sociedade portuguesa na sua comezinha habitualidade. Assusta-me ter conseguido resistir a 32 anos de vida vegetativa. Se tivesse um pingo de coragem, voltava casa, fazia as malas e saía. Como é triste e desperante viver em Portugal.

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