26 maio 2006

Filosofia e bioética no Circo Máximo


A revoada de referendos sobre as grandes e eternas interrogações, origem e sentido último da existência, parece confirmar o triunfo de um erro trágico. A vontade popular é soberana e deve ser respeitada sempre que se discutem os problemas da politeia/res publica, isto é da constituição, leis e instituições que regem a vida em comum. Contudo, não cabe ao corpo dos cidadãos revogar, por capricho opinativo, os fundamentos matriciais que anteparam e tornam possível a vida colectiva e individual, ou seja, a cultura. Os contratualismos, qualquer que seja a sua expressão - absoluta ou limitada - derivam de um entendimento da melhor forma de organizar e vida comum, mas tal pressupõe que a liberdade dos cidadãos seja iluminada pelo esclarecimento, que não aquela mera liberdade de indiferença, produto da ignorância livre de freios. Ora, só há ética com responsabilidade e parece-me bem pouco aceitável o argumento de que o número, por si, determine a qualidade de uma escolha; muito menos escolhas cuja natureza excede largamente o múnus da esfera da cidadania. Uma votação pode determinar o reconhecimento social da existência ou não de Deus, mas não resolve nem responde à questão. Por outras palavras, não cabe à política fazer seu o papel dos filósofos. O mesmo se aplica aos problemas da bio-ética. Polegares para cima, polegares para baixo, estribilhos e propaganda não exprimem ideias; exprimem vontades e opiniões. Um mundo de pernas para o ar !

Sem comentários: