09 abril 2006

Uma grandiosa...falta de nível

Tenho seguido sem grande atenção as peripécias da campanha eleitoral italiana. Não fosse o colorido, o bombástico e o ridículo - ai os italianos, não se conseguem libertar da pantomima e da ópera bufa ! - e dir-se-ia uma recriação das comédias de "telefone branco" dos anos 30. O tom caricatural dos discursos, o minimum minimorum de ideias para um maximum maximorum de insultos desbragados parece convidar a uma abstenção representativa da má qualidade do espectáculo. Sei que me engano redondamente. Na era dos futebóis, da iliteracia e da demissão da inteligência - aquele tempo de esvaziamento que Alexis de Tocqueville profeticamente anteviu - o eleitorado já não percebe outra fórmula. Não há gladiadores, corridas de carros, exibição de monstros, mas há pão, vinho, músicos e animadores para atrair multidões esvaziadas de consciência cívica e privadas de senso crítico. Da Mussolini, que mais se parece com um poster de oficina de bate-chapas, ao Prodi (caramba, como parece um cura de aldeia) e a Berlusconi, o mais verdadeiro dos cómicos em palco, tudo aquilo é uma degradação da cidadania. Sei que as democracias latinas - vide a França, vide Zapatero - se encontram em quarto minguante e poucas dúvidas sobram a respeito da manutenção de um tipo de regime representativo que consiga sobreviver com partidos e elites tão medíocres como aqueles que teimosamente persistem em monopolizar a vida política. Que bons tempos os do velho liberalismo oitocentista. Nesse, ao menos, os homens públicos ainda tinham bibliotecas.

Sem comentários: