10 abril 2006

Pedro Santana Lopes: o difamado

Não sei se o tema vem a propósito ou despropósito. Soa até, fazendo praxe à quadra, a missa evocativa de finados. Ontem, trocando banalidades de circunstância com um amigo que há muito milita lá para os lados da Buenos Aires, falámos de Santana Lopes. Lopes, o fracassado; Lopes, o fura-vidas; Lopes, o aventureiro; Lopes, o "trapalhão"; Lopes e as "santanetes". Ora, ao invés destes demarcadores convencionados pelas ilustres, brilhantes e probas cabeças debitativas, persisto em defender - com a moderação e distância de um indiferente - as qualidades de um homem que fez obra e não deixa ninguém indiferente. Como Secretário de Estado, legou-nos o CCB, a Torre do Tombo, a rede do IPM restaurada, pintadinha de fresco e com adamanes europeus, mais os teatros alindados, mais o Inventário dos Bens Patrimoniais Móveis. Como presidente da CM da Figueira, deixou por lá saudades e dedicações apenas comparáveis às de um rás agípcio ou de uma potestade italiana dos tempos do vinténio. Aquela gente idolatra-o e dele fala sem cessar, como se de um vidente se tratasse. Sabemos como acabou, mas raramente nos interrogamos sobre o vil entendimento de forças respeitáveis que se acotovelaram para o apunhalamento do "homem das discotecas". Quando se trata de manter o status quo, tocam sinos a rebate e unem-se donzelas e donzéis: das catolicices da decência cinzenta aos aventais, dos Crassus do dinheiro à fulanagem que vive da política há décadas, dos animadores dos serões dominicais televisivos aos medíocres que enxameiam as colunas dos jornais. Santana era livre e aí residia a sua fraqueza. Agora estamos bem: o partido da Buenos Aires encontrou uma liderança de grande elevação, o sermonista televisivo já não zurze intrigas à hora do jantar de domingo, o ministério funciona, a banca prospera, os aventais estão bem engomadinhos, as missas enchem-se. Vivemos na Idade de Ouro.

Sem comentários: