20 abril 2006

Os colonialistas: a tribo branca da África Oriental (6)

Irlanda e Leontina (193-)

A Sociedade das Nações
Irlanda (a minha avó), Bolívia (1915) Argentina (1917-1992) e Leontina (1919-2003), tias-avós - havia também uma América e uma África nas vizinhanças - nasceram, cresceram e casaram na Lourenço Marques recém-conquistada ao mato. Tiveram uma infância feliz, com as amenidades que o meio proporcionava, os terrores escolares da pedagogia do tempo - foram alunas do Professor Barradas, casado com uma neta de Victor Hugo, conhecido pela impiedade com que chumbava miúdos de 8 ou 9 anos com questões do género: "quantas milhas são da barra de Lourenço Marques à Inhaca* ?. Não sabe ? Está chumbada" - mas, também, pela prática dos desportos (ténis, ginástica sueca), as idas às matinés de domingo no Gil Vicente e no Varietá, com fitas mudas de Pola Negri e Douglas Fairbanks acompanhas a piano. Aprenderam os lavores costumeiros - bordados, carving, pirogravura, pintura - o convívio com a música em brincadeiras de família com piano a quatro mãos, bem como a exigida preparação para biscoitaria e bolaria caseiras, com sorvete feito em casa, requeridos a qualquer rapariga. A leitura seguia a incontornável Condessa de Ségur para, logo depois e às escondidas, se folhearem os iniciáticos como escaldantes dramalhões camilianos da colecção grená. Uma geração despreocupada que, atingida a idade dos namoros - que se limitava a inocente troca de olhares depois do catecismo, ou uma dança nos bailes do Clube Naval - se preparava para o casamento. Outros tempos !


* Inhaca: ilha situada na entrada da barra de Lourenço Marques.

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