18 abril 2006

Os Colonialistas: a tribo branca da África Oriental (5)

A filha do mato
Ana Plácido, a minha mãe (1933), nascida em Ile, na Zambézia, no dia em que entrou em vigor a Constituição de Salazar. Cresceu à beira da selva, educada entre livros de arte da biblioteca do pai, foi sempre a "menina" das localidades por onde foi vivendo ao longo da infância e adolescência.
Teve por companhia estranhos animais de estimação: leões-crias, macacos e até um elefante por desmamar. O tan-tan dos batuques, as queimadas nocturnas e as caçadas - que outros brancos coloriam como adereços do "feitiço de África", que nunca sentiu, por ser africana - serviram de motivo para as primeiras aventuras pictóricas. Doravante, jamais abandonou o cavalete, os pincéis e os óleos. Autodidacta, recebeu lições no atelier de Frederico Aires, sendo hoje considerada, por aqueles que conhecem a sua obra - infelizmente pouco divulgada e raramente exposta - uma das mais expressivas captadoras das ambiências sociedade moçambicana colonial dos anos 50 e 60.
A relação permanente com os povos e culturas do mato permitiu-lhe dominar dialectos e subtilezas a que só a muito custo etnólogos e antropólogos puderam aceder. Os contactos sociais restringiam-se nessas paragens a uns quantos fazendeiros brancos e membros do quadro administrativo colonial, mais uns monhés* cantineiros endinheirados e, sobretudo, à afável criadagem: uma atmosfera de grandes silêncios convidativa à introspecção e à vida interior. Pontualmente, a nostalgia da civilização convidava a rituais de memória: bailes com orquestra, chás dançantes e debutantes do patriciado colonial. Após a precoce morte do meu avô (1955), radicou-se em Lourenço Marques.
* O termo monhé não era pejorativo. Servia, tão só, para identificar indianos de religião maometana. Os banianos eram hindús e os canecos indianos católicos.

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