12 abril 2006

Os Colonialistas: a tribo branca da África Oriental (4)




A britânica
A minha avó paterna (1916). Nunca foi uma portuguesa que se pudesse encontrar na Metrópole. Nem a sua graça evoca a tradição das Marias e das Anas, nem o seu semblante nórdico acusa a merionalidade das origens mediterrânicas. O nome recebeu-o de um pai incréu, numa atmosfera política nacional difícil e num quadro internacional onde o inimigo da altura (o Reich de Guilherme II) não era apercebido como o perigo maior, mas em que a Albion merecia, desde 1890 - passando pela guerra anglo-bóer - todas as reservas e receios dos portugueses, então em luta de justificação da soberania periclitante exercida sobre os farrapos do Mapa Cor-de-Rosa. Irlanda nasceu em plena Grande Guerra, mas lembra o levantamento nacional irlandês contra o jugo britânico. Cresceu no desafogo de um lar tolerante e confortável. Jogou ténis, aprendeu piano e pintura, prendas que faziam o enxoval das meninas burguesas. Estudou na África do Sul, num colégio de freiras irlandesas, onde adquiriu proficiência na língua inglesa. Outra dissemelhança: num Portugal colonizado pela cultura francesa, Irlanda foi sempre, até nos hábitos, uma britânica: o chá, os bolos de passas e limão que ainda confecciona como ninguém, o traje, os gostos musicais, todos britânicos. Viveu quase sempre em Lourenço Marques e veio à Europa por duas vezes: em 1942, em plena Guerra Mundial, para visitar a família do marido, e em 1974, pouco antes da Revolução, para tratar de negócios. A visita de 1942 deixou-a algo dubitativa, pois em Valença do Minho a recepção não terá sido tão calorosa como previra. Imagine-se as críticas e os sussurros que uma mulher assim teria provocado num meio onde o trajar pouco diferiria do Stromboli de Rossellini. Após a aposentação do meu avô, comprou uma bela casa a 70 km de Lourenço Marques, na vila da Namaacha, cercada pelos montes Libombos e a poucas dezenas de metros da fronteira da Suazilândia. Recordo que, ainda miúdo, ia com os avós a esse reino negro encravado na África do Sul e espantava-me que fossem os negros a governar. Até tinham um rei, Sobhuza, o Grande Elefante. Depois, veio a revolução. Não se refugiou imediatamente em Portugal, pois o meu avô debatia-se com grave doença mortal que o impedia de viajar. Assistiu ao levantamento anti-Frelimo do 7 de Setembro de 74, aos desmandos das Forças Armadas Portuguesas, que então assumiram uma postura claramente anti-portugueses e, por fim, veio juntar-se-nos. Vive hoje, com 89 anos, lúcida, independente e ocupada.

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