10 abril 2006

Os Colonialistas: a tribo branca da África Oriental (3)

O inventor da cidade
O meu bisavô paterno (1886-1975). Professor da Escola do Exército, onde leccionava balística aos artilheiros, estabeleceu-se em Moçambique poucos meses após a implantação da República. Homem indiferente a questões religiosas, como mandava o seu republicanismo moderado, pediu afastamento das fileiras do Exército e foi nomeado agrimensor da Câmara Municipal de Lourenço Marques, devendo-se-lhe o traçado ortogonal "inglês" da capital da África Oriental Portuguesa: vastas avenidas cruzadas por ruas largas e arejadas, emolduradas por acácias e jacarandás, pavimentos macadamizados e alcatroados, ampla zona portuária, tirando partido do segundo maior porto natural do mundo (Delagoa Bay), casario alinhado, imponente zona comercial que nos anos 30 já conhecia grandes superfícies comerciais onde as escadas rolantes eram coisa banal. Uma cabeça cartesiana na África por moldar. Lembro-me ainda do imponente casarão de três andares que construíu e viveu na companhia da mulher - a minha bisavó Argentina, filha de armador algarvio de ascendência marroquina - e de numerosa prole de sete filhos. Num tempo de sonhos de fraternidade universal, do Esperanto e do positivismo, deu às primeiras filhas nomes bem pouco católicos: Bolívia, Argentina, Leontina e Irlanda, esta em homenagem ao levantamento anti-britânico de Dublin, em 1916. O desembaraço e competência profissional de que deu provas, com inúmeras distinções oficiais a atestá-lo, permitiu-lhe dar aos filhos esmerada educação: aulas de piano e violino, pintura e estudos em colégios sul-africanos. Lembro que na ampla sala de estar do casarão, uma imponente biblioteca atestava os seus gostos literários: geografia física, geometria, Camilo e Eça. Para o distinguir do avô paterno, o vovô, chamavamos-lhe apenas vovôzinho. Nunca regressou a Portugal. Morreu em 1975, pouco após a independência de Moçambique.

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