07 abril 2006

Os colonialistas: a tribo branca da África Oriental (2)

Nostalgia da Europa
A minha avó materna (1911-1977 ), bisneta de Camilo e Ana Plácido, nascida na Casa Amarela de S. Miguel de Ceide. Na juventude consideravam-na "uma elegante", expressão que no Porto doa anos 20 era sinónimo de educação burguesa. Trabalhou na Livraria Lello, local de encontro das letras nortenhas e partiu para Moçambique aos 21 anos, onde casou com o meu avô. Os primeiros ares de África foram-se desagradáveis. Ria-se dos atrevimentos arrivistas de alguns parvenus ainda deslumbrados pela riqueza inesperada, coleccionava atitudes extravagantes - champanhe e espargos às refeições - a par de uma apreciável colecção de jóias, lacas, marfins e porcelanas, que foi acumulando nas sucessivas casas onde viveu, acompanhando as deambulações próprias da carreira do marido. Com a inesperada morte deste, em 1955, acentuou-se a excentricidade de carácter, fechando-se no seu mundo e memórias. Viveu os últimos 20 anos de África em Lourenço Marques, investindo em negócios sem futuro e muito mal aconselhada por advogados pouco escrupulosos. Quando eu era criança, contava-me histórias de arrepiar sobre feiticeiras que conhecera nas profundezas da savana, bem como hilariantes historietas dos hábitos dos povos que aí habitavam. Uma delas, que nunca esqueci - não sei se verdadeira ou produto da sua prodigiosa imaginação - prendia-se com as práticas gastronómicas dessas gentes. Um dia, um criado dissera-lhe que não queria almoçar. Coisa estranha, pensou. Minutos volvidos, passeando pelo jardim, encontrou o mesmo mainato, acocorado a um canto, a comer uma rã viva ! Outra estória que me fez rir a bandeiras despregadas. Um mufana (jovem criado) desculpava-se a torto e a direito dos seus afazeres, dizendo-lhe "senhora, tenho de ir retratar". Intrigada por tantas idas ao fotógrafo da vila, questionou o meu avô sobre tão raro comportamento, ao que ele lhe rematou: "Ó Alice, ele não quer dizer retratar. Ele diz que vai à casa de banho".
Não tendo querido regressar a Portugal após a independência, aí ficou exposta a violências e desmandos. A sua casa foi saqueada e regressou combalida à Metrópole, onde faleceu.

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