06 abril 2006

Os colonialistas: a tribo branca da África Oriental (1)

O Senhor da Selva
O meu avô materno (1907-1955). Luso-brasileiro de Ouro Preto, educado na mística do Império e da missão civilizadora do homem branco, à Jules Ferry e Lyautey, anti-clerical mas devoto de S. José, salazarista, educado - pianista, poliglota, filatelista, fotógrafo, caçador entusiasta, etnógrafo amador e detentor de uma excelente biblioteca - percorreu sofridamente a hierarquia do Quadro Administrativo Colonial. Na cubata que lhe atribuíram em Moma, simples aspirante ainda solteiro, único homem branco entre os nativos, sem luz eléctrica, nem gás, nem electricidade, exposto às sezões da malária e sem companhia, adoptou um leãozito como companhia. O pequeno cresceu e um belo dia, vendo que o amo derramava sangue de uma ferida provocada ao escanhoar o queixo, tiranizado pelas pulsões genéticas, lançou-se para o devorar. Com o braço direito tragado pelo enorme carnívoro, a custo lançou a sinistra à pistola que trazia sempre à cintura e teve de abater o ingrato hóspede. Depois, já casado, ocupou funções de Administrador no Ile - onde a primeira certidão de nascimento de uma criança de raça branca foi lavrada com o nome da minha mãe - a que se seguiram Manjacaze (antiga capital do Gungunhana) e Panda, na Zambézia. Aí detinha, com os seus sipaios de barrete vermelho, jurisdição sobre 5.000 km2. Manhã cedo, içar da bandeira, com tropa formada e régulos em sentido. Despacho e visitas de inspecção. Aplicação da justiça segundo o código do indigenato, dirimindo milandos (sarilhos), certificando lobolos (dotes) e fiscalizando obras. Ao fim da tarde, na grande casa de zinco e ripas, a toda a volta cercada por ampla varanda, um copo de whisky e conversa com cavalheiros das companhias majestáticas do açúcar e dos palmares. Quando a Guerra sobreveio, um mapa mundo crivado de bandeirinhas de exércitos ia-se animando com os noticiários debitados pela BBC. Ninguém o podia interromper neste "esforço de guerra" em que tomava partido dos britânicos e norte-americanos. Volumosas pastas de argolas contendo recortes retirados de revistas que subscrevia - que guardo - forneciam informações sobre generais, batalhas e armamentos. Só o terão interrompido por três ou quatro vezes. Uma delas, por causa de uns naúfragos italianos, esfomeados e sedentos, que aportaram ao Canal de Moçambique depois do navio em que seguiam ter sido torpedeado por um submarino. Os anos 50 foram os gloriosos dias do Último Império. Fadado para voos na hierarquia, traiu-o a morte, por embolia, ao ser-lhe administrada uma injecção canhestra. Morreu pobre, contrariando a lenda negra do colonialista predador. Jaz em caixão de chumbo, algures num cemitério de Lourenço Marques.

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