28 abril 2006

Maluquices editoriais


Lembra um insigne colega a obra A Invasão dos Judeus, de Mário Saa, um repositório delirante de patetices anti-judaicas tão pouco convincente que até serviria, a existir, para dourar e exaltar a "conspiração judaico-bolchevista". Na obrazinha, Almada, Pessoa, Sá Carneiro, Homem Cristo Filho e António Ferro eram expostos como lídimos marranos, incutidores da peçonha moral, das taras, vícios e degenerescência em que decaíra o espírito nacional. Em suma, um sem-número de fantasias paranóicas, tão ao agrado de um certo jornalismo em busca de sedentos do sensacional. Ofereço, como contrapartida, outra obra emblemática do declínio da razão, da pena de um herói africanista e de um fiel monárquico que no fim da vida deitou tudo a perder assinando um "trabalho de investigação" - geológico, arquelógico e antropológico - procurando comprovar a ascendência atlante - sim da Atlântida - dos portugueses. Compreende-se agora que a direita portuguesa não tenha conseguido jamais aquele pingo de respeitabilidade e bom senso que tornam possível a manutenção do poder cultural.
Para gargalhar, entre a bolacha e o chá, respigo quatro curtas passagens:
1- "Entre outros factos que se podem citar como prova da existência da Atlântida, de cujas terras orientais são sobrevivência a Lusitânia e a Mauritânia, foi o do bispo S. Brandão, para fugir ao domínio dos Mouros, ter ido com muitos dos seus paroquianos estabelecer uma colónia de cristãos numa ilha que estava situada ao largo das costas marroquinas, (...) que não podia ser outra senão aquela de que são sobrevivência as Selvagens" (p. 22).
2 - "O tipo de Muge é o representante e descendente directo da casta ophiusae frous da Lusitânia. Tal é o autóctone da raça portuguesa, o protótipo da raça Atlante, o Homo-Atlanticus, em contraposição do Homo-Mediterranium, caracterizado pelo pequeno dolicóide (...)" (p. 67).
3 - "Foi ainda em virtude desses constantes contactos de fraterna amizade entre Portugueses e Mouros que, em 1415, D. João I escolheu Ceuta para início de uma nova expansão (...). (...) Quando pela segunda vez, em 1916, voltámos a Marrocos, levávamos já a suspeita que a raça mauritana tinha também por base um tipo atlante, como a portuguesa" (92).
4 - "Vejamos agora a evolução social e de cultura dos Atlantes (...). Ao fim do paleolítico, os Atlantes tinham a sua religião, da qual era Endovélico o deus supremo, viviam permanentemente em fortalezas denominadas castros, ou em cavernas, e toda a Atlântida estaria densamente povoada, dividida já em tribos (..)"

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