10 abril 2006

E se mais mar houvesse


Em maré de evocações familares, não posso deixar de recomendar uma visita à Exposição patente até 11 de Junho no Centro Português de Fotografia (Cadeia da Relação do Porto). A colecção de velhas fotos da África colonial, pertencente à minha irmã Ângela Camila, é um repositório valiosíssimo de documentos que medeiam entre os anos 60 do século XIX e o fim da era colonial. Transcrevo o texto introdutório ao roteiro da exposição.
Afectos e circunstâncias na Cadeia da Relação do Porto

E se mais mar houvesse!” Fotografias e fotógrafos da África portuguesa, na Cadeia da Relação do Porto, é a oportunidade de apresentarmos parte da nossa colecção de fotografias das ex-colónias portuguesas, sendo ocasião única para manifestarmos a nossa paixão e admiração por aquilo que nos mostram e também pelo que testemunham enquanto manifestação da acção de um povo no mundo.
Foi afectuosamente que aceitámos o convite do CPF para este espaço. Aqui, na Cadeia da Relação do Porto, estiveram presos em 1862, acusados de adultério, Camilo Castelo Branco e Ana Plácido, de quem sou descendente. Aqui também esteve preso, anos antes, por volta de 1856, acusado de passador e fabricador de dinheiro falso o maquinista e relojoeiro Abílio Simões da Cunha Moraes; Cunha Moraes voltaria a este cárcere em 1863 donde partiria para 15 anos de degredo em Angola, onde se lhe juntaria a família. Em 1868, Abílio da Cunha Moraes, então com 43 anos, inaugura a sua primeira casa de fotografia - Loanda – Photographia de Abílio S. C. Moraes tornando-se após a sua morte em 1876, - Loanda - Photographia de Viúva Moraes e Filhos e depois - Photographia J. A. da Cunha Moraes. José Augusto da Cunha Moraes era um dos seis filhos de Abílio da Cunha Moraes e viria a tornar-se o mais empolgante fotógrafo da África Ocidental Portuguesa. Aquando da sua vinda definitiva para a Metrópole, inicia colaboração com a famosa casa fotográfica do Porto Emílio Biel e C.ª..
Em 1873, António José Pereira Coutinho, o Morgado de Pereira, veio a Lisboa trazer o espólio do seu amigo Vieira de Castro - José Cardoso Vieira de Castro (1838-1872) -, que acabava de falecer em Luanda onde estava em degredo. Vieira de Castro é o protagonista do Condenado, drama de Camilo. O Morgado de Pereira era amigo de casa de Ana Plácido e Camilo, em S. Miguel de Ceide. Desconheço as razões que levaram o filho adulterino de Camilo e Ana Plácido a acompanhar o Morgado de Pereira no seu regresso a Luanda. Certo é que Manuel Augusto Pinheiro Alves (1858-1977) – Manuel Plácido como era conhecido, contava 16 anos quando se hospedou em casa dos Pereira Coutinho em Luanda e por lá ficou até regressar à Metrópole em 1875, onde acabaria por morrer 2 anos depois, com apenas 19 anos de idade. Terá sido porventura retratado por Abílio da Cunha Morais ou por um dos seus filhos aquando da sua estadia em Luanda? Não sabemos.
E porque de afectos e de circunstâncias escrevo, diga-se que não ficamos por aqui. Vamos até Mocímboa da Praia, circunscrição no extremo norte de Moçambique, onde Camilo Castelo Branco Vilaça, um dos bisnetos de Camilo e Ana Plácido, se estabeleceu com a casa Foto Vilaça num reduto de fim do mundo que contava em 1960 com cerca de 52 mil almas, das quais nem 500 eram europeias.
A Foto Beleza do Porto, cujo espólio foi recentemente adquirido pelo empresário portuense Mário Ferreira, tinha uma representante em Gaza, Moçambique, mais propriamente na vila de João Belo, a casa Invicta com os seus envelopes que reproduziam a ponte D. Luís I, qual objecto estranho a circular na mais remota colónia portuguesa em África.
E podia continuar até um nunca mais acabar de afectos e circunstâncias na fotografia colonial portuguesa em África, mas a exposição está à sua espera.


Ângela Camila

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