26 abril 2006

Democracia e dinheiro

Não há democracia sem dinheiro e sem abundância. O velho e sempre jovem Walter Lippmann deixou-o claro: o limiar que separa sociedades e indivíduos é aferido pela riqueza que possuem. A riqueza proporciona educação, ponderação, fruição e ociosidade: só as sociedades livres possuem dinheiro para a recreação, para a opacidade e para a intimidade. Sociedades pobres/indivíduos pobres pedem protecção, favorecimento, intromissão e controlo. Não teremos democracia enquanto não houver riqueza. A democracia não se funda no ressentimento mas na emulação. Logo, o extremismo - doença infantil da elite cultural sem dinheiro em busca de explicações para o seu insucesso - que aduba o extremismo dos pobres de espírito - o ódio de classe, o ódio racial, o ódio religioso - termina logo que debelada a indigência e a pelintrice. É tão difícil implantar a democracia no Afeganistão como nas circunvoluções de um analfabeto. A democracia não é um credo: é um método e uma atitude. Como tal, prefiro os democráticos aos "democratas"; a liberdade à demolatria; a demofilia à demagogia. Uma sociedade rica cria uma nova aristocracia: não apenas a dos negociantes, mas também a dos mecenas, dos investigadores e dos criadores. Não há vida espiritual sem estômagos reconfortados; não há dignidade, leis e liberdade com cidadãos submetidos ao Estado. Em suma, não há soberania do povo sem a riqueza necessária à abertura de horizontes. Tudo o mais é retórica partidocrática, clubismo e empregadorismo.

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