26 abril 2006

Democracia e dinheiro: um email que exige resposta


A propósito do último post, recebi um email, aliás aducadíssimo, de alguém que contesta o que escrevi afirmando: "seria impossível pensar a Inglaterra e os EUA dominados por governos totalitários". Permita-me, Dr. AFM, plena discordância. Lembro - reforçando a minha opinião - que nos anos 30 os EUA terão estado à beira de aceitar soluções contrárias ao "espírito americano". Em depressão profunda - tão bem evidenciada por Steinbeck e Dos Passos - proliferaram soluções expeditas protagonizadas por franjas significativas da sociedade norte-americana: o católico-fascizante padre Coughlin , os camisas prateadas de William Pelley, o German-American Bund de Fritz Kuhn, mas também os comunistas de Foster , que se aliaram aos nazis após o pacto Hitler-Estaline (1939). Quanto à Grã-Bretanha, lembro um texto hoje quase desconhecido de Orwell - England Your England - no qual se recolhem afirmações do género: "o fascismo é menos pernicioso que o comunismo, a menos que se seja judeu, comunista ou social-democrata".
Não há sociedades cuja genética predisponha a esta ou àquela forma de governo. A Rússia de 1913 caminhava para o regime parlamentar quando uma catástrofe (Grande Guerra) a atirou para a revolução. A Alemanha dos anos 20 era uma sociedade aberta quando, subitamente, sobre ela se abateu a crise económica. Lembro que Hitler não passaria de um político de terceiro plano se as circunstâncias favoráveis da desagregação precipitada pela depressão o não tivessem favorecido. O mesmo se passa com a Europa de hoje. Sabemos lá o que se passaria se sobreviesse algo análogo a 1929, mas tenho para mim que é sempre de prever o pior das mais santas criaturas com quem nos cruzamos diariamente. Quando acaba o dinheiro, começa a revolução.

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