22 abril 2006

Cemitério índio

Que raio de terra é esta, onde toda a energia se esbanja na maledicência, na inveja, na coscuvilhice, no abate de pernas alheias, na demolição de reputações e quejandos movimentos subterrâneos ? Vou ao lançamento de um livro ou à inauguração de uma exposição - que tanto trabalho deram a quem a elas dedicou esforço, criatividade e tempo - e todos arquejam em suspenso, esperando uma gaffe, um assomo de ridículo, uma oportuna quebra do autor. Convidam-me para uma reunião de trabalho e metade do tempo útil é desperdiçado em considerações sobre ausentes. Vou a um jantar e o canibalismo escorre pelas bocas, fazendo transbordar os pratos e apodrecendo os alimentos. Isto deve ter sido construído sobre um cemitério índio. A misantropia começa a apoderar-se de mim. É curioso ter resistido tanto tempo até que os olhos se abrissem e visse, sem o estulto manto romântico, a verdadeira realidade das coisas. Vem isto a propósito de tudo e de nada !

Sem comentários: