14 abril 2006

CCB

É com alguma frequência que ouvimos remoques a respeito do Centro Cultural de Belém. Diz-se obra terrível, funesta para a "sala de visitas do país"; em suma, um mamarracho. Este ponto de vista é assinado por um dos mais lúcidos [teclados] : o nosso quase sempre infalível Jansenista. Decerto que Jansenista não estriba os seus argumentos no reaccionarismo característico dos eternos retardatários. Na percepção da mudança, os homens dividem-se em três grupos: aqueles que pressentem a mudança, aderindo-lhe contra o gosto do seu tempo (os vanguardistas); aqueles que a vivem sem sobressaltos (os modistas) e aqueles que só as vivem depois do tempo (os retardatários). De fora, sempre, os eternos nostálgicos de um passado pintado a ouro. O CCB incomoda porque é incómodo. Típico por típico, impunha-se regressar aos anos 30, demovendo a estética anos 40 implantada no areal que dava a graça do abandono ao local. E porque razão retiraram as antenas TSF à Torre de Belém ? Deixem, for favor, o Museu de Arte Popular, com aquela traça distinta de Café dos Pretos da Feira Popular, mais o prolongamento dos Jerónimos (Museu de Arquelogia e Museu de Marinha), inventadinhos em 1880. Brinco. O CCB só peca pelos acabamentos: estuque, madeiras pobres e tectos que escondem as misérias do improviso. Mas fica bem onde está pois, a não existir, talvez o local fosse arroteado por um desses empreiteiros de regime. Já agora, mutatis mutandis, acabei por gostar das Amoreiras. A cidade não é uma tese. As pessoas não vivem em teses. O CCB conquistou os lisboetas, coisa que a Praça do Comércio nunca conseguiu realizar. O belo e o medonho são convenções datadas. Para uma obra de arte é preciso saber olhar; para um edifício é preciso saber se serve ou não o propósito que o instaurou. A obra de arte arquitectónica só se revela à distância, quando a utilidade/funcionalidade perde primazia. Prova ? O Convento de Mafra nunca serviu o propósito da edificação nem deveio em obra de arte. Quanto ao CCB, tem servido, e bem. Ainda há semanas lá fui assistir a uma grande representação e comparei a grandeza do auditório a outros espaços similares existentes em Lisboa. Senti-me bem: tem grandeza, solenidade e décor.

Sem comentários: