05 abril 2006

Acidez e veneno


No passado domingo dei de caras com uma criatura que não via há anos. Há pessoas assim: não têm outro préstimo que o de nos lembrarem o precipício e tudo que literariamente tipifica baixeza sulfurosa, infâmia, ódio ao humano, ácido vinagre e os instintos mais perversos que lançam uma sombra sobre a descendência do casal edénico. Em dez minutos de forçado convívio, a figura esverdeado-amarelada barricada por detrás de uns óculos fundo-de-garrafa foi semeando a conversa de impropérios, comprazendo-se em esmiuçar canalhices alcoviteiras sobre mulheres, sobre homens, crianças, raças, países e ocupações, numa espiral de imundícies intercalada de arquejos de puro prazer maledicente que me estragou o almoço. A custo vi-me livre dos tentáculos do metífico homúnculo. Depois, pensei: "esta coisa, que nunca teve uma profissão, que nunca fez nada pela sociedade, que mal sabe escrever, que nunca estudou, que nunca amou nem foi amado tem um atrevimento que não se toleraria ao mais santo dos mortais". Fiquei abatido e voltei à fita. Ali, ao menos, os maus são pagos para o serem. Se fosse realizador, o único papel que lhe atribuiria seria o daquele facínora da Flying Jail que se deslocava numa cadeira cintada e máscara de ferro afivelada às mandíbulas. Calcule-se o que seria a coisa se lhe dessem uma molécula de poder sobre a vida de terceiros !

Sem comentários: