16 abril 2006

24 de Abril e 24 de Novembro


Comemoram-se no próximo dia 25 três décadas mais dois anos sobre o golpe de Estado que levou para o exílio Marcelo e Tomás, que restituíu à tropa o poder que detivera até à institucionalização do Estado Novo (1933) e abriu a porta a uma das mais dramáticas mudanças da história nacional. À distância, sem paixão, sem facciosismo nem nostalgia, podemos começar a libertar-nos desse tempo, como do tempo que precedeu o início da "revolução". A melhor tisana para nos libertarmos das correias da memória e paixões passadas encontramo-la, não na ideologia, nas proclamações, nos mitos mobilizadores e na abundante bibliografia disponível sobre o assunto no mercado livreiro, mas nas fotografias, nos jornais e revistas do interim que medeia entre o 24 de Abril de 74 e o 24 de Novembro de 75.
Em 24 de Abril de 74, o país estava farto do regime autoritário. A sociedade portuguesa estava mais rica, mais solta e menos dependente do Estado, pelo que pedia mais liberdade: 10% de crescimento económico/ano, 500.000 accionistas na bolsa, poder de compra 100% superior ao de 1960, investimento estrangeiro em larga escala, 60% do poder de compra europeu. As ditaduras morrem sempre que a sociedade civil se independentiza e sente o Estado como um estorvo para a afirmação das liberdades reclamadas pelos indivíduos, pelas classes e pelos grupos económicos. As ditaduras, se não perecem de aventuras desastradas, fenecem pela riqueza de uma nova classe média. Assim morreria o Estado Novo, se não tivesse havido o golpe, como assim morreram o franquismo - doença do enriquecimento - e o regime dos coronéis da Grécia, por uma derrota militar no Chipre.
Em 24 de Novembro de 75, o país estava farto de balbúrdia. A sociedade portuguesa estava mais pobre, mais carente de governação e autoridade: 20% de desempregados, colapso da produção industrial, falta de liquidez das empresas, fuga do capital internacional e êxodo das classes operantes, 5.000 presos políticos, inflação galopante, chegada de meio milhão de refugiados de África.
Folheamos meia dúzia de periódicos desse ano e meio. Em 24 de Abril, a sociedade portuguesa era mais europeia, mais à la page com o mundo ocidental e capitalista. O regime era velho e atípico, mas Portugal era tido pela insuspeita Time Magazine como o "próximo milagre económico", a seguir à Itália e Espanha. Minissaias à Mary Quant , óculos escuros pop, música ligeira interpretada em inglês, casinos, automóveis espalhafatosos, vida nocturna pujante, gosto pelo consumo, pelas viagens, forte influxo de turistas europeus. Portugal estava a caminho da Europa: pertencia à OTAN, à EFTA e assinara o acordo de pré-adesão à CEE.
Passou um ano. Em Novembro de 75, os portugueses eram mais subdesenvolvidos, mais terceiro-mundistas, mais Estado-dependentes, mais pelintras: música de intervenção, vestimentas andrajosas, pinchagens vandalizando a quase totalidade dos edifícios públicos e privados das cidades. Portugal estava a caminho de Cuba: nacionalizações, colectivização, racionamento. Valeu a pena a revolução ? Não. Outra solução se perfilara, mas ninguém teve coragem de cortar o caminho a Cunhal.

Sem comentários: