29 março 2006

Permanência de Portugal


Quaisquer que sejam os juízos produzidos a respeito dos tempos que correm, há um diagnóstico marcadamente reservado que abraça todas as perspectivas e observadores atentos no evoluir da sociedade portuguesa. Há, no ar, uma percepção clara de perda, de inautenticidade e figuração geradoras ou de mal-estar, resignação e apatia, ou de cólera e agitação inconsequentes.
O problema português está nas elites, no povo chão, nas instituições, nas práticas, mentalidades e atitudes. Não exagerando, arriscaríamos dizer que Portugal, tal como se pensou enquanto identidade e comunidade de valores com um sentido na história da Europa e do mundo, entrou em colapso. Dele sobrevivem réstias arquitectónicas, crónicas, vultos e memórias inactuais, ou seja, incapazes de exercerem qualquer referência exemplar sobre os portugueses de hoje. País pobre, vivendo de favores da UE, com a mais elevada taxa de analfabetismo e iliteracia do continente, impenitente pelo conservadorismo serôdio, esbanjador das verdadeiras tradições que o fizeram distinto das demais nações, mal governado, privado de um projecto colectivo agregador das remanescentes energias, está, tudo o indica, a viver os últimos anos de uma certa ideia de nação, pátria, Estado e soberania legados pelo século XIX.
A alteração mágica, ditada pela mudança do regime ou sistema – ou do regime e do sistema – não alteraria significativamente o quadro recessivo, antes o poderia precipitar. Os republicanos de 1910 tentaram-no e fracassaram. O regime que sobreveio ao 28 de Maio tampouco o conseguiu, dado o fim trágico que demonstrou a sua notória falta de vontade. O regime actual, esse vai arrastando a penosa incapacidade – a que se juntam, em grotesco frenesim de corrupção, demissão cívica e cobardia – por veredas de clara perdição colectiva.
Não há Universidade ? Não há Forças Armadas ? Não há corpos intermédios ? Não há agentes de reacção ao esboroamento e ao cerrar de horizontes ? Onde estão os empresários, os banqueiros e os sindicatos ? E essa tão invocada reacção da “sociedade civil” ? A nosso ver, nada acontecerá até que, conscientes da iminência do desfecho fatal, os portugueses libertem essa energia escondida que sacode os povos ameaçados de desaparição.
Não tenhamos dúvidas. As mudanças, se não se fazem a partir dos homens singulares, nunca acontecerão. Quanto muito, as mudanças violentas da ordem institucional criam a ficção de um novo renascimento. As elites chegadas ao poder por via de levantamentos e revoluções geram mitos e terminam vítimas do aplauso, da retórica e da ilusão que criaram. As pessoas comuns, por seu turno – aquelas que não falam, não exprimem, não ousam pensar – guardam no recesso da sua inofensiva cobardia o prazer compensatório de ver subir e precipitarem-se os regimes e os sistemas que vivem, sempre, para além da sua cabeça.
Que soluções se poderão descortinar ? Que meios e que ideias estarão ainda vivos para permitir um renovo ? Difícil a resposta, porquanto, por mais que tentemos, as respostas surgem-nos contraditórias. Este povo é um verdadeiro prodígio de sobrevivência. Temos uma cultura teimosa e uma visão do mundo que persiste, mau grado o flagelamento, a desconstrução dos mitos mobilizadores e a acção persistente de tudo o que nos faz esquecer o passado. Temos a terceira língua mais falada no hemisfério ocidental, temos no Brasil a 5ª potência económica mundial, países lusófonos espalhados pelos 5 continentes. Persiste, entre os portugueses, uma feroz desconfiança em relação ao espanhol, o único adversário físico que contivemos e vencemos à custa da nossa riqueza passada. O Iberismo é claramente negado pelo português comum. Estamos na Europa, integrados nas principais instituições, onde ainda o nosso voto conta. Vencemos há dois anos a batalha pelo reconhecimento no seio da aliança ocidental, que os espanhóis cobardemente abandonaram. Temos, ainda, esse incontido sentimento de sermos maiores que a geografia que ocupamos. O nosso erro tem sido, precisamente, o de compararmos Portugal com a França, a Espanha, a Grã-Bretanha ou a Alemanha. Entre os pequenos, somos os maiores. O que deixaram a Dinamarca, a Holanda, a Bélgica, a Suécia, a Finlândia, a Irlanda ou a Suíça na história mundial ? Língua ? Literatura universalmente reconhecida ? Figuras marcantes na acção política, artística, no conhecimento ?
A grande pergunta – a decisiva e mais difícil, que Lenine apôs a um dos seus mais notáveis escritos – “o que fazer ?”, respondemos: aceitarmos o que ainda nos faz diferentes, deitar fora o que nos marca com o estigma do desajustamento.
Sigo com a maior aflição a escalada da irracionalidade que vai destruir os vestígios da dimensão universal da ideia de Portugal. Se sou sem rebuço inimigo do melting pot, da invasão migrante e da bantustização do país – Portugal europeu, lembra António Barreto, sempre foi quase homogéneo étnica, religiosa e linguisticamente – não posso deixar de avisar que a adopção de uma acção política inteiramente obcecada pelo problema da imigração transformará os portugueses noutros sérvios, noutros croatas ou noutros albaneses. A minha ideia de Portugal é bem maior.Nas múltiplas viagens que tenho feito pelo grande continente asiático, encontro marcas perduráveis da teimosia portuguesa em permanecer. O nosso nome, a nossa memória, as nossas fortalezas, igrejas, vilas e aldeias continuam a ser proferidos com respeito. Ir a Goa, a Malaca, à Ilha de Moçambique ou à Tailândia dá-me a esperança da permanência de Portugal.

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