13 março 2006

Ângulos mortos da história

O tema, quase proibitivo, aflora envergonhado de quando em vez nas milhares de obras consagradas a essa guerra civil que marcou a refundação dos EUA. Pondo de parte a mitologia sulista que encontramos no Birth of a Nation (1915), de DW Griffith, ou no Gone with the Wind (1939), de Victor Fleming, a luta entre o Sul e o Norte não foi, decididamente, o choque entre o esclavagismo e a democracia, mas o embate entre dois mundos irreconciliáveis, duas ideias opostas de soberania e dois futuríveis do destino da América do Norte. O petit détail da libertação dos escravos negros nunca marcou a agenda federal e Lincoln, hoje quase um santo laico, tinha sobre os negros opiniões impublicáveis, que contrastam com a negrofilia de muitos líderes sulistas. Acabo de ler Civil War High Commands, de John e David Eicher e fico a saber que o Sul decretou em Março de 1865 - pouco antes do desenlace da guerra - a criação de um "exército negro da Confederação". Espantoso, não é ? Habituada a dicotomias - luz-trevas; bem-mal; belo-feio - a nossa inteligência sente-se ridicularizada e enganada quando confrontada com contradições destas. Lembro, contrariando a bela mentira, os 800.000 portugueses "continentais" que terão lutado em África em defesa da soberania portuguesa. Ora, desses 800.000, metade dos efectivos eram de conscrição local: negros, mulatos e brancos naturais de Angola e Moçambique. Ainda me lembro do Augusto Matavele, empregado em minha casa, quando um dia apareceu-nos fardado e orgulhoso dizendo que era um "soldado de Portugal".

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