09 março 2006

Lourenço Marques e Maputo

Fui ontem entrevistado por uma estação de rádio a propósito da profissão que exerço. A jornalista, que me pareceu excelente, competente e bem informada, mostrou-se algo perplexa quando, por duas ocasiões, referindo-me às origens coloniais que orgulhosamente cultivo, chamei Lourenço Marques a Maputo. "Lourenço Marques ? Ah, sim, Maputo", a que respondi, "não, Lourenço Marques". Tenho amigos alemães, cujas famílias foram expulsas da capital da Prússia Oriental, que insistem em chamar Königsberg a "Kaliningrad". Outros alemães haverá que, com propriedade e razões que só o coração conhece, chamarão Dantzig a Gdańsk, Stettin a Szczecin, Karlsbad a Karlovy Vary. Italianos, na mesma condição de refugiados, persistem em chamar Fiume a Rijeka, Zara a Zadar e Pola a Pula. As cidades não são as mesmas quando o povo que nelas habita se muda por força das tragédias da história. Lourenço Marques era a capital da África Oriental Portuguesa, uma cidade colonial dotada de uma memória, de ritmos e estruturas sociais, políticas, culturais e económicas bem definidas. Depois, subitamente, tudo aluiu. Perdemos a nossa cidade, as nossas casas e monumentos, as ruas mudaram de nome, os antigos moradores esfumaram-se, desagregaram-se as malhas familiares, os amigos, os vizinhos perderam-se. Até os meus queridos cães e gatos tiveram de ser abandonados. Aquela Maputo a que se referia a simpática jornalista não existe: é-me tão familiar como Bujumbura, Kigali, Menongue, Ondjiva, Pemba ou Lichinga...
Lourenço Marques ainda existe, mas no recesso da nossa memória de espoliados. Vive na saudade, nas conversas e na dor de uma terra que era nossa - onde nasceram três gerações dos nossos - e que se eclipsou. Sei que poucos compreenderão o que estou a dizer. Talvez se um dia Lisboa mudasse de nome e de habitantes pudessem sentir o que sinto há 30 anos ! Ontem, a estátua de Mouzinho dominava a grande praça central. Hoje deve lá estar talvez o Gungunhana. Tudo mudou. Não devo voltar.

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