15 março 2006

Império europeu

Entre o império e o clã, a história das entidades políticas colectivas parece ter fixado na ideia de nação o justo equilíbrio em que massa crítica, cidadania e funções e serviços prestados pelo Estado melhor se adequam às necessidades e interesses dos indivíduos. Finley mostrou-o no que respeita à Antiguidade, Foustel de Coulanges quase o demonstrou na Cidade Antiga - que não era cidade na dimensão urbana actual, mas território dimensionado à escala da prática das liberdades de uma comunidade - e Jaeger exaltou-o como o cânone óptimo. As cidades-estado e respectiva cultura urbana de participação floresceram do Indo (Mohenjodaro) à Babilónia, da Atenas democrática à megálê rhétra (Esparta), da Roma primitiva à Cartago anterior aos Barca. Os impérios antigos trouxeram o autoritarismo, o discricionarismo e o afastamento entre os homens e o poder, cada vez mais enroupado em abstracções, como lembraram, avisados, Cassier e Raymond Boudon.
No mundo moderno, a fórmula mais praticada é (ou foi até há muito pouco tempo), a do Estado-nação. Hoje, muitos tratadistas afirmam que o Estado nação não resiste à dinâmica e necessidades das comunidades interdependentes, nem tão pouco à globalização. Parece haver aqui uma contradição flagrante. Se se pede maior dinamismo e capacidade, optemos pela ideia de Império. Porém, os impérios são liberticidas por necessidade. Se se pede maior autenticidade e aprofundamento da vida pública, optemos pelas entidades micropolíticas. Estas serão, fatalmente, mais pobres. A Europa pretende unir-se ! Mas o que quer dizer, neste particular, a união? A União Europeia apenas trata de se adaptar para sobreviver à concorrência de espaços imperiais consolidados por séculos de acção de Estados codificadores (EUA, China). Para tal, foi ao passado alemão ( a locomotiva do continente) e reeditou a ideia de confederação germânica, imediata antecessora do II Reich alemão. Há uma fatalidade imperial por detrás do projecto europeu. No passado, tais desígnios foram tentados manu militari por Napoleão ou Hitler. Falharam. Hoje, pretende-se unir sem vitória. Tenho para mim que tal união jamais se venha a realizar.

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