25 março 2006

Fanatismos

O fanatismo saído da racionalidade, que rima com ideologia, é tão letal como o fanatismo saído da irracionalidade, que rima com religião. Se o Corão - o livro que mais livros queimou, de Alexandria a Córdova - mais a Bíblia e a Torah se têm encarniçado desde há 2500 anos por demonstrar ao homem a sua insignificância - e disso já Nietzsche falou porfiadamente, escavando até ao osso - a tara ideológica assume a empresa da alienação socorrendo-se da racionalidade para justificar a pequenez, a relatividade dos indivíduos e a justificação para todas as agressões, mutilações e infelicidades executadas contra os homens concretos. Custa-me viver em meios ideologizados, pois não sei se estou a falar com pessoas, se me relaciono com tipos, médiuns e mandatários de abstracções. Dei comigo a pensar no assunto (que faria as delícias de Voltaire, de Rudolf Gellner e Vaneigem) enquanto ontem, num jantar, se esgrimiam um liberal e um marxista. Tudo teoria, frases feitas, citações. Aqueles dois borrachos só leram, nunca viveram. Vivem obcecados com a coerência. No dia em que acordarem do sono ideológico viverão mais livremente. Por enquanto, não passam de médiuns.

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