31 março 2006

Falar do mundo sem o conhecer


Certezas e paixões assolam a blogosfera. Parecem testemunhas de Jeová armados de frases-feitas, condenando e açoitando, incensando e santificando povos por atacado, repetindo migalhas de sub-cultura ideológica. Há ódios e paixões suficientes para fundar três infernos de geenas, meia dúzia de paraísos e, porque não, uma centena de purgatórios de reciclagem. Da esquerda para a direita, os mesmos autores, os mesmos títulos, as mesmas fixações rotulantes. Não interessa se Céline era um bandalho como homem e um génio como escritor: o que interessa é ter sido fascista; se Jean-Jacques Rousseau era um escroque como pessoa e uma inteligência luminosa: o importante é ser um dos ídolos da esquerda; se Leni Riefensthal marcou ou não a fotografia e a filmografia europeias do século XX: o relevante são os acidentes da sua danação nazista; se Pessoa abriu ou não um sulco impressivo na relação dos portugueses com a sua língua: o importante, para os facciosos de um lado, é o ter escrito a Mensagem (uma obra fraca, quase insignificante no mapa da sua produção) e para os facciosos do outro lado ter sido agraciado com um prémio dado pelo amigo e protector António Ferro. Apercebemo-nos, finalmente, que quem fala de Israel, da China, das Alemanhas e das Rússias, dos Bilderbergs e das "shoas", de S. Tomás e de Marx, das mães-de-aluguer e do buraco do ozono, da CIA e de cabalas, nunca saiu da sua rua, nunca viajou nem confrontou culturas. O saneamento para tal apego a teorias está à mão, ali no Governo Civil. É requerer um passaporte e viajar, seja pé, de bicicleta, de triciclo, autocarro ou avião. Nas bibliotecas está tudo, mas nem tudo está nas bibliotecas. Viajar é preciso, não como turista, mas como viajante.

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