15 março 2006

Cem mil portugueses "fundamentais": e se Fernando Pessoa não fosse vacinado ?


Levantou-se esperado alvoroço público com o anúncio da existência de uma relação de 100.000 portugueses tidos por "fundamentais"; logo, merecedores de cuidados profiláticos em iminência de surto epidémico. Invoca-se, com assomos de indignação, a igualdade constitucional no cortejo de argumentos metafísicos e jusnaturalistas para exprobar a decisão da Direcção Geral de Saúde. Fiel às minhas convicções, não posso deixar de aplaudir a decisão in abstracto, porquanto não conheço por ora a que categorias se refere tal adjectivo. Se por "fundamental" entende-se futebolistas, classe política, jornalistas e entertainers da tv, mais vip's das revistas do coração, recuso a bondade da decisão. As pessoas são iguais perante a lei, mas não são iguais em talante, mérito e utilidade social. Para acalmar os mais desavisados tenho a informar que não sou adepto da eutanásia para deficientes profundos, doentes terminais, idosos e demais grupos improdutivos, nem julgo que seja obrigação do Estado tratar de instâncias que remetem para a dedifração de problemas ontológicos que encontram sede apropriada na Filosofia e na religião. Agora, é-me impossível aceitar o argumento de que, em situação de tragédia, as pessoas são todas iguais. Discordo. Se Maquiavel, Miguel Ângelo, Leonardo, Descartes, Hobbes ou Galileu tivessem sido colhido pela peste, o curso da história teria sido o mesmo ? Se Fernando Pessoa tivesse morrido em 1918, vítima da Gripe Espanhola, seria a nossa literatura a mesma ? Nestas coisas de escolher entre amigos e desconhecidos, temos sempre a tentação de optar pelos ditames do Teodoro de O Mandarim: uma perna partida no segundo andar esquerdo é bem mais trágica que um sismo na distante China. Salvem, por favor, os cientistas, os escritores, os músicos, os artistas plásticos, os médicos, enfermeiros, bombeiros e polícias e deixem-me morrer descansado.

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