17 março 2006

Carácter e opções políticas


Sou um intuitivo e sempre cismei que as pessoas vão à procura daquilo que são. As opções políticas - como as filosóficas e as religiosas - estão no carácter antes de estarem no tempo, nas experiências e nos tratados. Tenho travado conhecimento com milhares de pessoas e tomo por adquirido o facto de um comunista, um nazi, um liberal ou um conservador o serem, não por acidente, mas por essência, ou seja, por algo sem o qual não poderiam deixar de ser o que são. Na decantação desta certeza deixei-me de sociologices à Fromm ou W. Reich - a velha ladainha freudo-marxista - e tentei compreender o demónio (na acepção grega) que cada pessoa transporta. Fiquei varado quando encontrei a resposta. É a John Gray - mais que Konrad Lorenz, que situava o problema numa ancestralidade animal - que devo a ousadia de trespassar a velha arrogância filosófica de pensar o tema das ideias para o homem e não vice-versa. O mundo não tem remédio pois os homens são os mesmos desde Lascaux do sílex lascado. Estamos condenados a repetir as tragédias, os erros e violências porque estas estão dentro de nós antes de dominarem a atmosfera em que vivemos.
Um comunista de hoje teria sido um jacobino sob o Terror, um lolardo no século XV, um seguidor dos irmãos Gracos na Roma do século II a.C. ou um sequaz de Akenathon. O paraíso ao alcance da mão, o culto da violência justa e necessária, a aversão pela superioridade, o despeito pela propriedade alheia e pelas diferenças, a anulação da individualidade e o refúgio aconchegante na responsabilidade partilhada caracterizam a psique desta gente. Naturalmente que o enquadramento civilizacional e epocal exercem grande influência no partejamento das mundivisões (um "comunista" polinésio será diferente de um "lolardo" khmer ou de um Graco iraniano) mas a matéria prima é a mesma. Afinal, a personalidade dita as opções, aclimata-as e introduz a necessária racionalidade situada. Há, nas várias tipologias tentadas pelos psicólogos, a percepção da universalidade dos tipos psicológicos que têm origem nos quatro elementos presentes em todas as culturas (ar, água, fogo e terra). Dos Gregos a Jung adaptou-se a fórmula e distribuiu-se a espécie entre coléricos, fleumáticos, biliosos e sanguíneos.
O que faz um menino rico, educado e ocioso impacientar-se e transformar-se num Che, num Fidel, num Cunhal ou num Berlinguer ? O carácter. O que faz um pobre rapaz, marginalizado e subnutrido transformar-se em liberal ou conservador ? O carácter. Em breve voltaremos ao problema.

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