27 março 2006

Cabo Verde: reunião com Portugal


Foi sem assombro que ontem, à volta da mesa, fui confrontado com uma certeza que alimento há mais de duas décadas: os caboverdianos - com exclusão de um pequeno grupo de privilegiados barricados na lei de ouro do monopólio dos cargos públicos - aceitam, sem grande emoção, a ideia de uma ligação constitucional a Portugal. Quando, em 1985, fiz tal proposta em nome da Nova Monarquia, fui liminarmente tomado por neo-colonialista, nostálgico, "pretista" e outros mimos habitualmente atirados pelos ultras do abrilismo descolonizador e pelo "bunker" da direita tribalista. Ao longo dos anos tal possibilidade voltar-se-ia a colocar em conversas com o Professor Adriano Moreira, com o embaixador José Aparecido de Oliveira (mentor da CPLP) e com quadros portugueses com experiência na cooperação e longas estadias na Praia. Cabo-Verde só geograficamente pertence ao continente africano. É integralmente um produto português, com origem matricial nas experiências colonizadoras da Madeira e Açores e antecedente imediato da construção do Brasil colonial. Habituámo-nos à ideia peregrina dos idos de 70 da irreversibilidade do processo histórico da descolonização. Hoje, pensa-se de forma diversa, tanto mais que o velho modelo colonial morreu e surgem formas novas de soberania partilhada que carreiam esperanças para estados exíguos. Cabo Verde, dotado de governo e assembleia representativa - e até mesmo de chefe de Estado - poderia constituir-se em Estado associado a Portugal com o invejável estatuto de região ultraperiférica da União. Haverá por aí um partido político com coragem para avançar com a proposta ?

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