14 março 2006

Budismo e capitalismo

A contestação sobe no país dos sorrisos. O primeiro-ministro tailandês Taksin Shinawatra, o homem mais rico do sudeste-asiático, pertencente à opulenta minoria chinesa e apostado em introduzir profundas reformas no sistema económico, trouxe hoje às ruas de Banguecoque uma mole humana descontente com o curso das políticas da sua governação, um misto contraditório de ultraliberalismo desejado com neo-keynesianismo de processo. Taksin apresenta contradições claras, somente compreensíveis no quadro da sociedade tailandesa. Por um lado, ensaia políticas de protecção social aos mais desfavorecidos - comparticipação do Estado na prestação de cuidados médicos, aplicação do regime de reformas e aposentação, investimentos infraestruturais e política de rendas - enfatizando a responsabilização dos cidadãos no cumprimento das suas obrigações fiscais, facto inédito num país em que a fuga aos impostos assume proporções inimagináveis para a sensibilidade ocidental. Os grandes interesses e os detentores de fortunas nunca tributadas acusam-no de "demagogia" e "populismo". Por outro lado, estruturou uma vasta rede de clientes e favoreceu notoriamente a sua vasta parentela em negócios e concursos públicos de adjudicação de obras públicas. A corrupção, um flagelo na Ásia, vive com Taksin em plena concordância com as características do meio. Como multimilionário, tende a confundir o Estado com os seus interesses patrimoniais, mas não o move um intuito claro de enriquecer à custa da função que ocupa, dado ser o maior contribuinte e o maior empregador do país; logo, o mais prejudicado pelas políticas que está a implementar. Taksim tem um sonho: o de transformar a Tailândia numa nova Coreia do Sul, um país industrail, moderno, high tech e respeitado na arena internacional. Lembra, mutatis mutandis, o discurso desenvolvimentista de Cavaco nos anos 80: primazia aos negócios, iniciativa privada, captação de capitais estrangeiros, mudança de mentalidades e modernização.
Porém, a revolução que está a liderar encontra grandes resistências. Os tailandeses querem ser tailandeses e não americanos. País profundamente alicerçado sobre o budismo, onde a família, a tradição e a hierarquia são acatados tão naturalmente como o ar que se respira, a Tailândia recusa o ar americano do bilionário. A tradição recente do país compatibiliza-se mais com proteccionismo, paternalismo, poder militar e acomodação. A democracia, nos termos em que o budismo envolvente predica, é um misto de suave reformismo e manutenção das arquitraves de uma sociedade autoritária. Os partidos políticos são clubes fechados de familias, homens ricos e aristocratas que acharam por bem acompanhar, não abusando, o culto universal do regime representativo. Estou certo que Taksin não poderá resistir por muito mais tempo no poder. Os tailandeses querem continuar tailandeses.

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