30 março 2006

Berlusconi


A Itália é adorável. Detém 60% do património museológico e arquitectónico europeu, transporta infuso o bom gosto, o equilíbrio formal e a magia das subtilezas que só espíritos duramente exercitados conseguem produzir. Os italianos são montras dessa porfiada decantação. Ao contrário dos franceses, que trabalham para o refinamento e para a elegância - e disso têm consciência - os italianos realizam sem aparente fadiga a arte de viver, estar e permanecer como italianos. Contudo, por detrás da sedutora imagem, esconde-se algo muito antigo, perturbador e doentio no carácter desses faladores inveterados, desses artistas genéticos, desses cantores e esbracejadores arrebatados. A violência, alguma crueldade e gosto pelo sangue perpassam pela vida deste povo desde as mais remotas origens. A história de Itália - como expressão geográfica, nacional e política - é um desfiar de rivalidades, lutas civis, ajustes de contas e frustrações colectivas que não encontram par em nenhuma outra nação europeia. A atmosfera de opereta que envolve a vida pública italiana - o toque de ridículo que ressuma das peripécias da vida interna, mais o ridículo e o fiasco das intervenções do país na cena internacional - transformam o país em mote para o anedotário universal e para a irrisão. Os alemães diziam em 1914, não sem alguma piada, que a Itália - ainda aliada das Potências Centrais - forneceria as marchas militares, a Alemanha os soldados e a Áustria a comida. Ainda. Outra provelbial tendência italiana: mudar de campo, desdizer compromissos, trair os amigos. Aquele povo, demasiado envolvido nas artes cénicas, não consegue distinguir o ilusório do real. Tudo são cascatas de palavras, sonoridades, gestos dramáticos, juras de morte e de paixão, mas mal o pano cai, o actor sai disparado, com o pão em baixo do braço, a garrafa de vinho e o queijo ralado em busca de um lar com uma mesa onde um monte de raviolli lhe provoca o esquecimento.
Berlusconi é o retrato da Itália, como o foram no passado Andreotti, Mussolini e Cavour. Se estes foram, qualquer que seja o juízo que deles se possa produzir, dois grandes políticos, Berlusconi não pode ser mais Andreotti, nem Mussolini, nem Cavour. Não pode ser Andreotti, pois a Mafia já não governa o país como nos tempos da Democracia Cristã. A Europa não deixa. Não pode ser Mussolini, pois nos tempos em que se vive ninguém aceita que um homem queira dominar e confiscar o poder em nome de uma nação que não confia em Roma. Et pour cause, não pode ser Cavour, pois esse uniu o colectivo. Hoje, cada um quer ganhar dinheiro, cada região quer mais para si, cada "país" da manta de retalhos da bota quer desprender-se de obrigações perante o todo. De facto, a Itália de hoje é mais 1850 que 1940. De facto, Sabóia-Piemonte-milanado existe separado do país, Veneza para um lado, Roma para outro e Nápoles-Sicília, no outro extremo. De facto, os "estados papais" lá estão, a mandar nas paróquias, nos baptizados, nos casamentos, nas confissões, romarias e procissões. É a Itália. Nunca mudará. Berlusconi é mais um de passagem numa crónica infindável. Não posso esconder que até simpatizo com o homem. Ao menos não é mais um burocrata saído das salas de jogo da corruptíssima administração pública. Com as suas empresas, dá trabalho a dezenas de milhares de italianos e é o maior contribuinte do país. Os italianos sabem-no. Mas não sabemos para que lado acordarão no dia das eleições, ou se trocam as urnas por um teatro, seguido de uma garrafa de vinho e um pratalhão de massa.

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