23 março 2006

As brumas e a voz

Agora vejo lampejos na escuridão. Uma trovoada, uma aurora boreal, uns meteoritos riscando o negrume. Mas as vozes parecem-me diferentes: são ecos do carácter. Uma voz metálica e nervosa, exprimindo a acidez, impaciência e irritabilidade de um fura-vidas. Uma voz quente e pausada, sopro de uma vida interior e da sabedoria de quem já nada espera. Uma voz insinuante e erótica, como a da sereia. Uma voz fanhosa, enfadada e pretenciosa, que deve rimar com os adamanes de quem serve. A televisão debita programa sobre programa para os meus ouvidos atentos. Hitler grita disparates grosseiros com o encanto de uma flauta mágica: um chorrilho de banalidades de cervejaria com uma maestria de Merlim. A seguir sai-me o Saramago: voz impante, tresandando de falsa modéstia, quase seminarista, passando cheque careca sobre cheque careca de erudição postiça. "Zapingo"meia dúzia de canais e ouço Soares, numa entrevista que dato dos anos 80. Uma torrente de lugares-comuns num deserto de ideias. Enfastiado, detenho a atenção na locução de uma dessas americanices sobre viagens. A mulher tresanda a estupidez por todos os poros. Ora, se a linguagem serve para isto, melhor seria termos nascido sem língua.

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