23 março 2006

Akira Kurosawa

Um dos meus criadores favoritos nasceu faz hoje 96 anos. Pouco amado pelos nipónicos - que lhe censuravam a extrema xenofilia - Kurosawa nunca foi, ao contrário do que dizem as más-línguas nacionalistas do Japão, "um japonês com alma de ocidental". Para quem teve a oportunidade de ver Sanshiro Sugata (1943), A Mais Bela e Saga do Judo - peças de encomenda do esforço de propaganda dos anos de guerra, é certo, mas obras-primas reveladoras do potencial do mestre - não lhe poderá negar a genuinidade do carácter retintamente japonês, o amor profundo e comunhão com a alma do Dai Nippon ameaçada de morte pelo triunfo anunciado do americanismo. A minha paixão por Kurosawa é alimentada, sobretudo, por uma aspiração estética e moral que não se encontra senão com extremos de decifração na filmografia europeia. A serenidade aristocrática, pintalgada pelo sangue de uns quantos bravos, é o retrato da estirpe superior desse povo que só sorri na dor e só chora na alegria.

Sem comentários: