20 fevereiro 2006

Um povo selvagem

Quem teve a desventura de se colar aos noticiários das televisões nacionais durante o fim de semana - cada vez mais futebolizadas, cada vez mais derrancadas em questiúnculas de paróquia rural e nessa tentação quase obscena de dar voz a velhotas monomaníacas discorrendo sobre remédios, operações e doenças - terá colhido, a quente, cabal resposta para a incapacidade portuguesa em adaptar-se a um mundo trepidante de mudanças. O paizinho da criança raptada parecia um modelo retirado das tela de Bosch e Bruegel e a mãe uma gárgula de catedral gótica. Vivendo numa gruta enfarruscada, a prolífica família faculta-nos uma safra de ricos indícios sobre o alcoolismo, promiscuidade, pedofilia, abandono escolar e violência doméstica que julgamos imputar à "decadência e queda do bom povo português". Sei que muitos, em nome do ethos tradicional, preferem o povo analfabeto, supersticioso e esfarrapado. Outros, por se sentirem inseguros no assumido papel de "elite", querem eternizar a diferença entre um povo bárbaro, quase neolítico, e a burguesia citadina. Depois, mudei para o banho de Fátima. Uma multidão em nada diferente: gente miserável, com a fome colada à cara, animada por padres saídos do políptico de S. Vicente e um locutor com assomos de poética de pagelinha afirmando convictamente que o "céu chorara" desalmadamente pela vidente. Tenho para mim que aquilo não é o povo português e isto não é a religião. São sintomas inquietantes da marginalidade em que nos situamos perante a Europa. Povo quase selvagem, mal governado, sem auto-estima, entregue a volições irracionais e a fatalismos, só por milagre poderemos abandonar a cauda, quase balcânica, do séquito europeu.

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