22 fevereiro 2006

Semeadura de medalhas


Como lembrou Cassirer nesse monumento póstumo que dá pelo nome de O Mito do Estado, o homem é um animal simbólico ancorado em formas e conteúdos aparentemente racionais que escondem um poço de irracionalidade sem fim. As pessoas, glosando a cançoneta de Casablanca, não vivem sem essa dose de amor e glória que garante um sentido às suas vidas e uma identidade/identificação com coisas convencionais que se lhes impuseram como ficções dirigentes. A desvalorização do simbólico, se acarreta dissabores para esses raros indivíduos que se foram desfazendo do sentimentalismo, levando-os a um lúcido cepticismo e a um cinismo libertador, assume proporções de perigo quando aplicado a toda a sociedade. A recente vaga de medalhados - numa iniciativa sem precedentes de um Presidente da República nas vascas do mandato - desvaloriza, vulgariza, banaliza e empobrece as ordens portuguesas. Espero que tal munificente gesta distributiva seja aquilo que parece ser: um acto gratuito. Se o não for, não sei o que lhe chamar ...



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