29 dezembro 2006

OBRIGADO INSURGENTE



Não contentes por me haverem indicado para a votação dos quatro melhores blogues, os amigos do Insurgente consideram-me agora, pela voz de Miguel Noronha, "o melhor de 2006". Sei que o excesso de orgulho faz mal às coronárias, mas nunca vi ninguém recusar tamanha distinção. O babete não é suficientemente amplo para me proteger a gravata.

28 dezembro 2006

Embaixadas de Portugal: quase esgotado


Recebi-o ontem, prenda de Natal a caminho de Reis. Nada mais honroso para um bibliófilo - coitada da minha biblioteca - que receber uma obra das mãos do autor. João Corrêa Nunes, que dirigiu e coordenou a edição deste belo Embaixadas de Portugal, está de parabéns. O livro, um roteiro fotográfico admirável, produto do talento de um excelente fotógrafo (Miguel Valle de Figueiredo), com textos [bilingues] sobre a história das representações diplomáticas portuguesas no Vaticano, Nova Iorque, Banguecoque, Macau, Madrid, Londres, Paris, Pretória, Washington, Brasília e São Tomé é mais que uma obra ornamental. Constitui, que eu saiba, a mais completa panorâmica jamais produzida sobre os edifícios onde se vão tecendo as relações do nosso país com o mundo contemporâneo. Edifícios de aparato e prestígio, carreiam a imagem de Portugal e a especifidade das relações bilaterais com cada um dos Estados em que se situam, destacando a importância conferida a essas relações no maior ou menor acerto e qualidade dos objectos - pintura, cerâmica, azulejaria, mobiliário - que os decoram. Servirá, também, para subsequentes estudos sobre a gramática decorativa desenvolvida pelo MNE e, sobretudo, para fixar um inventário das peças museológicas do património português repartidas pelas sete partidas do mundo.
Conhecendo in situ alguns dos edifícios que integram o roteiro, não deixei de me espantar com a beleza que o talentoso fotógrafo conseguiu captar. A minha escolha foi, naturalmente, para a Grande e Nobre Casa de Banguecoque à qual me ligam amenas lembranças das noites de festa, dos jantares e alegre cavaqueira aí passados na companhia do embaixador Lima Pimentel - excelente anfitrião - e onde tive oportunidade de conhecer homens de grande qualidade humana e intelectual: o embaixador Marco Antônio Diniz, então embaixador do Brasil na Tailândia, o Professor António Vasconcelos Saldanha, Presidente do IPOR, que pelas ásias tão alto levantou o nome de Portugal, os dirigentes da comunidade portuguet thai-católica, músicos, tradutores e viandantes que por lá respiravam as saudades de um tecto português.
NUNES, João Corrêa, and Alberto Laplaine Guimarães, eds. Embaixadas de Portugal. / Portuguese Embassies. Prefácio de José Cutileiro. Lisboa: Polígono, 2006. ISBN: 989-20-0405

27 dezembro 2006

Depois da demofilia



Salazar na RTP

Chama hoje o caro Insurgente atenção para o silêncio sepulcral que rodeia a votação nacional para os Grandes Portugueses. O resultado da votação, segundo soube de fonte mais que segura, foi revelado em surdina nos gabinetes da RTP. Salazar venceu, mas lá está, também, o nome de Cunhal, pois o PC terá feito intensa campanha de passa-palavra para fazer entrar Barreirinhas na selecção.
Democraticamente, a RTP não quis divulgar os resultados, pois os documentários biográficos já preparados não incluiam Salazar. Ou seja, a RTP julgou pelos portugueses, encomendou dez documentários e pensou poder controlar os resultados com base em suposições. É contra este abuso de confiança e esta escandalosa apropriação dos afectos e inteligência que se me revolta o estômago. Continua, entre nós, essa peregrina tentação de manipular, distorcer e determinar o gosto e as escolhas. Ontem como hoje, há sempre um lápis azul a riscar e fazer crer que vivemos em liberdade. Se ao menos os censores fossem inteligentes. Mas não, são habitualmente mangas de alpaca semi-analfabetos, embrutecidos pelo micro-poder que detêm, entusiasmados pela mentira e totalmente falhos de escrúpulos. Assim vai a piolheira !

26 dezembro 2006

Madrugada de Natal a ler horrores

Não dormi toda a noite de 24 para 25, preocupado com o estado de saúde do meu pai, com quem nunca deixei de passar o Natal. Aliás, com tanta cafeína - excelente digestivo para a overdose [quase letal] de doçarias tragadas - até um cataléptico dançaria a mazurca ou imitaria os dervixes rodopiantes. Antes de iniciar o prometedor texto agora dado à estampa pelo Instituto Diplomático, impus-me terminar - não obstante todos os reparos aqui feitos oportunamente - A Guerra no Mundo, de Niall Ferguson, bem como Estaline: a corte do czar vermelho, de Simon Sebag Montefiore.
Pelas cinco da manhã terminei com Ferguson. Reflexão entre o cigarro e um belíssimo café matinal: o século em que nasceram os meus avós, pais e eu mesmo foi uma desgraça. Duas guerras mundiais, massacres de dimensões quase inimagináveis, dramas pessoais e colectivos pouco convidativos a qualquer respeito pelos homens. O século do nazismo, do comunismo e da bomba atómica; o século da mentira, da propaganda intoxicante e do condicionamento, embotamento e mecanização dos mais elementares sentimentos, deixou exangue a capacidade da humanidade em acreditar no que quer que fosse. O que mais me inquieta é o caminhar paralelo da racionalidade com a perversão. Ao invés do desvelamento racional - " entzauberung", utilizando a expressão weberiana - produzir uma cultura de responsabilidade e compromisso, nunca tanto fanatismo, tanta cegueira, maldade e crueldade foram direccionadas com tamanho entusiasmo contra homens singulares e povos por razões que hoje se nos afiguram como pouco mais interessantes que uma conversa de café. Um século desmedido, com a sua "greatest generation" de déspotas, de carniceiros, resistentes e defensores da Liberdade, mas, sem sombra para dúvidas, o século da loucura racional que destruiu a Europa, fazendo recuar as suas fronteiras política, económica, étnica e cultural ao século XV. A culpa de tudo isso ? Hitler, sem dúvida. O homem não "só" cometeu o supino atrevimento de declarar guerra às maiores forças do planeta (cristianismo, capitalismo, democracia, comunismo), como, não contente com essa antecipadamente fracassada tentativa, declarar guerra de extermínio a populações inteiras do Leste europeu. Hoje continuamos a pagar a factura dessa demência que estilhaçou toda a ordem antropológica sobre a qual repousava a nossa civilização, por antonomásia A Civilização.
Das seis da manhã gelada às duas da tarde, quase duzentas páginas de Estaline. Rios de sangue, exorbitâncias estatísticas pelas quais fenecem a compreensão e o espanto: fomes artificiais, escravatura, purgas, tortura, mentira e infantilização, brutalização de pessoas, povos e conceitos. Em suma, uma abundante e ilimitada sequência de capítulos para uma História Universal da Infâmia. Pergunto. Após tanta revelação isenta, tão copiosa historiografia, ainda há mentecaptos suficientes para fazer eleger deputados comunistas em S. Bento ? A crónica de horrores do Gulag, das fossas de Katyn, das matanças da Lubianka, das limpezas étnicas e da total falta de misericórdia pelos prisioneiros não espalhará, por um segundo, a incerteza naqueles que por aí ainda exaltam esse regime de sangue, fome e medo que foi o comunismo ?

25 dezembro 2006

บัวชมพู ฟอร์ด



บัวชมพู ฟอร์ด = Boa Chompoo Ford
Chuva caindo no meu coração = rain falling in my heart = fon tok long nai hau jai chan

24 dezembro 2006

Bom Natal para todos



O Natal sempre me trouxe más surpresas. Este ano, com o meu pai nas urgências, será mais triste. Contudo, sempre há a alegria das crianças, a abertura das prendas e a amizade dos amigos.

22 dezembro 2006

Natal de sultana

Para Susaninha e Senhora Sócrates, 5 dias em Doi Tung, no palácio da princesa-mãe.
Preço: Conta para a Fundação Mário Soares.

Natal de Midas

Passeio no Chao Phrya no bergantim de Rama IX, para o conforto de Bic Laranja, Corta-Fitas e André
Paga: Câmara Municipal de Lisboa

Natal faraónico

Cinco dias com acesso à sala de despacho de Chulalongkorn para o Pasquim da Reacção
Paga: Fundação Casa de Bragança


Natal espampanante

Para o Jorge Ferreira e família, no Península de Banguecoque
Preço: Conta para a tesouraria do Caldas

Natal opíparo


Para o Pedro e a Inês, na nova Ásia capitalista.
Preço: Paga o IPOR

Natal em grande


Entradas: Ostras fritas com omelete estufada e sésamo
Salmão em molho de coco
Sopa: Tom Youm Kung (sopa ácida de folhas de lima, leite de coco e camarões)
Pratos: Caril branco com sortido de aves
Satay de galinha
Vegetais fritos
Massa de arroz crocante com molho de cogumelos e carne de porco
Sobremesa: Kanom portuguet (fios de ovos) regados com calda de frutos tropicais
Café e licores
Preço: Pago pelo MNE e pela Fundação Oriente

21 dezembro 2006

Não há oposição


Teve lugar o debate sobre a reforma do ensino superior, ao qual aludem, com propriedade e profundo conhecimento, outros blogues. Assim, sendo, dispenso-me tecer quaisquer comentários sobre a matéria incidente. Porém, deste debate parlamentar, retiro três certezas:


- A oposição é uma lástima. Da extrema esquerda à direita - isto é, do pastor IURD ao limpa-chaminés, do boneco ventríloquo à figura bufante - não há um líder que consiga fazer frente a um Sócrates em crescendo de desembaraço oratório.


- O PS (isto é, Sócrates) sente-se absolutamente confortável perante a acefalia das oposições, já não se coibindo de as mandar calar com gestos e palavras que lembram o estendal parlamentar de Oitocentos.


- O Primeiro-Ministro manda no país, impõe-se sem rebuço e meias-palavras, fazendo as maravilhas de um povo que andou anos em busca de um toque-de-caixa, de uma formatura e do respeitinho que faltou a Cavaco, a Guterres e Barroso. Os portugueses gostam de uma boa torcidela de orelhas, de uma palmada e de outros quejandos castigos domésticos. Andaram anos à procura da varinha, do chinelo e da reguada. Agora têm-nos e andam contentíssimos, a começar pelos senhores jornalistas, ontem tão arrogantes, metediços e rebeldes, hoje criancinhas amestradas enxotadas pelos seguranças do PM. Isto é um país maravilhoso onde a educação passa por fraqueza e uns berros por autoridade. Sócrates é o único PM europeu que fala aos berros e vai aumentando a popularidade na proporção dos decibéis. "As pessoas gostam", "temos homem", "finalmente aparece alguém que põe ordem na casa". Ouço comentários destes no táxi, no restaurante, no café, na banca de jornais e pergunto-me se isto não foi dito e redito vezes sem conta num passado remoto.
Não há democracia parlamentar sem emulação, debate e oposição. Aqui nesta casa preza-se a tradição britânica - isto é, a tradição dos parlamentos medievais, jamais conspurcados pela arregimentação seguidista e ideológica introduzida por 1789 - pelo que gostaríamos ver na Assembleia os melhores. Infelizmente, a causa parlamentar portuguesa afunda-se na mais medíocre expressão de idiotia e embotamento.

Rebosante y lleno hasta la bandera

Conforme aqui anunciámos, teve ontem lugar no Palácio das Necessidades o lançamento da mais recente obra do Professor Doutor António Vasconcelos Saldanha, um verdadeiro tijolo de 978 páginas - usando a expressão de um dos apresentadores - que dá pelo título de O Tratado Impossível. Uma sala cheia, onde não faltaram alguns dos melhores confrades blogosféricos. De parabéns, o Instituto Diplomático, o autor e o público interessado, que passa a partir de hoje a dispor de um importante instrumento de trabalho para a compreensão de um momento crucial de adaptação do Império do Meio ao Direito Internacional.

NB: mais informações aqui

SALDANHA, António Vasconcelos de. O Tratado Impossível: um exercício de dipomacia luso-chinesa num contexto internacional em mudança (1842-1887). Lisboa: Instituto Diplomático, 2006

20 dezembro 2006

A Escócia: 28º país da UE ?

A União Europeia pode, no entanto, ser uma faca de dois gumes. É que, se por um lado permitirá a sobrevivência de mais um pequeno país europeu, por outro, caso atulhe a Escócia com subsídios, corre o risco de fazer com esta o que ela não quis da Inglaterra: ser dependente de dinheiros alheios.

A não perder, n' O Insurgente

19 dezembro 2006

Aperfeiçoar o Yiddish



Para aperfeiçoar o Yiddish, esse belo dialecto judaico-alemão, nada melhor que o disco das Barry Sisters acabado de chegar pelo correio.

Invasão da Índia Portuguesa: lembrar os heróis



A voz do velho e intocado patriotismo português contraria a cortina de silêncio e as cedências canalhas, lembrando a passagem de uma desgraça que selou a sorte da Índia Portuguesa. Ali estão os heróis que se entregaram à metralha de corpo limpo e pura consciência do dever, por Portugal, por Goa e pelo Império. Ali estão, também, as pias intenções de curibecas, daquelas que protestam amor a Portugal mas, ontem como hoje, persistem em esquecer, menosprezar ou insultar os soldados de Portugal caídos no cumprimento do seu juramento. Não se trata, obviamente, de uma questão de regime. Há regimes democráticos tão ou mais patrióticos que outros que invocam o nobre sentimento. O problema é que, entre nós, se continua a denegrir o patriotismo, esse elemento fundamental da ética social e política, arquitrave da cidadania. Não há nações sem orgulho, não há cidadania sem identidade histórica. Se o Estado Português, mal aparelhado, não cumpre a elementar obrigação de cultivar o patriotismo, quem o fará ? Para quando o completo, radical e frontal corte com o capitulacionismo, a vergonha e o complexo pós-colonial ? Para quando a entusiástica adesão daqueles que nos governam à aberta, inequívoca e orgulhosa expressão da nossa gloriosa história ?

16 dezembro 2006

Rainhas africanas

No Grand Monde

Um ano de navegação e glória

Faz hoje um ano, iniciava a conta-corrente um dos melhores blogues portugueses. Ao ilustre diplomata e homem de mundo que exibe no frontão a [enigmática] divisa dos Orange, os votos de um novo ano carregado de preciosidades - pedrarias e panache - que fariam a inveja ao maior dos Paleólogos.

15 dezembro 2006

Nova obra de António Vasconcelos Saldanha








Tratado Impossível: um exercício de diplomacia luso-chinesa num contexto internacional em mudança (1842-1887), eis a nova obra do Professor Doutor António Vasconcelos Saldanha que será lançada no próximo dia 20 de Dezembro, quarta-feira, pelas 18 horas, na cozinha conventual do Palácio das Necessidades (entrada pelo Largo do Rilvas), e terá como apresentadores Armando Marques Guedes e João de Deus Ramos.

Atendendo ao extremo interesse de que se reveste a matéria, aos predicados do autor e à qualidade do trabalho, julgo constituir esta uma ocasião única para ouvir uma das mais categorizadas figuras da vida académica portuguesa. Aos amigos e leitores desta tribuna, o convite para acorrerem ao evento.

"O que não é tradição e plágio" (Eugénio d'Ors)



Hymne a l'amour, aus einer Hommage à Edith Piaf mit Georges Moustaki, Michael Heltau, Herman van Veen und Charles Dumont

Sem palavras

14 dezembro 2006

Miss Pearls


A nossa cara amiga saiu triunfadora na votação para o melhor blogue feminino de 2006, seguida por outra grande senhora que aqui tem um fiel leitor. É verdadeiramente bom quando os amigos triunfam. Sem acrimónia, sem ideologice e politiquice - secreções da testosterona - os blogues femininos (estes, aquele e ainda aquel'outro) fazem falta à blogosfera. Os homens são sempre crianças, havendo com o passar dos anos um agravamento assinalável, com assomos de regressão a estádios de infantilismo pré-lógico. As mulheres, pelo contrário, crescem e libertam-se, racionalizam sem precisar das muletas de um credo, mas preservam [ou estudam] aquela ingenuidade que permite desdramatizar, sorrir e brincar com aquelas "grandes causas" a que os homens se agarram para dar um mínimo de sentido à comédia da vida.

13 dezembro 2006

Sapatologia: a tentação pedestre


O tema é empolgante. O sapato, o pé, o andar sobre crocodilos, serpentes e prata. Exibir, fazer-se mais alto, destacar-se de baixo para cima. D. Pedro jamais teria afirmado com tanta segurança o "esta terra que piso, este povo que amo"se não calçasse aquelas botas de macio couro com que as potestades brincam aos soldados. Santo Ballaguer exibia coruscantes fivelas do mais puro veio argênteo, sem por isso deixar de jejuar.
Pelo sapato se conhece o dono: sapato limpo e resplancente rima com unhas manicuradas e sofisticação; sapato sujo rima com desprezo por si e pelos outros. Imelda, essa incompreendida, foi a maior protectora dos produtos made in Philippines. Que desastre teria sido um Luís XIV sem saltos, um Napoleão sem botas ou um Salazar sem botinhas . Talvez Pessoa se tivesse enganado no "nada sabia de finanças/nem consta que tivesse biblioteca", referindo-se ao Nazareno. Melhor ficaria "nada sabia de modas/ nem consta que visitasse sapatarias"

Abrir fronteiras

Prendas de Natal


Recebi ontem a primeira prenda do Natal 2006, oferta de um mestre e amigo. Não resisti ao tabú e abri-o. As olheiras de hoje são o tributo que paguei por cinco horas de grandioso espectáculo vertido da tetralogia The Raj Quarters, de Paul Scott. O peso dos preconceitos e as desordens amorosas num cenário de crepúsculo imperial. Esta noite continua a saga.

Arcadia

Agrego à lista dos predilectos o insubordinadíssimo ARCADIA

Der Kongreß tanzt



Das gibts nur einmal, canta Lilian Harvey (1931)

Frauen sind doch bessere Diplomaten



Ach, Ich Liebe Alle Manner, Marika Rokk (1941)

12 dezembro 2006

O medo que chega




O Professor Pires Aurélio - por quem tenho a maior admiração humana e intelectual, e com quem tive a honra de trabalhar enquanto seu subordinado - aponta sem vacilações a causa da súbita erosão das festividades do Natal no velho continente. Estamos com medo, vamos fazendo concessões, prolongando silêncios, abdicando palmo a palmo de tudo o que baliza, dá sentido e preenche o calendário ocidental. Estamos reduzidos à condição de reféns e até já se manifestam os primeiros sintomas do síndrome de Estocolmo, uma quase dependência afectiva em relação aos criminosos e terroristas que sequestram a nossa liberdade, segurança e paz. Por este andar, o dia 25 de Dezembro será banido da lista de feriados, tal como serão proibidos os presépios, as transmissões de cerimónias religiosas através das televisões, a erradicação das disciplinas opcionais de conteúdo religioso [cristão], a decoração de montras com símbolos que possam ferir a intolerância dos terroristas, as festas natalícias das empresas, o Natal dos hospitais, a mensagem que o Presidente da República profere na quadra. O calendário é uma convenção, mas a cultura é isso mesmo, uma convenção carregada de festividades, ritos, cerimónias e práticas. Sem elas, a cultura não existe, não se actualiza. A auto-censura é auto-mutilação. Os europeus preferem suicidar-se a correrem o risco de lhes rebentar uma bomba sob os pés ! Ainda chegaremos ao tempo em que a ceia de Natal se celebrará de cortinas corridas, sussuros e três pancadinhas na porta, não vá o vizinho do lado ligar para a polícia acusando-nos de subverter a ordem pública. Estamos a entrar numa era de trevas e catacumbas.

11 dezembro 2006

Raleficação

O espectáculo do reles, o culto do canalha, o triunfo da meia-tigela, da boçalidade e do analfabetismo atingiram culminâncias dignas da mais sórdida literatura clandestina. O país está derrancado na exaltação da inveja, dos pequenos ódios e remoques, nas frustrações e no ranger de dentes. Dirigido por gente desclassificada que nem comer à mesa sabe, tomado de assalto nas universidades, nas casernas, nos bancos e na imprensa por uma plebe beata, suja e feroz - como dizia Eça - refastela-se nesta miserável lupercalia de futebóis, de escândalos e maledicência que me envergonham e me empurram para fora. Quando sair, tranco a porta e não volto. Sinto vergonha - uma tremenda vergonha - por haver tido a desdita de nascer neste tempo. Sei que o país - ai Eça, ai Camilo, ai Junqueiro, ai Martins - nunca foi muito diferente, mas ao menos ainda tínhamos uns adereços de respeitabilidade ali para os lados do velho parlamento liberal - os Fontes, os Barjona de Freitas, os Sabugosa, os Serpa-Pimentel, os Luciano de Castro - para os lados da Ajuda - D. Pedro V, D. Luís, D. Carlos - ou pelo passeio higiénico do Chiado. Parece que tudo sente, em uníssono, a atracção irresistível da queda, da capitulação e do acanalhamento.
Essa coisa suja publicada no fim de semana - que enche os noticiários, o vozerio e enche de furor coprófilo os nossos concidadãos - não é mais que um epifenómeno desse etos canalha que domina os portugueses. Não sei o que se pode ainda fazer para manter a película de respeitabilidade, mas afigura-se-me um trabalho de Hércules inflectir no plano inclinado. Somos, decididamente, indignos de nos sentarmos na Europa e reclamar a mais pequena molécula da civilização. Isto está de morrer.

Não é um Ersatz...é ERZATS

Um blogue que promete.

10 dezembro 2006

ERZATS

Compreende-se este muro de silêncio que afinal é a justificação do regime saído do golpe de 3, 4 e 5 de Outubro de 1910. Há ainda que recordar o embaraço que ainda suscita o regicídio de 1 de Fevereiro de 1908 que consistiu na pedra basilar da instauração da república em Portugal. (...) Os autores morais – e muito provavelmente organizadores e financiadores – do crime do Terreiro do Paço, poderão ter criado falsas pistas e até destruído o processo do regicídio, talvez comprometedor em demasia para quem sempre quis criar reputações imaculadas. Mas a história que verdadeiramente interessa, a das provas documentais, dos testemunhos voluntários ou não, das confissões sem intenção de tal, acaba por pesar e fazer pensar quem pretenda saber mais. Como sugestão, consultemos algumas actas dos derradeiros parlamentos da monarquia, onde a total liberdade de expressão – impossível para os nossos dias – choca pelo descambar na ordinarice tasqueira, tão ao gosto nacional. A propósito e voltando ao tema do livro, António José de Almeida ( o encarregado pela organização da fabricação de bombas do PRP), dizia em plena sessão parlamentar, que desdenhava – embora dela beneficiando, claro está - , da amnistia promulgada por D. Carlos, amnistia essa “que não passava de um broche da rainha Orleães”.

Da neve e do frio



Regressou do mosteiro de Akakura.

A nova bomba tailandesa



Tata Young, a thai-americana que está a convulsionar Banguecoque !

Heroísmo

Da antologia universal do heroísmo, em homenagem a Charlotte

SE
Ruyard Kipling

Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,
de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!

09 dezembro 2006

08 dezembro 2006

Repondo a verdade sobre Lourenco Marques

Tenho andado numa roda viva de obrigações que se me impuseram pela inesperada visita de amigos vindos do outro lado do mundo. Museus, exposições, jantares e outras saídas forçadas pela etiqueta de receber quem não vemos durante anos impediram-me de manter a quota mínima de participação neste banco de opiniões.
Chamou o caro Jansenista a atenção para um texto de outro blogue da minha predilecção. O tema interessa-me. Rodeado há 32 anos pela ignorância, hostilidade e espiritozinho de inveja, características tão lusitanas, abstenho-me de falar na África minha que deixei para sempre naquele inesquecível 30 de Agosto de 1974. O Eduardo Pitta tem toda a razão. Não, nós, brancos de Lourenço Marques, não éramos como pinta a tal reportagem da Sábado. Tudo aquilo soa a remoque de quem, vindo da "Metrópole", por lá permanecia apenas durante as semanas ou meses necessários para o carregamento do galeão. Nós éramos portugueses mas, no que me toca, portugueses africanos, com duas, três e quatro gerações nascidas naqueles paragens que amávamos como a nossa pátria portuguesa africana. Não precisávamos de ranchos minhotos, nem fandangos, nem marchas populares, pães de ló de Ovar, presuntos e fumados de Trás-os-Montes ou filigranas para sermos mais portugueses que aqueles que chegavam da metrópole enrolados num despacho ministerial para nos dizerem como governar aquela terra. A verdade, custa-me dizê-lo, é que os maiores erros que ali se produziram foram produto da total arrogância de pessoas que aportavam a Moçambique carregadas de mitos, uns benignos mas perfeitamente absurdos, outros malsãos, produto do aceno da riqueza fácil. À cabeça, coloco o nome de uma vil criatura que ainda há dias lançou um arremedo de "memórias". O dito insigne jurista - que ali se encheu como os velhos soldados práticos de Quinhentos - epitomiza o mais selvagem dessa colonização de costas voltadas para os africanos, pretos, brancos e mulatos. Da minha infância só guardo instantâneos de violência física contra mainatos, perpetrada por recém-chegado;, aqui pouco mais que criados de servir, lá déspotas vorazes capazes de todas as ignomínias para mais uns tijolos no casarão na "Metrópole".
Se tivesse prevalecido o bom-senso, se tivessem dado a naturais - pretos, brancos e mulatos - a mínima possibilidade para encontrarem uma solução portuguesa africana para o destino daquela parcela desta nação, não teria havido outra independência que não a NOSSA, não teria havido nem Machel nem a Renamo, campos de concentração, guerra e destruição como a que afogou em sangue, miséria e morte o NOSSO Moçambique.

02 dezembro 2006

Espalhar mentiras e justificar o terrorismo



A peça merece honras pelo tom verdadeiramente criminoso com que insulta aquele mínimo de decência e amor à verdade sem os quais se torna impossível o normal e saudável confronto de ideias. Apologia da violência de uma minoria eleitoralmente insignificante, apologia do terrorismo e da legitimidade da força - desde que utilizada pelos bons - inverdade nos factos, eis um exemplo flagrante da menoridade cívica a que o republicanismo reduziu esta nação. Isto dura há quase um século.

Corta Fitas

Passa a partir de hoje a figurar nos altamente recomendáveis o afiado CORTA-FITAS.

01 dezembro 2006

Os Estados-império da União Europeia

Não há dúvidas que a estrutura que a Europa política tem vindo a tomar - a legal, a reguladora, a codificadora - se presta a servir, alargando-a, a competência, os hábitos e tradição dos estados-império que atravessam o esqueleto do velho continente: a Espanha, a França e a Alemanha. Estes Estados-império surgiram e consolidaram-se entre o século XV e o século XIX, impuseram-se nas respectivas regiões como "unidades de destino no universal - usando a falácia fraseológica josé antoniana - e fizeram de ficções unidades políticas em que o centro (Madrid, Paris, Berlim) emite o estilo e recebe o eco da sua voz de comando simulando unicidade.
A Espanha fez-se a partir de Castela, usou materiais de diversa extracção, sintetizou-os, mas fica e será sempre Castela. Os regionalismos, os particularismos, os localismos são e serão apenas tolerados na medida em que servirem para coroar o mito castelhado da universalização de uma ideia que cresceu a partir do Manzanares, da Plaza Mayor, do Palácio Real de Madrid, do mosteiro do Escorial e do monólito do Alcazar de Toledo. Para coroar a ficção, a "Espanha" - que usurpou a expressão geográfica da Hispânia para expressar o movimento de apossamento, da meseta para as periferias, socorreu-se de dinastias alienígenas após os Trastamaras (os Habsburgos, os Bourbons, os Bonaparte, novamente os Bourbons) e chega ao século XXI totalmente integrada na corrente do unitarismo europeu e, até, quiçá, de uns meríficos Estados Unidos da Europa.
A França fez-se em Paris, domesticou-se em Versalhes - onde inventou a cultura superior, sem a qual a província estaria condenada à vegetativa marginalidade semi-bárbara - e foi sucessivamente disciplinada pelo zelo dos emissários do Rei, pelas expedições jacobinas, pelo código de Napoleão, pelos maires e maîtres d'école. De fora ficaram, definitivamente, a Borgonha, o Languedoque, a Aquitânia, a Alsácia, a Bretanha e a Provença, onde as pulsões secessionistas crónicas foram sendo extirpadas pelo proibicionismo, pelo ponteiro do professor primário e pelo burocrata parisiense. O Estado-império francês sente-se inquieto com a ideia de pátria, pelo que inventou uma ideia de nação a partir da abstracção do cidadão, cujos requisitos se confundem com os acidentes históricos de Paris. A França de hoje, esgotadas as teorias fantasistas das frontières naturalles e internacionalizada após a Revolução - ou não são os Estados de hoje subsidiários de tudo o que de novo trouxe 1789 ? - já não pode, nem quer, emular os seus rivais históricos continentais (a Espanha e a Alemanha), antes sucumbindo juntar-se-lhes em tandem para repartir o domínio político, cultural e económico daquilo em que se transformou a Europa eurocrática.
A Alemanha é dos mais prodigiosos bluffs do maquiavelismo e do hobbesianismo. Teve sempre fronteiras inferiores ou superiores à sua expressão geo-demográfica, uma língua que se fez a partir de uma riquíssima diversidade de falares aparentados mas distintos, os quais floresceram na intrincada rede dinástica, eclesiástica, feudal e burguesa que fez do centro da Europa a mais rica expressão da inconfundível grandeza europeia tardo-medieval e renascentista. A Germânia poliárquica, policêntrica, diversa e una apenas na percepção de uma grande fronteira exterior aos estados, aos principados e ducados (o Sacro Império), tornou-se, de súbito, um instrumento de uma parcela marginal. A Prússia tomou-a de assalto, abrindo e nivelando fronteiras através do Zollverein, acorrentando-a através da Confederação da Alemanha do Norte - teste para a unificação de 1871 - e impondo-se-lhe como o centro. Os Segundo e Terceiro Reich epitomizaram
essa tentação "nacionalista" de fazer tábua-rasa das evidências, reinventar o passado (o Kulturkampf contra Roma, inventado literalmente a partir do suposto carácter "nacional" do luteranismo). A passagem da CEE - uma criação franco-alemã - para a União Europeia, mimetiza os passos da unidade alemã até 1871. A CEE como surgiu era reflexo de um quadro histórico em que um inimigo exterior próximo - a URSS- tornava impossível exibir quaisquer ambições imperiais. Mal esta caíu - e com ela caíndo todos os Estados satélite, a União marchou para a cidadania europeia, entrou pelo Danúbio adentro e chegou à fronteira russa. A União Europeia seria, pois, a passagem (ampliada) do Vollverein para o Império. Quem mada na Europa ? A chancelaria de Berlim. Quem determina a aceitação de novos Estados na União ? A Alemanha.
Olhemos para a bandeira da União. O que vemos ? As estrelas rodando em torno de um centro. O centro ? A Alemanha. Ouçamos o hino da União. O que ouvimos. Um coro, cantando em "hoch deutsch", composto por um génio da mais exaltante paixão telúrica (alemã).

30 novembro 2006

Uma pessoa não desaparece sem dizer

Os confrades Jansenista, Euro-Ultramarino, Miss Pearls e Misantropo mostraram surpresa pelo anúncio da minha eventual desaparição. Não, o que disse foi mal interpretado. Se no decurso dos próximos tempos sentir incapacidade para manter o ritmo, tentarei encontrar um formato que melhor se adapte ao vício. Só espero que não seja gorado como o "primeiro estranha-se, depois entranha-se" de Macróbio.
Esta tarde, estava eu nas minhas lides de taberneiro - sim, a fazer listas de compras - quando vi passar pela minha porta Paulo Cunha Porto, na companhia de uma famosa bloguer (querem adivinhar quem ?). Estas coisas não são só virtuais. Há um grupo de pessoas que se conhecem e estimam para lá do ecrã. Em certa medida, foram transformando-se em amigos, tão necessários como aqueles que fomos fazendo por outras veredas. Decididamente, não os podemos abandonar sem uma palavra.

29 novembro 2006

Morrer em beleza: plácido suicídio

Passaram 15 meses desde que iniciei esta andatura. O hobby dá gozo mas exige compenetração, ponderação e cuidados, pois serve-se todos os dias à mais diversificada clientela, que deve ser poupada e respeitada. Talvez este relatório de contas - que faço mensalmente - seja o último de Combustões. Sou assim, penso durante meses antes de agir, mas quando me decido só raramente volto atrás. Folheando as semanas e meses precedentes, abrindo e relendo outros blogues aqui sempre presentes, gabados e divulgados, creio ter atingido a fase útil de vida. Não me quero reformar. Prefiro cortar as veias, com a gravitas dos velhos romanos, e escoar sorridente. Talvez, ante o plácido suicídio, resolva mudar o tom do blogue, circunscrevendo-o a matérias menos opinativas. A ver vamos o que o futuro dirá.

Votação no Insurgente

Na coluna direita de O Insurgente, uma inesperada votação: qual foi o melhor blogue de direita de 2006 ? Por generosidade dos animadores do Insurgente, o meu Combustões está lá, coitado, ao lado das sumidades. Nunca testei méritos em eleições, mas não há eleição a que não se vá sem risco. Vejamos como me saio desta !

Grand Monde: a aventura da imagem

Um novo blogue para quem gosta da arqueologia da fotografia, a dar os primeiros passos.

28 novembro 2006

Blogues no feminino


Miss Pearls e Charlotte - duas veteranas da blogosfera, com corte e assistência multitudinária cativa, às quais se juntou há tempos a classicista Senhora Sócrates - têm agora uma nova colega nesta competitiva soma de talentos. Trata-se de Susaninha a Brincar aos Crescidos. Vão ver e opinem !

27 novembro 2006

O Papa e a Turquia


Sinto-me perfeitamente sereno ao abordar o tema, pois não sou crente nem milito em qualquer confissão religiosa. Contudo, esta indiferença perante a religião - que não pode ser indiferença perante o sagrado, tão pouco perante o pensamento de um homem de cultura que se afirma pela fé - não pode deixar de me interessar.


Bento XVI não teve medo. Prometeu que visitaria Constantinopla e não vacilou perante os punhos cerrados do ódio, da irracionalidade e do fanatismo de tantos energúmenos. Em Setembro, no exercício da faculdade de julgar e interpretar - que guarda como homem de pensamento e académico - desencadeou um maremoto de falsa indignação ao citar o fragmento de um texto do século XIV, depressa descontextualizado e canhestramente manipulado pelos niveladores da inteligência que há muito pegam em armas contra a tradição intelectual do Ocidente.


Bento XVI é teólogo e príncipe da Igreja, mas foi sempre, nas circunstâncias em que desenvolveu a sua actividade, um homem de cultura em busca da verdade que a fé eventualmente transporta. Por algum motivo iniciou a sua fulgurante vida académica com um texto provocador sobre O Deus da Fé e o Deus da Filosofia, não escondendo, antes tentando compreender, os caminhos paralelos que a verdade percorre. Quando li L' Entretien sur la foi e, depois, as repetidas conferências que foi dando a respeito da ideia de Europa, dei-me conta da plena honestidade, rigor e serenidade com que desenvolvia e argumentava, sem cedências à pistis, sem arrogância e até sem vestígio de tolerância, essa palavra maldita que, espremida, quer dizer: "eu tenho razão mas desculpo o vosso direito a errar".


Ratzinger, contrariamente ao pensar-pequeno, ao tribalismo estreito e ao racismozinho, nunca se estribou em argumentos ex cathedra ou a fortiori para, ao velho estilo dos manuais apologéticos, diminuir, ridicularizar ou ferir outras religiões, ou mesmo, não-religiões. Muitos terão ficado surpreendidos com a veemência com que desde o primeiro minuto se recusou aceitar a entrada da Turquia na União Europeia, como faria, aliás, em relação a Israel, à Bósnia, a Marrocos ou ao Butão. Esta clareza chocou os políticos e os opinativos, habituados à espuma das marés que vêm e vão. Neste particular, Ratzinger foi europeu.


Como europeu, eu, que não sou nem católico nem cristão, compreendi-o. Ou não somos todos nós, queiramo-lo ou não, cristãos pela cultura ? A Europa sem esta tradição não existe, pois de Roma e da Hélade ficaram os grandes mitos fundadores do Direito e da Filosofia, as referências antigas, eternamente lidas e delidas, mas só actuantes na vã ilusão das elites letradas em restaurar o que não pode ser restaurado. A Europa de Roma estendia-se da Escócia à Mauritânia, da Lusitânia à Mesopotâmia. Dessa não há outros vestígios que as cidades desenterradas pelos arqueólogos. A Europa da Hélade andou em bolandas em pergaminhos e códices, copiada e recopiada nos palimpsestos dos frades, dos intérpretes e comentadores das abadias. A Filosofia clássica só o é na medida em que a civilização cristã a salvou do esquecimento. Ora, se os muçulmanos também reclamam papel de salvadores dessa herança, não a quiseram ou dela não souberam tirar proveito algum.


Bento XVI sabe que o Direito e as leis organizam os povos e as sociedades, sendo expressão da percepção colectiva do bem-comum deduzido da lei natural ou de Deus (Fréderic Bastiat). O Direito ocidental assenta em fontes económicas, sociais e políticas em tudo distintas daquelas em que o Islão se funda, sendo que a nossa jurisprudência é resultado de uma história e de caminhos separados. Aceitar a Turquia, pese toda a estima e admiração que singularmente possamos ter por essa nação, é uma violência contra a Europa e contra a Turquia, que mesmo estado laico não comunga das nossas raízes. Foi isso que disse Bento XVI. Atire a primeira pedra quem se oponha a esta demonstração de respeito pela identidade turca.






Berlim 1984 ou 1944 ?



O mesmo estilo e estética, pirateadas da velha Prússia, mas desta vez Zu errung der opfer des faschismus und militarismus ("em memória das vítimas do fascismo e do militarismo").
"A ideia de que se possa comparar os regimes comunista e nazi sempre foi rejeitada com indignação pelos comunistas. Esquece-se, geralmente, que ela teria sido rejeitada pelos nazis. No entanto, a comparação foi feita ao longo do tempo por autores tão diferentes como Jacques Bainville, Elie Hálevy, Georges Orwell, Victor Serge, André Gide, Simone Weil, Marcel Mauss ou Bernard Shaw."
Alain de Benoist, in Comunismo e Nazismo: 25 reflexões sobre o totalitarismo no século XX (1917-1989)

25 novembro 2006

Os flagelados da CGTP: o poujadismo à portuguesa

Hoje fui fazer o habitual passeio de bicicleta pela beira-rio, canseira que me liberta da tentação do sofá, do cigarro da leitura ou da pasmaceira televisiva. Ao regressar, ali para o Cais do Sodré, fui confrontado com a mole de manifestantes da CGTP.
Palavras de ordem rançosas, bandeiras azuis, amarelas e verdes, lembrando o medo que os comunistas têm em assumir-se como comunistas, uma confrangedora miséria de dizeres afixados nas faixas - evocação doentia dos mitos e crenças de tempos imemoriais que a história tratou de lançar para o caixote do lixo - e muita gente. Fiquei apiedado. Ali só se viam anciãos e pessoas de meia idade com todos os estigmas da pobreza, da falta de escolarização e do terror quase epidérmico daqueles que se sentem ultrapassados pela perpétua mudança do calendário. Um desfile de funcionariozinhos, de pensionistas e contratados a prazo, mais veteranos dos tempos em que piquetes, abaixo-assinados ou reuniões gerais faziam lei. Vi-lhes medo, amargura, ansiedade nos olhares.
A CGTP é hoje a mais empedernida manifestação de cronofobia de um povo que viveu 300 anos à sombra das misericódias, para passar os últimos 200 a mendigar a atenção e os favores dos cofres do Estado esmoler. Eles não pedem nada: não pedem formação, escolarização, políticas incisivas de adaptação às mudanças que se operam no mundo e a todos tocam. Não, querem que fique tudo como dantes. Não se fala em excelência e qualidade, aumento das exportações, novos mercados, flexibilização que permita a fixação de investimento estrangeiro. Reivindicam. A CGTP, o mais conservador e reaccionário fomentador de pobreza e desespero, está a querer dizer aos portugueses que não há futuro. Sonham com fronteiras económicas, com autarcia, com imobilização, com emprego para toda a vida, aumentos salariais na proporção inversa da produtividade e demais sonhos abundantistas que tão expressivos resultados deram na Europa de Leste socialista. Querem o impossível: aspiram à riqueza burguesa e capitalista mantendo a voluntária escravidão face ao Estado pródigo. Só lhes faltavam os martelos com que os operários setecentistas tentavam destruir as máquinas de fiação que lhes tiravam o trabalho. Que lástima.

Novo blogue na lista das referências

O Estado do Tempo

24 novembro 2006

Revisionismo histórico muçulmano



Portugal é uma palavra árabe, assim como Sibéria, Havai, alquimia e muitas outras revelações fantásticas. Espantoso. Como dizia o Professor Almerindo Lessa, este demagogo universitário é um "sábio muito ignorante".Tudo isto me faz lembrar o célebre Popov, que nos tempos da União Soviética havia descoberto a pólvora, a bússola, a trigonometria, o cálculo infinitesimal, o átomo e a batedeira eléctrica.

23 novembro 2006

Tropa manifestante

Exército Portugês Africano. Guiné, 1970




Tenho e sempre o mantive, não obstante as ter servido durante cinco anos, um grande respeito pelas Forças Armadas. Sei separar a tropa fandanga, a tropa do emprego, a tropa alternativa ao seminário fuga-da-fome, a tropa das 8 às 17.30 horas e a tropa da messe às Forças Armadas de Portugal. Sei, igualmente, separar a tropa dragonada das casas da linha de Cascais e a tropa das divisas sargentais da linha de Sintra - a tropa dos golpes por acicate remuneratório, a tropa de cabeleira e barbas guevaristas, a tropa dos SUV's e das campanhas de dinamização - dessa instituição herdeira de tradições gloriosas que se bateu sempre com galhardia e honra por Portugal.


As Forças Armadas não são só um emprego, um ordenado, uma reforma, mais assistência médica, acesso à Manutenção Militar e ao Lar de Runa. As Forças Armadas não são só um ajuntamento hierarquizado de cidadãos fardados submetidos ao Regulamento de Disciplina Militar, nem os quartéis, os paióis, os blindados, as botas, as mochilas, os helicópteros e as fragatas. Grande parte do descontentamento que por aí vai tem a ver, precisamente, com essa "civilização" protestatária da alma castrense. Os militares não podem ser sindicalistas, políticos ou cidadãos como os outros. Deveriam ser, por maioria de razão, os mais disponíveis entre os Portugueses, pois o seu juramento - tremendo juramento - implica aquilo que a mais ninguém se pede: dar a vida pela pátria e servi-la até ao último alento.


É evidente que estão desfalcadas de meios operacionais, que os tanques são uma lástima, os fardamentos dignos de piedade, as reservas de combustível e munições pouco mais que ridículos. O poder político tem muita culpa, a começar pela indigna subordinação que impõe através de ministros que jamais envergaram uma farda, desconhecem os códigos de conduta e essa brilhante cultura de amizade, camaradagem e bom ambiente humano que vigora nas Forças Armadas, tão diferente da invejazinha, da pequena maldade intriguista e difamatória que pulula na sociedade portuguesa.


Tenho para mim que a reforma das Forças Armadas começaria com a nomeação de um ministro militar para a pasta da Defesa, pela auscultação permanente do saber e ponderação dos oficiais e sargentos para assuntos que digam respeito à comunidade militar. Contudo, não são passeatas pela baixa, para mais à paisana - um militar à paisana é sempre uma fraca figura - que resolverão o que quer que seja.

Abundante safra monárquica

O sentimento monárquico está vivo. A atestá-lo, a diversidade de atitudes a respeito do lançamento da obra D. Duarte e a Democracia, ontem apresentada.

Vai uma

Vão duas
E aqui vai a minha
Deve ser bem acolhido qualquer movimento, gesto ou palavra de um hierarca do regime exprimindo a possibilidade de um referendo que devolva aos Portugueses a faculdade de se exprimirem livremente sobre a natureza do regime que querem para Portugal. De antiqualha ou apontamento memorialístico a possibilidade técnica, que hoje muitos aceitam como salvaguarda da unidade nacional, a ideia monárquica deu passos de gigante. Não é tempo para querelas sem sentido. É tempo de união. O princípio monárquico, qualquer que seja o seu acabamento jurídico e constitucional, quaisquer que sejam os fundamentos de legitimação que assistam aos seus defensores, é preferível a qualquer forma republicana. Depois fala-se das essências...

22 novembro 2006

O Partido de Deus Exterminador

Pronto, o Partido de Deus, essa agremiação de exaltantes méritos filantrópicos, acaba de ser responsabilizado pela morte do ministro cristão maronita libanês. O líder dos cristãos, Amin Gemayel, apontou o dedo a Nasrallah, aos serviços secretos sírios e ao regime do taxista de Teerão. Acabou, finalmente, a tão espalhada tese da "frente comum libanesa". Os cristãos, que tanto penaram com uma guerra civil que destruíu a prosperidade da antiga Suiça do Médio Oriente, sabem quem é o inimigo. É tão incerto negociar com gente do quilate do Hezbollah como repartir uma refeição com um assaltante de caravanas.

A arte de destruir obras de arte

Custa-me ser tão cáustico. "Pronto, lá está ele com as críticas demolidoras", dirão os sempiternos apaziguadores. Não têm razão. Sou consumidor e tenho o direito de ser bem tratado; sou consumidor e só peço que me sirvam o que prometeram. Acenar com uma obra soberba e servi-la como um enlatado fora do prazo é um atentado. A Civilização Editora está a seguir as pisadas da Europa-América, que deixou de figurar no meu cabaz de compras à força de tanto desprestigiar o nobre ofício da tradução.


No passado sábado adquiri A Guerra do Mundo, desse génio escocês que dá pelo nome de Niall Ferguson. O homem está a revolucionar a historiografia ocidental, desarticulando a arrumação conceptual, expondo todos os esqueletos do armário, atirando desapiedadamente sobre tudo o que parecia de pedra e cal nas práticas dos scholars. Está para a História de hoje como Braudel para os anos 50 e 60, como Fustel de Coulanges para meados do século XIX, ou como Edward Gibbon para os últimos decénios do século XVIII. É impressionante como se pode reunir tanta informação, tanto aparato erudito e tanta investigação a tamanha capacidade de relacionar, comparar, inferir e deduzir.


Mas sobre a mais bela obra pode cair a maior nódoa. A edição portuguesa está desfigurada por uma tradução que insulta o autor - diminuindo-lhe a grandeza e o talento - e revolta o leitor minimamente avisado. Um verdadeiro atentado. Há meses adquiri o Orientalista, de Tom Reiss, também da Civilização. O mesmo desalinho, a mesma precipitação. Traduções feitas com os pés por pessoas sem qualquer preparação. Pronto, desabafei. Não compro mais obras da editora enquanto não acertar a qualidade das escolhas e responsabilidade inerente em servi-las em bom estado para consumo. O faisão é uma excelente sugestão para um repasto. Contudo, não lembra a ninguém servi-lo podre !


Pacheco Pereira apresenta hoje a obra de Ferguson, na companhia do autor. O encontro terá lugar às 18.30 h na Bulhosa, a Entrecampos. Não vou nem nunca pediria o autógrafo para tal edição. Acresce que considero uma falta de respeito a Pacheco Pereira, que tanto admiro, e a Ferguson. Tenho dito.
Depois de muitos mails, instado a apontar exemplos desta safra de asneiras, aqui deixo à Civilização uma amostra para corrigenda:

Pág. XLIII: em vez de Cetniks, devia estar Chetniks usualmente usada para traduções portuguesas
Pág.XLVI: em vez de "Essay on the Inequality of Human Races", devia estar o título em francês ou Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas
Pág. LI: em vez de The Myth of the Twentieth Century, O Mito do Século XX ou, em alemão Der Mythus des Zwanszisgsten Jahrhundersts
Pág. LX: em vez de Meji, Meiji
Pág. 7: em vez de Gambia, Gâmbia
Pág.9: em vez de cidadão da Irlanda do Norte, apenas um irlandês (a Irlanda não era independente e não há cidadãos, mas súbditos da coroa britânica)
Pág. 22: em vez de "Essay on the Inequality of Human Races", devia estar o título em francês ou Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas
Pág. 22: em vez de The Jewish Question (...), Die Judenfrage als Racen-, Sitten- und Culturfrage mit einer weltgeschichtlichen , ou A Questão Judaica como Problema Rácico, Moral e Cultural
Pág.22: em vez de Anti-Semitic Cathechism, Antisemiten-Katechismus ou Catecismo Antisemita
Pág.23: : ** na nota da T., em vez de Indo-Alemães, Indo-Europeus
Pág. 25: em vez de pan-alemão, pangermanista
Pág. 26: em vez de Between the Ruins, Zwischen Ruinen ou Entre as Ruínas
Pág. 28: em vez de socialista-cristão, social-cristão
Pág. 29: em vez de Liga Pan-Alemã, Liga Pangermânica
Pág. 31: em vez de Cavaleiros Andantes Teutónicos, CavaleirosTeutónicos
Pág. 32: em vez de Silésia Superior, Alta Silésia
Pág. 33: " " " Anti-Semite's Mirror, Antisemit Beobachter, ou Observador Antisemita
Pág. 37: " " " imperatriz Dowager Cixi, imperatriz viúva Cixi
Pág. 37: em vez de Beijing, Pequim ou Peking ou Peiping
Pág. 40: em vez de Vladivostok, Vladivostoque
Pág 42.: em vez de Port Arthur, Porto Artur
Pág. 43: em vez de "A Shinto", o Shinto
Pág.43: em vez de "como os zaibatsu", conhecidos por zaibatsu
Pág. 45: em vez de "em Kwantung", no Kwantung
Pág. 53: em vez de The Book of the Kabal, O Livro da Cabala
Pág. 55: em vez de "trabalhadores diurnos", jornaleiros
Pág. 58: em vez de Courland, Curlândia
Pág. 61: " " " "passava no seu carro por cima", passava o seu carro por cima
Pág. 69: em vez de Irlanda do Norte". Não havia nem Irlanda do Norte nem Irlanda do Sul (vulgo Rep. da Irlanda/Eire). Havia, tão só, Irlanda
Pág. 70: em vez de Saxe-Coburgs, Saxe-Coburgos ( o erro repete-se pelas 5 páginas seguintes)
Pág. 71: em vez de Christian de (...), Cristiano de ou Christian von
Pág. 91: em vez de 1879, 1871
Pág. 94: em vez de primeiro-lorde do mar, Primeiro Lorde do Almirantado
Pág. 96: "O Sudoeste da África", escreva-se O Sudoeste-Africano
Pág. 101: em vez de "a moral elevada", o moral elevado (a confusão persiste ao longo de toda a obra)
Pág. 107: em vez de "os cabos das espingardas", as coronhas das espingardas
Pág. 113: em vez de "contínua barragem britânica", contínua barragem de artilharia britânica
Pág. 113: em vez de "A Guerra no Oriente", A Guerra no Leste
Pág. 120: em vez de casa-real, casa imperial
Pág. 120: em vez de hooligans, desordeiros
Pág. 126: em vez de 1929, 1919
Pág. 131: em vez de Azerbaijaneses, Azeris
Pág. 131: em vez de eslávicos, eslavos
Pág. 131: em vez de Quirguiz, Quirguizes
Pág. 136: " " " da Schleswig, do Schleswig
Pág. 147: em vez de "as ilhas Dodecanesas", as ilhas do Dodecaneso
Pág. 198: em vez de "do Falange Española", da Falange (...)
Pág. 204: em vez de "já incumpria", já não cumpria
Pág. 204: em vez de "conhecido por o Plano Young", conhecido por Plano Young
Pág. 206: em vez de Arno Beker, Arno Breker
Pág. 209: em vez de konfessionsloss, sem confição (ou nota da trad. com informação)
Pág. 117: em vez de judificação, judaização
Pág. 237: em vez de Muscovy, Moscóvia
Pág. 244: em vez de "enviar uma armada naval", enviar uma armada

21 novembro 2006

O dique da irracionalidade


Lembra hoje oportunamente o nosso caro Misantropo os 90 anos da morte desse modelo de estadista europeu que foi Francisco José. Se a Europa teve um aplacador de violência étnica, um duro crítico da doença nacionalista e do ódio socialista, um protector das minorias religiosas, linguísticas e culturais, um governante pacífico empenhado em evitar o abismo da guerra que destruiria irremediavelmente o velho continente, esse foi o Kaiser Franz Joseph, imperador da Áustria, rei da Hungria, rei da Boémia e chefe da casa imperial de Habsburgo.


Em vão tentou conciliar, equilibrar, distribuir e congraçar boas-vontades, mas o espírito do tempo não se compadecia com moderação, reformismo, cautela e bom senso. O império sobre o qual reinava era o eco glorioso da velha Europa, firmado sobre a autoridade paternal e solicita do velho monarca, fortemente marcado pelo influxo cristão, mas onde judeus, ortodoxos, protestantes e muçulmanos possuíam foros de liberdade garantida pelas leis. A belle époque de Franz Joseph é a da Viena, Praga e Budapeste cosmopolitas, cadinhos do bom gosto e do refinamento, mas também laboratórios das mais ousadas aventuras literárias, artísticas e filosóficas (Freud, Kafka, Otto Wagner, Hugo von Hofmannsthal, Arthur Schnitzler, Gustav Klimt).


Que pena que tudo isso se tenha perdido. Em troca, o Mitteleuropa recebeu o bolchevismo, o nazismo, a guerra, os pogroms, a devastação patrimonial, o tribalismo mais medonho; em suma, o recuo da civilização, da decência e da paz.

20 novembro 2006

Ich werde jede nacht von Ihnen traumen



Johannes Heesters e Edith Schollwer em Gasparone (1937)
Heesters é um fenómeno. Hoje, com 102 anos, continua a pisar os palcos.

Ich singe dir ein Liebeslied



Joseph Schmidt, judeu romeno, uma das mais belas vozes do Bel Canto, morreu de fome e doença em 1942. Mais uma vítima do admirável século XX !

A guerra do Iraque, novo Vietname ?




As habituais Cassandras cultoras do "quanto pior melhor", ou seja, os aliados do terrorismo, tendem a interpretar a escalada de violência na Mesopotâmia como um "novo Vietname americano". Tal argumento, tão repetido quanto errado, não resiste à mínima análise. O governo no poder em Bagdade é o mais democrático - isto é, o mais representativo da maioria da população do país - desde a independência, em 1932.


Se a dinastia Hashemita, árabe genuína, mantivera a unidade artificial de um país multiétnico e fraccionado religiosamente, os governos que lhe sucederam a partir de 1958 - Abdul-Karim Qassim; Abdul Salam Arif,Abdul Rahman Arif, Ahmed Hassan al-Bakr e Saddam Hussein - provinham da minoria sunita, cuja expressão demográfica não ultrapassa os 20% da população.


A Autoridade Provisória, mandatada pela Coligação, procurou, com maior ou menor perícia, devolver o poder aos iraquianos. As escolhas não terão sido, como se viu, as mais certeiras, mas o objectivo era incontestavelmente inspirado por um princípio de proporcionalidade justa: dar os xiittas (65% da população) o maior relevo na governação de um país onde jamais tinham detido uma molécula de poder. Logo, o Iraque, o seu governo e instituições representativas é hoje, mau grado o terrorismo, a violência indiscriminada e a crise económica gritante, um dos mais democráticos países da região.


A guerra em curso não é movida nem contra norte-americanos, nem contra britânicos, italianos e outros aliados ocidentais. A guerra é desenvolvida com incansável espírito criminoso e genocida contra a maioria da população do país por uma estreita parcela de ex-privilegiados que durante quase cinco décadas foram usufrutuários quase exclusivos dos lucros e vantagens provenientes das exportações do ouro negro. Não obstante o carácter progressivo de algumas medidas de Saddam Hussein - cujo reflexo ninguém questiona - o poder manteve-se circunscrito a requisitos de filiação tribal e religiosa. Hoje, com a Constituição aprovada por 78% de votos expressos, uma Assembleia onde a Aliança Árabe Unida (Xiita) ocupa 42% (contra os 15% do partido Sunita mais relevante), pode-se afirmar estar reposta a proporcionalidade, condição para a aceitação de um governo representativo.


As perdas norte-americanas e restantes parceiros ocidentais não são relevantes no cômputo assustador dos actos de guerra, pois que não ultrapassam 4% do total de vítimas das incursões terroristas. A iraquização da guerra, ou seja, a passagem de testemunho das forças de ocupação para o governo do Iraque, comprova que a guerra que ali se trava é a de um governo maioritariamente sufragado contra uma minoria, logo, um típico caso de terrorismo. Só não vê quem não quer. Se o Iraque é independente, só o é verdadeiramente hoje. Tudo o mais mais é retórica, má-fé ou cegueira.

18 novembro 2006

Mário Sottomayor Cardia

Há nomes de direita cujo passamento não me comove. Aliás, a saudade, a estima, a evocação dos que partiram só tem significado se com eles tivemos algum contacto, seja o mediato - os grandes autores, os actores e figuras cuja obra veneramos - seja pessoal, aquelas que connosco se cruzaram e nos deram algo da sua grandeza. Mário Sottomayor Cardia foi uma dessas pessoas. Conheci-o há seis ou sete anos, pois sou colega e amigo da sua mulher, a escritora Luísa Ducla Soares, por quem tenho grande admiração humana e intelectual.
O Professor Sottomayor Cardia provinha de uma área afectiva e ideológica muito distinta da minha, com formação e percurso muito coerentes. Era um homem superior, de uma cultura filosófica, histórica e política verdadeiramente enciclopédica, extremamente actualizado e um leitor quase compulsivo. Deixou, como é sabido, a maior biblioteca privada do país.
Quando o conheci estava a ultimar o texto de Homem Cristo Filho. Ora, sabendo-me envolvido numa matéria que de todo dominava, facultou-me ajuda preciosíssima, telefonando-me amiúde, emprestando-me livros, comentando este e aquele aspecto menos claro e até corrigindo questões de natureza conceptual e terminológica, campo em que era absolutamente inflexível. Devo-lhe muito, mas impõe-se-me assinalar que naquelas longas conversas de fim-de-tarde jamais assumiu qualquer atitude paternalista e condescendente. Gostava de argumentar, fundamentar, rebater - tinha uma paixão pela polémica - mas tudo se desenvolvia num plano puramente académico. Nunca lhe ouvi um comentário jocoso, uma apreciação maliciosa, um arremesso verbal ou crítica a pessoas. Lembro, até, que exibia grande admiração por homens que se situavam nos antípodas das suas escolhas políticas.
Hoje entrei de manhã, pela primeira vez, na sede do PS. Lá fui cumprimentar a família e conversar com amigos e admiradores de Sottomayor Cardia. Iria onde quer que fosse, à sede do que quer que fosse, para o lembrar e tributar-lhe respeito, admiração e agradecimento pelo que me deu. Hoje só respeito as pessoas pelo que me mostram ser. Acabou o tempo em que as dividia, pois há amigos para lá das fronteiras ideológicas e inimigos deste lado em que me situo. Obrigado, Senhor Professor. Até sempre.

17 novembro 2006

Lição de sinologia contemporânea

Je Maintiendrai é um perito. Recomendo os dois textos a propósito do centenário de Puyi.

Nasceu há 100 anos o Filho do Céu



Passa este ano um século sobre o nascimento de Puyi, o último dos Qing a ocupar o trono do dragão. Aixinjueluo Puyi foi feito imperador, reduzido depois a prisioneiro na gaiola dourada da Cidade Proibida e dela expulso para viver em liberdade - já sem a trança manchú - como Mr. Henry nos paraísos artificiais das concessões ocidentais, entre tangos, fox trot, estúrdia e rocambolescas aventuras dignas de novelas de Phillips Oppenheim. Foi um estranho para os chineses, um enigma para os seus amigos ocidentais, uma esfinge para os manipuladores japoneses que dele fizeram títere de um Estado onde só reinava num palacete. Um homem frágil, de uma timidez que superava em acessos de violência doméstica.


Tudo o que dele sabemos é incerto: de Reginald Fleming Johnston (Twilight in the Forbidden City), a imagem de um esforçado e delicado adolescente em busca da mirífica libertação que Oxford poderia oferecer; do próprio, numa duvidosa "autobiografia" redigida por um letrado comunista durante a longa "reeducação", a de um homem simples "alienado" pelo poder absoluto que descobre a reconfortante paz anulando-se como jardineiro. Puyi talvez seja o epítome da tragédia chinesa do século XX, uma sucessão de infortúnios, desastres e lágrimas e um aceno final de felicidade, aquela aspiração que tanto marca a psicologia dos chineses. Passaram 100 anos, mas permanece o mistério. Poderia o Filho do Céu, o senhor do calendário, transformar-se num homem comum ?

16 novembro 2006

Santana Lopes


A vida é assim. Ou se gosta, ou não se gosta das pessoas. Santana Lopes - das figuras mais vilipendiadas, difamadas e perseguidas pelos rumores e pela raiva anónima dos valentões escondidos - acaba de fazer uma prestação notável no pequeno ecrã. Submetidos à bateria da opinião que se faz publicar, aos gracejos sobre as "santanetes", à moralíssima [catolicíssima e maçoníssima] decência que supostamente devem afivelar os "homens de Estado", com os tímpanos já amolecidos pela adjectivação costumeira, carregada de alusões à "idiotia", "aventureirismo", "fura-vidismo", "licenciosidade" e "impreparação" de Pedro Santana Lopes, dou comigo a pensar se não terá sido precisamente o contrário que levou à liquidação pública do homem.


Quando comparado com alguns homúnculos que nem para arrumadores de cinema prestariam, Santana Lopes - pela espontaneidade, fluídez de raciocínio, desembaraço argumentativo e simplicidade de comunicar - faz figura. Mais grave ainda. É das poucas pessoas públicas que fala de si, das suas hesitações, erros e fracassos com a facilidade de quem bebe um copo de água. Sei que os portugueses adoram doutorecos de pernas cambadas e abdómens ciclópicos, de falar pomposo e verbo rebuscado. Sei que aqui campeiam e sempre campearam jarras, jarrões e outros atavios caseiros dourados pelo elogio encomendado. Santana Lopes - que terá mil e um defeitos - tem umas características que me agradam: é educado, é simpático, nunca se lhe ouve uma baixeza e está bem consigo. Talvez o segredo esteja no coração, nas paixões, no gosto pelos divertimentos que a vida oferece a quem não tem medo de ser o que é. Os outros, as raposas velhacas, cheias de ódio e frustração, medíocres pomposos, talvez tenham toda a razão em ser como são. Pudera ! Nunca tiveram "santanetes".

"Acho que temos de seguir e ver os exemplos dos outros países da Europa e saber quais são aqueles que têm melhores chefes de Estado. Se são os presidente europeus actuais, alguns dos quais até poderiam estar presos, ou se são os reis actuais. Este é que deveria ser o nosso critério de escolha e não as fantasias que temos sobre o passado medieval, sobre o século XIX ou sobre os heróicos republicanos de 1910. Foram épocas que já passaram e o problema tem de ser posto nos dias de hoje e, portanto, Portugal teve 18 Governos em 30 anos de democracia."

D. Duarte de Bragança, entrevista ao Primeiro de Janeiro
Pedindo máxima atenção para o importante conteúdo da obra assinada por Mendo Castro Henriques, sugiro a todos amigos deste blogue que assistam ao lançamento, que terá lugar no próximo dia 22 de Novembro, pelas 19 horas na Sala Teatro Gymnasium, Centro Comercial Espaço Chiado, na Rua da Misericórdia, 12-20.

14 novembro 2006

Telepatias

Que piada. Penso o mesmo. Telepatias !

Gauchismo sem topete


Grandes senhores, estes, que conheci de barbalhões e melenas, vestidos a rigor como as mais miseráveis figuras de Gogol, chancas cambadas, unhas encavalitadas e tresandando a bedum. Hoje reencontrei furtuitamente uma dessas potestades. Nos anos das barricadas, dos saneamentos justos, das reuniões gerais e dos abaixo-assinados destacava-se pelo militantismo sagrado e pela cólera exterminadora. Era, dizia-se, um "marxista-leninista", acreditava no sol da terra, na revolução mundial iminente e na Geena que tragaria todos os parasitas, exploradores, possidentes e demais sabujos do capitalismo. Mas tinha uma certa piada, a mesma que encontramos num desses doidos de Deus - anacoretas, dervixes e pregadores incendiários - que pululam nas franjas da sociedade burguesa.


Hoje lá estava, de fato, gravata listada, sapato afivelado e tresandando a colónia, unhas de manicure e botões de punho em madrepérola. Folheava, com sábia lentidão, as páginas de um ensaio. Cumprimentei-o e fez um breve aceno de cabeça. Lá fora, o servo condutor, de pé, pressuroso para abrir a porta ao Senhor. Desvendado o mistério. O grande senhor cansou-se do sol da terra quando o sol se apagou. Mudou de farpelas, arranjou um cartão de plataformista, lá esteve nos Estados Gerais e entrou por um corredor esconço na imensa fila de espera que faz do PS (ou do PSD) das mais certeiras agências de emprego. O gauchismo sem topete é bem mais nauseante que o gogoliano mundo dos mendigos românticos.

13 novembro 2006

O metatexto da história: in Einer Nacht in Mai



Marika Rökk (1913-2004), a estrela da UFA, uma das minhas preferidas, teria sido sem dúvida um dos ídolos do musical mundial se o nazismo não se lhe tivesse atravessado na fulgurante vida de cantora, dançarina e actriz. Filha de mãe egípcia e com ascendência magiar, dir-se-ia não cumprir em nada o cânone ariano exigido pelos senhores da Alemanha. Contudo, o cinema de entretenimento alemão - quanto maiores os desastres militares, maior a necessidade de dispersão do espírito - catapultaram-na para a ribalta. Aqui a temos, plena de alegria, no palco de um Wunschkonzert algures em finais de 1942.In Einer Nacht in Mai (Numa Noite de Maio) empurrava os radio-ouvintes para a ilusão do amor, da paz e da felicidade de tempos passados. Bela e radiosa, Marika fazia esquecer o terror dos bombardeamentos, as cartas de pêsames, o racionamento e o desfecho de uma guerra antecipadamente perdida.

A última rainha


Miss Pearls fala-nos hoje de Versalhes e desse mundo maravilhoso de espírito, inteligência, irreverência, charme e liberdade que a Revolução matou. Maria Antonieta foi sempre um empecilho para os franceses. Antes da Revolução, foi invejada pela beleza, jovialidade e encantadora espontaneidade numa sociedade de corte onde os nobres se haviam transformado em ociosos poodles de estimação, perdulários, extravagantes, intriguistas e inúteis. Irmã de um grande monarca (José II, rei-filósofo, reformador do Estado e da Igreja, emancipador da servidão, exemplo de tolerância religiosa), terá tido influência decisiva nas repetidas tentativas do seu marido em abrir o regime aos tempos novos, muito embora a historiografia francesa teime em recusar-lhe tal protagonismo.


Depois da Revolução - os estrangeiros têm sempre a culpa de tudo ! - cobriram-na de insultos, dos mais obscenos e soezes - adulterina, incestuosa - a outros tão improváveis e reprováveis como o de espia, traidora e anti-francesa. A vaga de lama e sangue que se abateu sobre a França e sobre a Europa destruíu o mundo em que Maria Antonieta viveu. A Revolução, mãe de todos os totalitarismos, pariu toda a sorte de monstros e excessos, pelo que a história dos últimos 200 anos tem sido a desse estendal de erros, mentiras, fanatismos e desastes cometidos em nome da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade. Perante o ocaso das ideologias saídas da Revolução, Maria Antonieta retoma o papel de mulher e rainha que a inveja e a loucura quiseram obliterar.