30 dezembro 2005

O INSURGENTE dá-me a Torre e Espada

Não acredito. Este 2006 foi péssimo e na hora derradeira chega-me uma prenda destas. O INSURGENTE - um dos blogues de maior peso nesta comunidade - dá-me um prémio. Fico grato, pois nunca pensei que este pequeno e esconso quarto de arrumações chamasse a atenção do Olimpo. Afinal, para haver milagres importa que não sejam esperados, que violem todos os princípios da física e que toquem ao menos fadado dos mortais. Obrigado, ó Insurgente !

O individual e o colectivo: a propósito do último post

A humanidade divide-se em homens de excepção e homens comuns, homens de elite e homens-massa, homens fadados para mandar e homens determinados a obedecer, alfas e ómegas, inteligentes e broncos, criativos e estéreis, homens de iniciativa e homens amorfos. Por mais que o queiramos negar, a experiência encarrega-se de nos impor tal evidência. O indivíduo sobreleva o grupo, pelo que a condição social do nascimento não tolhe aquela dicotomia. Quando muito, torna-a mais difícil ou, ao invés, facilita-a. A caricatura que aqui produzi ontem - em claro escuro, acentuando o grotesco - não corresponde a qualquer modelo, mas a meras intuições e a flagrante generalização. Há operários alfas e burgueses ómegas; há pequeno-burgueses carregados de predicados e dotados de excepcionais qualidades e potencial, como também há possidenti, nascidos em meio abastados, que nada valem. O velho Pareto lá dizia ser a história um cemitério de elites, uma fórmula tão acertada quanto o nosso D. Francisco Manuel de Mello, que usava a imagem dos alcatruzes da nora: uma em cima que desce, outra em baixo subindo. O que pretendi com aquele textozinho foi acentuar os comportamentos colectivos, a imagem de marca daquela a que chamei microburguesia. É iniludível que aquilo existe, que aquela gente esbarra connosco em todas as esquinas e que o mundo contemporâreo lhe deu um papel imerecido. Ao contrário da classe operária - que quer cervejas, tremoços e futebol, mas produz - a microburguesia é improdutiva mas aspira ao mando. A classe operária jamais esteve no poder em parte alguma; a microburguesia esteve e está no centro do jogo pela conquista e manutenção do poder. Não acreditam ? Pois, abram os tablóides, a televisão, vão ao Parlamento e lá estão eles. O PP lembrou-se há anos do Zé e da Maria. Triste ideia. Tenho para mim que o Uomo Qualunque é o maior inimigo da liberdade, o maior inimigo do espírito e o maior espectro para a cultura. Cada um, quaisquer que sejam as condições sociais do nascimento, pode lutar para dominar em si o elemento subdeterminante da massa e optar, esforçadamente, para fazer sair de si o elemento sobredeterminante da elite. O que não podemos é iludir, terraplanar e dar por iguais acomodados e esforçados.

29 dezembro 2005

O que vão pensar os vizinhos ? A microburguesia

A pequeníssima burguesia (ou sobreproletariado) é, depreende-se dos sociólogos e da História, o maior perigo que impende sobre as sociedades contemporâneas. Ora cadinho de conformismo -reaccionária, convencional, cheia de baias, iletrada, boçal e supersticiosa -, ora agressiva, vindicativa e revolucionária, reclamando direitos e igualdade, enche as fileiras dos exércitos do despeito e é tropa de choque para desvairados messianismos. O perfil do micro-burguês - aqui, sim, Marx acertava na mouche ao intuir características de pensar, estar e agir próprias de cada grupo social - corresponde ao diagnóstico de doença feita virtude a que aludia Nietzsche. Pequena, ridícula, submetida à penúria, transforma o ressentimento em virtude; logo, eriça-se de valores que não produziu, macaqueia a burguesia ou pretende destruí-la. A micro-burguesia é estéril. Como não legisla, policia; como não pensa, censura; como não cria, persegue. Ao contrário da burguesia, cuja tradição autonomista remonta à Idade Média, a sub-burguesia é um estádio equívoco entre o proletariado, de onde provém, e uma ideia fanada e falsificada de respeitabilidade que fazia o múnus da distinção aristocrática. Em Portugal, foi a sub-burguesia dos mestres-escola, hábeis no revólver e na dinamite, quem fez a república. Na Itália pré-fascista, os squadristi de Mussolini eram sub-burgueses, posto a burguesia e a aristocracia fascistas não quererem sujar as mãos com o óleo de rícino. Na Alemanha, os batalhões de choque das SA compunham-se maioritariamente dessa gente, a mesma que tornou possível a revolução soviética. Parasita da classe operária, fez revoluções em seu nome, mas chegada ao poder quis ultrapassar a burguesia e reivindicou a necessidade de uma nova aristocracia. Mussolini consegui controlá-la - dando à burguesia financeira e empresarial, bem como à nobreza, o lugar que o Estado exigia - mas não deixou de a adular, satisfazendo-lhe os caprichos miserabilistas. Na Alemanha de Hitler, foi a arquitrave da ordem social, e concorreu, encanalhando-a, para a destruição da velha estirpe prussiana. Na URSS, foi o núcleo de um sistema que cresceu à sua imagem e semelhança: burocrática, mesquinha, controleira, moralona, insípida e possessiva. O século XX das democracias ocidentais não escapou à sua presença. A América teve nos nefastos Hayes e Edgar Hoover o espelho desta gente incomodada e mesquinha; na Grã-Bretanha do Labour e dos sindicalistas recrutou grande parte dos seus dirigentes entre os profiteurs da classe operária; na França da rive gauche satisfez-lhe os apetites de notoriedade e vingança.
Há, sem dúvida, uma estética pequeno-burguesa que se espraia pela literatura (novelinhas cor-de-rosa, gore, thriller), pela pintura (o academismo segundas águas, o realismo e o naturalismo de segunda, terceira e quarta gerações - carregado de criancinhas ou velhos pergaminhados - a reprodução de obras primas em cartazes de cozinha, o paisagismo dos artista de fim-de-semana), pelo cinema (a comédia para a família) e pelo teatro (a revista). Este estilo kitsch, meio termo entre a tradição reverenciada e assomos de brejeirice, também assume uma dimensão sócio-linguística específica. Assim, sempre que estiverem perante um fulano que se dirige à mulher como "a minha esposa", a uma criança como "o bebé/a bebé; menino/a menina", ao chefe como "o Senhor Dr.", ao dia de amanhã "se Deus quiser", o "DEVE DE SER", entre outras, pode estar certo estar perante um micro-burguês.
Há, entre nós, partidos políticos que são expressão eloquente dos estados de alma e das pulsões micro-burguesas. O PC é uma delas, como também o serão franjas significativas do PPD e do PS. Enquanto tal gente for gente, muito difícil será reendireitar a sociedade portuguesa.

28 dezembro 2005

Grávidos e vénus de Willendorf


O país cresceu: os portugueses estão mais visíveis que nunca. Não em altura, cultura e criatividade, mas em volume: ancudos, barrigudos, rabudos, pescoçudos e chispudos empanturrados ameaçam o delicado equilíbrio da tábua à beira-mar-plantada, ameaçando precipitar-nos no negro oceano. A proverbial tendência do homem branco em acumular gordura nos locais mais incríveis - excepção feita aos hotentotes - atingiu culminâncias neste Portugal, agora e finalmente europeu. Onde antes víamos gente magra, i.e, saudável (vide fotos de Gerardo Castelo-Lopes), hoje só lobrigamos baleias e cachalotes escondendo as carnações abundantes sob o manto das farpelas auriflamantes que os cartões de crédito, as prateleiras dos supermercados e os ágapes dos menús prodigalizam. No passado verão fui uma vez à praia, coisa para mim tão rara, dado a frigidez das nossas águas. Fiquei siderado com a desenvoltura gelatinosa, quase pornográfica, dos corpos - de homens, mulheres e crianças - que se amontoavam na Caparica. Saídas das telas de Botero, aquelas massas de banha e regueifas, aquelas barrigonas tipo queijo-da-serra amanteigado, as protuberâncias de Vénus de Willendorf assentes sobre pilotis verdadeiramente antediluvianos enervaram-me. Queixam-se da quebra da natalidade, da impotência e da esterilidade, mas não mão, a sandwich de seis andares gotejando maionaise, a maldita cerveja, as letais batatas fritas e os venenos achocolatados acusam o mal. Pela boca morre o peixe. Como queremos saúde se consumimos 5 vezes mais calorias que um elefante de circo ? Dizia uma cançoneta italiana dos anos 30, por ocasião da aplicação das sanções que a SDN aplicara ao país pela agressão à Etiópia: "si il fante in guerra va senza paura, chi resta in casa stringa la cintura, anche il digiuno in questo caso per salutar = se o soldado vai à guerra sem fome, o que fica em casa aperta o cinto, pois que a dieta neste caso é salutar". Decerto ninguém pede uma guerra. Pede-se, apenas, que os portugueses se olhem ao espelho, nús, e digam se gostam daquilo em que se transformaram. Faço natação e musculação quatro vezes por semana e, por isso, dou-me ao luxo de comer bolas de Berlim, papos de anjo, toucinhos do céu, queijadas regadas de açucar em calda, suspiros. Não tendo sofrido overdoses de cozido à portuguesa, leitão à bairrada, feijoadas e demais brutalidades gastronómicas, rendo ao ginásio graças por não emular os mister elefant. Se são demasiado comodistas, façam como o Mahatma: bebam leite aguado e comam ervas.

República e desprestígio

Hoje, nas páginas do DN, uma crónica incendiária de Vasco Graça Moura vareja forte e feio o candidato Macróbio. Afirma que Macróbio traz o desprestígio à República, essa entidade abstracta, pródiga, justa e libertadora. República e desprestígio, eis uma redundância. Que eu saiba, nenhuma república jamais se conseguiu firmar - e até justificar - sem o apelo ao que de mais desprezível se esconde no recesso da mente humana: a inveja. Entre nós, a velha meretriz é epítome das vergonhas, desastres e desmandos que se abateram sobre o século XX português.
Ora, há muito que compreendi e resolvi o problema da República. Para mim, ela não existe; ou antes, é-me tão verosímil como serão para os ateus as aparições marianas. Nunca tive ânsias de poder nem fui fadado para servir à mesa uns ricaços broncos com pretensões ao trono de pechisbeque do "mais alto magistrado". Em minha casa, na parede, o retrato do último chefe de Estado português - D. Manuel II - aguarda há 95 anos que um sucessor o venha substituir. Não irei certamente desfigurar as paredes com um "deles" . Essa troupe à Trimalcião que vá buscar votos e serviçais a outros lares.

27 dezembro 2005

Afrocentrismo, racismo e idiotia: Cleópatra made in USA

Decididamente, os gender studies, essa moda insuportável que se pegou aos estudos literários, às sociologias, às antropologias, belas-artes e Filosofia (há divisão diática feminino/masculino na Filosofia ?) deram em agarrar-se ao sub-género historiográfico da minha predilecção: a biografia. O politicamente correcto obriga a estas coisas. Quando, de quando em vez, faço o zaping das dúzias de canais empacotados, dou inevitavelmente com uns programazinhos horrivelmente traduzidos que o Canal História - uma coisa espanhola - despeja em caudal torrencial. Ultimamente, para além do Hitler, da Guerra Mundial e das usuais estórias de múmias, abriu-se uma nova frente. A monomania dá pelo nome de Cleópatra. A última dos lágidas, a célebre Cleópatra VII, que foi amante de Júlio César e Marco António, é aí apresentada com todos os atavios de uma "mulher liberada" (sic), "moderna" (idem) e "amiga do povo" (ibidem), "avançada para o seu tempo", quase democrática ! Sei que a historiografia USA não resiste a dois minutos de leitura. Há tempos segui, perplexo, num destes folhetins, à lição da mais desconchavada violação do bom-senso. Queriam-nos fazer crer que os egípcios antigos eram negros. Não deixei passar a provocação e escrevi a um amigo norte-americano, docente numa prestigiada universidade da Califórnia, que não só confirmou como alargou consideravelmente o leque de exemplos da campanha, hoje em curso, de africanização da história universal. A questão egípcia é importante, pois, aceitando uma certa tradição, velha de séculos, a civilização nilótica seria uma fonte matricial para o arranque da civilização no Egeu Oriental; logo, Creta e a Grécia seriam tributárias do Egipto. Ora, para além dos guerreiros da Núbia, que serviam nos exércitos dos faraós, só há registo de uma dinastia negra no alto Egipto: a dinastia Kush, de pouca dura e sem obra de vulto. O lóbi universitário afro-americano - afrocêntrico e com fortes pulsões racistas - desenvolve uma campanha de crescente intimidação sobre a comunidade científica, teorizando e legislando ao arrepio da metodologia que valida o trabalho de investigação historiográfica. Para essa corrente, fanatizada pelo preconceito ou espicaçada por motivos de natureza auto-terapêutica, toda a história mundial, codificada pelos europeus, esconde outra realidade. A génese das grandes civilizações dever-se-á ao protagonismo e engenho do homem negro: da Índia dos dravidianos aos "negritos" do sudeste-asiático, das civilizações pré-colombianas às mongólicas, todas teriam sido, primitivamente, tributárias da "civilização africana".
O fecho de abóbada desta tremenda mistificação incide, fatalmente, sobre uma das grandes figuras da Antiguidade. Cleópatra - mulher, satisfazendo o feminismo - seria, inevitavelmente negra. Só falta dizer que era toxidependente, deficiente, anti-globalização e ambientalista. Se as elucubrações arianistas de finais do século XIX são hoje objecto do riso, o que dizer de uma historiografia feita sem arqueologia, sem decifração e hermenêutica ? Sei que pelas américas tudo é lícito: vende ou não vende, cumpre ou não cumpre a agenda dos grupos de pressão. Se não, não interessa.