23 dezembro 2005

Natal, mau grado a Weltentzauberung


O "desencantamento" do mundo, resultante do choque do secularismo - tópico recorrente nos escritos de Max Weber e Ernst Troeltsch - manifesta o fim da visão do mundo cristã, que o século XIX parece ter, desapiedadamente, assassinado. Mau grado Deus ter morrido com Nietzsche, o homem é naturalmente um animal religioso, pelo que o Natal - pesem todas as hipocrisias, todo o mercantilismo e reconciliações intentadas, que logo se esboroam no início de um novo ano de guerra - continua a ser "A FESTA" por antonomásia. O desencantamento, que rima com razão, análise crítica e dessacralização, não enterra a sede de libertação e esperança, ancoradas no coração dos homens. O Natal - interpretem-no como bem entenderem - é trégua e convite ao apaziguamento dos demónios que nos devoram. Com ou sem Deus, com ou sem fé, é a própria vida que se interroga; é o absurdo que, pelo menos uma vez por ano, se senta no banco dos réus; é o sentido que se procura no caos do febril entretimento da vida que tenta iludir o fim inexorável. Para todos, um Feliz Natal e um aconchegante Solstício de Inverno, umas boas Suturnais e diveridas Dionisíacas. No dia 26 recomeça a guerra, as vagas lançar-se-ão de novo sobre os parapeitos das convicções alheias, o arame farpado das convenções, a metralha da intolerância !

22 dezembro 2005

"Respeito muitos as fezes das pessoas" (MS)


Afirmou Macróbio, num dos últimos debates televisivos, respeitar profundamente "as fezes das pessoas". Tal desabafo escatológico-coprófilo deixou-me aterrado, mas já tudo aceitamos dos outros conquanto não nos conspurquem. Anteontem, a figura sujou-se publicamente, sujando-nos enquanto espectadores do wrestling de lama. Tenho para mim que o cavalheirismo não é algo de intermitente. Ou se tem, ou não passa de uma máscara. Não se pode ser cavalheiro na rua e, transposto o umbral da casa, espancar a mulher, maltratar as crianças e seviciar os animais domésticos. Não se pode ser cavalheiro no clube, entre iguais, e humilhar os pequenos, os serviçais e subordinados de serviço. Mais grave ainda, não se pode proclamar urbi et orbi o democratíssimo respeito pelos adversários e, em flagrante, dar-lhes tratamentos de polé dignos de qualquer galego contratado nas esquinas de Alfama. O homem demonstrou, finalmente, o seu carácter assomadiço. Foi um debate bem elucidativo. Eu, monárquico, não me devia envolver nestas coisas da republiqueta. Anteontem, quase senti necessidade de votar no insultado. Não o farei, mas não desanconselharei nenhum dos meus amigos a contribuir para o desterro do energúmeno.

20 dezembro 2005

Je Maintiendrai

Um blogue a não perder. Citem-no, difundam-no e fruam. Ao Misantropo e ao Jansenista, associa-se agora mais uma excelência.

Socialismo salazarista


Já alguém avisado chamou a atenção para as características socialistas da visão salazariana. Não há dúvidas que, como lembra Oliveira Marques, Portugal nos anos 50 e 60 encontrava-se algures entre o mundo socialista e o mundo capitalista. Regime paternalista, autoritário e isolacionista - não obstante a OTAN e a EFTA - o salazarismo promovia a conformação, assossegando o homem comum facultando-lhe escola gratuita, rendas e pão tabelizados e mesmo congelados, "emprego para a vida", segurança nas ruas e nos espíritos. Na azáfama das compras de Natal, regalei-me ontem numa loja especializada em produtos portugueses dos anos 40, 50 e 60. O cabaz da dona-de-casa da era de Salazar reproduzia o condicionamento industrial, a moderação e o recato, virtudes por excelência do tempo dos meus pais e avós.
"- Ó senhor António, são 50 gramas de manteiga, 30 de marmelada, um litro e meio de vinho, 2 decilitros de azeite, um pacotinho de pão ralado e meia dúzia de laranjas ! "
A estes pantagruélicos acepipes juntavam-se os 8 ou 9 produtos de luxo, genuinamente made in Portugal: uma água de colónia, um perfume para menina, dois sabonetes, lâminas para escanhoar, pincel para a barba, um limpa-pratas e um verniz para madeiras. O Sr. António embrulhava-os no papel pardo - havia três tonalidades ao gosto da gentil cliente: azul, vinho e pastel - e lá saía ela, porta fora, para entrar na papelaria onde ainda comprava uma cola Sino, papel de lustro, um caderno pautado e uma tesoura Nacional para os trabalhos escolares do filho. Deliciada, folheava a Eva, adquiria o Cara Alegre para o marido e metia no saco de compras o Mundo de Aventuras, povoado pelos heróis nacionais a que Victor Peón dava vida. Em casa - numa casa rica - havia a "telefonia", onde as meninas da rádio - na Rádio Graça e na Emissora Nacional - enchiam os serões, que se prolongavam até horas tardias, por volta das 11 da noite. Pela meia-noite, o hino nacional e...cama !

O Pasquim da Reacção

Não tenho por hábito replicar perante a inteligência. Calo e registo. O Pasquim da Reacção, animado por uma das mais lúcidas, informadas e interventivas penas da direita portuguesa - fossem todas assim - assinala a minha "mudança" política num texto que a todos recomendo, pois não soa a réplica nem a atoarda vã, e confesso bastante mais interessante que o texto que Walter Ventura teve a bondade de publicar no último número de O Diabo. Sim, o Corcunda tem razão. A vida é feita de mudanças e reconheço que o meu mundo já não é aquele em que vivi, como não o será para todos nós que nascemos ainda sob o Estado Novo, assistimos à revolução, ao colapso do sovietismo e à globalização da América. Não bebo a cicuta, pois não traí as minhas primícias, nem defraudei jamais amigos e adversários. Aliás, não sou ninguém para exacerbar uma excessiva auto-estima e cultivar uma coerência de Catão que se pede aos homens públicos. Limito-me a viver e seguir o rumo do tempo, sem apostatar, sem esconder as minhas convicções mas ousando sempre o desafio das ideias. Continuo patriota e monárquico como sempre, mas não me podem pedir o sacrifício de viver com o mundo, as referências e paixões de um homem de 80 anos.

19 dezembro 2005

Pacheco Pereira aborda o inabordável: a omerta no PCP

No terceiro volume da monumental biografia política de Álvaro Cunhal, agora dada à estampa, Pacheco Pereira comprova a prática, costumeira entre os partidos comunistas, da aplicação da pena capital a dissidentes. O método: tiro na nuca, seguindo o infalível modus operandi dos esbirros de Lavrenti Beria. Na obra, dotada de impressionante aparato documental, afirma-se expressamente a adesão de Cunhal a tal solução expedita. Mais, implica directamente funcionários do partido – nomeando-os – na morte de pelo menos dois militantes. Sabemos que aquilo era, sem tirar nem por, um grupo de fanáticos e uma escola de crime. Com todos os contornos de uma seita, o “partido” direccionava profissionalmente os seus, exercia chantagem, compelia à emigração ou à clandestinidade, não permitindo a funcionários desiludidos o elementar gesto de renúncia e afastamento. Máquina de intimidação e alienação, o partido fabricou um universo vigiado, de catacumbas e segredos, violentando e desfigurando psicológica e moralmente gerações de militantes. Microcosmos daquilo que poderia ter sido um Portugal socialista, o PCP foi um poderoso agente de aculturação e inculcação de tiques totalitários: das "companheiras" (criadas para todo o serviço - daí a monomania pró-aborto do partido) aos pistoleiros, aos infiltrados, aos denunciantes e agitadores, o "partido" nunca se libertou da fama de ser uma das mais enigmáticas organizações políticas do século XX europeu.
É de estranhar que a Procuradoria Geral da República não abra um processo de averiguações para tais crimes de sangue – mesmo que prescritos - pedindo emissão de mandado de apreensão aos ficheiros desse partido-igreja que, presumimos, devem conter matéria escaldante. Compreendemos por que razão o “partido” se quis apossar dos ficheiros da PIDE-DGS logo após o 25 de Abril. Por toda a Europa Ocidental, os PC’s disponibilizam a investigadores impressionante documentação comprovativa do dirigismo exercido pelo governo soviético sobre as organizações do Comintern/Cominform. De fora, com estatuto de intocável, fica o PC”P”. Coisas portuguesas...

18 dezembro 2005

A França reconcilia-se com Maria Antonieta e Luís XVI


Perdulária, espia, traidora, meretriz, insensível e - pasme-se - pedófila e incestuosa; estas foram algumas das pérolas lançadas pela ralé dos jurisconsultos revolucionários sobre a infortunada rainha de França ao longo de um sórdido processo judiciário que a levou ao patíbulo. Hoje, pouco menos de 20 anos passados sobre as comemorações faraónicas realizadas em Paris por Mitterrand (outro bandido sem escrúpulos), os escaparates das livrarias e os catálogos das editoras enchem-se de obras alusivas à rainha trágica. Mãe dedicadíssima, mulher de grande carácter e dignidade, protectora de crianças desvalidas e mães solteiras, Maria Antonieta é vista como uma das vítimas dessa revolução terrível que partejou o totalitarismo contemporâneo, o terrorismo de Estado, as guerras do ditador Napoleão e as matanças que cobriram, de Lisboa a Moscovo, toda a geografia europeia.
Quanto a Luís XVI, a historiografia oitocentesca cobriu-o de ridículo: frouxo, comilão, impotente, fraco de espírito, corrupto e enganado pela consorte, realizava a caricatura perfeita do fim do Antigo Regime. Os estudos mais recentes vêm provar o contrário. Era um homem dotado, trabalhador e interessado pela governação, leitor dos Filósofos e apostado em regenerar o crónico despesismo herdado de Luís XIV e Luís XV. Tolerante em matéria de religião, restituíu aos Protestantes os direitos de que haviam sido privados por Luís XIV; respeitador das magistraturas, prefigurou a separação dos poderes e devolveu aos parlamentos provinciais novas competências; consciente da irreversível ascensão do Terceiro Estado, pretendeu renovar a proporcionalidade da representação dos três estados nos Estados Gerais.
Foi traído, não pelo seu povo, mas pela alta nobreza, apostada numa nova Fronda que lhes restituísse os privilégios que o rei queria abolir. O tiro saíu-lhes pela culatra. Traindo, foram ultrapassados no torvelinho revolucionário pela escória dos desocupados e dos eternos invejosos que se apoderam de todas as revoluções: os Dantons, os Marats e os Robespierres.
As livrarias francesas estão cheias de novas abordagens de Luís Capeto, um homem decente dos pés à cabeça, amante das coisas simples - da comida, dos divertimentos e da carpintaria, a que hoje chamamos bricolagem - mas um príncipe que se deixou imolar na convicção de que um rei é um pai, mesmo que dele não sejam dignos os seus filhos.