16 dezembro 2005

Mourinho, Cristiano e José Manuel


Fazemos os possíveis para exibir a nossa europeídade, mas os europeus desprezam-nos. É um dado assente que sentem por nós uma incontida superioridade que se expressa nos estereótipos e, até, em algumas frases-feitas onde a rima sobrepuja a verdade: "les portugais sont toujour gais" (que tolice rematada). Nós, por cá, fazemos-lhes a vontade e cultivamos, até à náusea, a ideia de um povo escuro, tristonho, folclorizado, de homens bisonhos de bigode e boina acachapada e mulheres de buço, xaile às costas e saco plástico. Vivi e convivi durante anos em paragens nebulosas e colhi, com incontida fúria, de criaturas supostamente superiores - uns branquelas com assomos rubicundos, cabelos esfiapados, fei(o-a)'s como demónios - os mesmos comentários, os mesmos dixotes. Não gosto do meu país como está, mas amo-o como um amante repelido. Detesto o comezinho português, com a sua cobardia, a sua inveja, o seu conservantismo lamechas e a sua falta de horizontes, mas persisto em acreditar que este povo, que foi grande e único, ainda se pode reerguer e encontrar um futuro que passe fora da Espanha, longe dos supermercados e do plástico. Olhei ontem para o "mega-cartaz" do Cristiano Ronaldo patente na fachada de um dos prédios do Marquês e descobri que, graças a esse miúdo, ao Mourinho e ao José Manuel Barroso, esses horríveis branquelas das europas nevosas têm de bater palmas aos pés do gaiato madeirense, ouvir e calar as atoardas do treinador vitorioso e obedecer ao Presidente da Comissão. Calculo como ficarão os patetas dos castelhanos, os casmurros dos franceses e os cervejómanos dos britões.

Ao Camisa Negra

O caro colega blogosférico Camisa Negra é, para além da antologia do pensamento proibido que vem paciente e inteligentemente construíndo ao longo de meses - já a tenho, devidamente arrumada em pastas - um exagerado. Aos fascistas arrumo-os em duas categorias: os péssimos e os aristocratas. O Camisa Negra é, necessariamente, um aristocrata. Estou-lhe grato por repetidas mostras de cortesia e pelo muito que nos vem, fatia a fatia, gostosamente, oferecendo. Coloca-me o caro Camisa Negra na "elite" dos blogues que consulta. Ora, eu não sou ninguém e penso já não poder remediar o mal de haver dado o primeiro passo. A continuar, certamente, é a Antologia a que, em boa, lançou mãos. Bem-haja.

15 dezembro 2005

Camarada Sousescu


Não se cansa a criatura da geringonça novecentesca. Aquela langage de bois, novilíngua de mentiras e superstições - que toldava as salas de tortura da Lubianka, os casebres de tifosos do Gulag, o verde natural dos T52 esmagando a Hungria, a Polónia e a Checoslováquia, as bichas de 10 horas para 100 gramas de manteiga rançosa, os apartamentos-colmeia com 5 quartos, 5 famílias e uma sentina pútrida, os fuzilados de Havana, Maputo, Luanda, Adis Abeba, os hospitais psiquiátricos, a devastação algodoeira dos mares Aral e Cáspio, as denúncias, as auto-confissões de "sabotadores industriais", "sabotadores mineiros", "sabotadores florestais" e "sabotadores tecnológicos", as oitenta mansões de Breznev e as 60 de Ceaucescu, o napalme sobre o Afeganistão, as ninfetas estupradas de Mao, as conspirações "desviacionista", "titista", "sionista", "cosmopolita"e "zinoviana", as fomes artificiais na Ucrânia, a deskulaquização, o pacto Ribbentrop-Molotov, a proibição da arte burguesa e "escapista", os BIBIS violadores de crianças alemãs, as matanças de Espanha, as injecções de benzina no coração dos terminais, as experiências atómicas sobre divisões de infantaria em manobras no Cazaquistão - revolve-me o estômago.
Ontem, de papel em riste, com um sorriso de Testemunha de Jeová, uma turiferária do Camarada Sousescu, perante a minha recusa em aceitar tal impostura, perguntou:
- Então, tem medo ?
- Não, minha senhora, tenho nojo !

Refinado Jansenista, Misantropo e Pedro Guedes.

Tenho, impante sobre a minha secretária, um útil dicionário de sinónimos da língua portuguesa, que foi propriedade de António Valdemar. Dele me apossei por usucapião. Aqui o deixou Valdemar, posto que ocupo presentemente o gabinete e funções que o preclaro aríete literário exerceu nesta casa que Frei do Cenáculo fundou. O refinado a que aludi ontem - compulso o dicionário - não gera, obviamente, associações malsãs. Refinado ("grandíssimo", "perfeito", "rematado", "transparente") remete-me para uma ideia de mundanidade plena, de elegância intelectual e superioridade que não se proclama: sente-se, tão naturalmente, como o acto de respirar. Numa terra em que a clareza filosófica raramente se manifesta - exige muito estudo, total despojamento de defesas literárias - o Jansenista devia ser nomeado, de imediato, Imortal da Academia.
Sensibilizam-me, também, as palavras de estímulo do Misantropo Enjaulado - que tamanha dedicação enciclopédica e vocação pedagógica sirvam, também, para abrir processos na Causa dos Santos ! - pelo muito que me vem ensinando.
Ao Pedro Guedes, nem vale a pena acrescentar uma palavra. Depois de 18 anos de amizade, as palavras já não têm valor ritual. Ele faz o favor de ser meu amigo. Eu tenho a obrigação de lhe lembrar que é um homem superior.
Feitas as vénias, nas quais incluo o João Ribeiro - que no meio da azáfama de um doutoramento e com crianças de colo reclamando o biberão ainda tem paciência para ler este blogue miserável - gostaria de informar que doravante este V. criado irá mais vezes ao café (sem bagaço, mas com a ginginha de Miss Pearls) e será o mais piedoso com as teclas.

14 dezembro 2005

Quatro meses na blogosfera: merecerá a pena ?

Não sei que utilidade terá este blogue. Depois de quatro meses de escrita - entre os afazeres académicos, as obrigações de servidor do Estado e um livro por acabar sobre as relações entre Portugal e os potentados asiáticos nos século XVIII e XIX - impõe-se-me um balanço. Aos meus leitores - amigos, não-amigos, críticos e censores - os mais sinceros agradecimentos pelo trabalho que tiveram na divulgação, na contestação, nos aplausos e apupos. Provada ficou a minha heterodoxia, a crescente desideologização e desafectação de credos, convicções e rótulos. Terei chegado - finalmente - àquela idade em que já não se pode ser jovem sob pena de cair no ridículo, nem ser velho antecipando a vida por viver. Retirei desta experiência uma grande admiração por pessoas com as quais me teria sido de todo impossível conviver intelectualmente. Lembro os seus sítios: o refinado Jansenista, o enciclopédico Misantropo Enjaulado, o vibrante Último Reduto, o seguríssimo Sexo dos Anjos , a boa-fé da Nova Frente, a simpatia do Bic Laranja, a perfumada Miss Pearls, a segurança da Aliança Nacional. Também, sempre presentes, A Arte da Fuga, o determinado Buiça , o temerário Geraldo Sem Pavor , o sereno Corcunda , o fidelíssimo Monárquico e outra meia dúzia de locais de fruição de bons ares e boa prosa. Não esqueço, também, aqueles - de esquerda como direita - que me consideraram, desde a primeira hora, intruso, inimigo e até provocador, dizendo-lhes que nunca tive inimigos e que respeito tudo que se revele verdadeiro para aqueles que acreditam em algo.
Sempre busquei a coerência. Não procuro mais agradar nem tão pouco angariar simpatias onde estas jamais medrarão. A grande reforma que aguarda os portugueses desde o século XIX é a das mentalidades. Nenhum regime, sistema, partido, movimento, revista ou jornal pode mudar o país se não se alterar o talante dos portugueses. A questão é dilemática, pois mudar parte de um acto de volição. Todas as cosméticas - "revoluções de cima", "revoluções de baixo", "reformas", "involuções" - primam pela artificialidade. É tão fácil mudar tudo - até transplantar o rosto, como o demonstraram agora os hospitais franceses - quando o que fica é o mesmo. Confesso que estou cansado do país e dos portugueses. Fartei-me de fados, ranger de dentes, difamadores, mentirosos, hipócritas, biliosos e grosseiros. Fartei-me de falsidades moralonas, de despudores atrevidos, de intriga e mexericos, de invejas e queixumes. Parece estarmos enterrados-vivos, iludindo com palavras o vazio da alma. Se o homem problemático - desvendado pelos grandes diluídores: Marx, Freud, Nietzsche - existe, estará certamente bem representado nos nossos concidadãos. O que poderá um mísero blogue fazer, para além do atrevimento narcísico, do acto inútil, da poeira dourada de uma frase mais ou menos bem talhada ? Valerá a pena ? E o tempo investido ? E os livros que ficam por ler ? E a investigação que se vai atrasando ? E a família e os amigos que não visitamos ? Não sei, sinceramente, se por aqui andarei por muito mais tempo.

A não perder

Dois textos, diversos quanto à natureza, mas de imprescindível leitura: A direita segundo Alain de Benoist, no Sexo dos Anjos, e Lobo Antunes descripto , nas páginas sempre avisadas do Jansenista. Decididamente, a blogosfera vai corroendo as fragéis estacarias da imprensa de papel.

13 dezembro 2005

Henrique de Senna Fernandes: até às lágrimas


Assisti ontem, comovido, à intervenção que esse grande português de Macau que é Henrique de Senna Fernandes produziu na RTP-1. Caramba, que amor, que veneração e fidelidade a Portugal. Como muitos outros macaenses - e timorenses, e caboverdianos, e goeses - este homem, produto da teimosa vontade de resistir que Charles Boxer encontrava nos portugueses - separando-os dos vis mercadores e colonialistas de outras paragens - Senna Fernandes deu voz a uma realidade escondida. Essas dezenas de milhares de sino-portugueses, indo-portugueses e afro-portugueses que se emocionam ao ouvir as estrofes do nosso hino, que choram quando vêm a nossa bandeira, que querem manter viva a memória do Portugal Antigo são, habitualmente, esquecidos por uma certa fulanagem que canta loas ao multicularismo e ao multirracialismo, mas esconde a verdadeira face da empresa portuguesa no mundo. Para encontrar portugueses daqueles, é preciso ir a Macau, a Goa e à Praia.
Aviso os meus caros leitores que no próximo domingo, passando 44 anos sobre o ataque do pacifista Nehru à Índia Portuguesa, os canais das nossas tv's prepararão - é limpinho - a habitual sabatina de incoerências, dislates e verrinas. Lembro que a invasão de Goa foi um acto vergonhoso à face do Direito Internacional - acerbamente condenado pelo Tribunal da Haia - e dela resultou a saída voluntária de largos milhares de indianos que se consideravam portugueses. Diga-me, quem puder, se não há maior demonstração de amor que o de sair da sua terra, abandonar tudo, para afirmar a determinação em continuar a ser português.

Uma polémica imerecida: a propósito de um texto n' O Diabo

Saíu hoje, nas colunas do semanário O Diabo, um texto de minha autoria. Confesso que o escrevi com a máxima reserva, porquanto a temática envolvida - definição, tipologia e atitudes da(s) direita(s) em Portugal - é passível de grande celeuma. Como é meu timbre, disse o que pensava, mas pensei certamente na forma como o apresentar. Não querendo ferir susceptibilidades de quem quer que fosse - pois são de respeitar todos os quadrantes, indiferentemente da maior ou menor simpatia que nos mereçam - afigurou-se-me importante a oportunidade para assinalar alguns elementos definidores dessa nebulosa a que se convencionou chamar de "direita portuguesa". De um salazarista indefectível recebi um contundente mail, lamentando a minha "deserção". De um nacionalista revolucionário, uma simpática mas incisiva prosa afirmando estar eu a confundir a área em que este leitor se situa e a "direita burguesa e capitalista". De um tradicionalista, uma mensagem de repúdio por menosprezar o Integralismo Lusitano, o "miguelismo" e o relevante papel do catolicismo na história e cultura portuguesas.
Ora, relendo o texto de O Diabo, reafirmo o que aí escrevi. O salazarismo sem Salazar é memorialismo, o tradicionalismo um quixotismo e a direita revolucionária - a única que desenvolve actividade política - um purismo. Ninguém pode impedir quem quer que seja de relembrar o Estado Novo e suas realizações, mas o Estado Corporativo desapareceu e seria hoje tão absurdo aplicar o programa de Oliveira Salazar como restaurar o Absolutismo Régio do século XVIII. Ninguém pode impedir quem quer que seja de olhar para uma Europa medieval, de catedrais e cavaleiros, como um tempo de ouro perdido, mas a vida deixou de ser ritmada pelas matinas, a dinâmica económica já não espera pela rotação dos solos e o horizonte geográfico dos homens não se reduz às ameias dos castelos. Niguém pode impedir quem quer que seja de esperar o grande resgate e a grande revolução que partejarão o Homem Novo, mas o meu pessimismo antropológico, experiência e percepção do mundo impedem-me de acompanhar tais esperanças. Sinto-me novo de mais para ser "salazarista sem Salazar", realista q.b. para romantismos tradicionalistas e velho de mais para sentir a chama crepitante das barricadas e das colunas em marcha.
Li e reli durante anos os textos representativos dos maiores autores da(s) "direita(s)" em Portugal - de José Agostinho de Macedo a António Sardinha, de Teixeira de Vasconcelos a António de Oliveira Salazar, de Homem Cristo Filho a António José de Brito - e não tenho por eles outro interesse que o de um historiador das ideias. Tenho, até, alguma reserva em voltar a obras que me entusiasmaram na juventude, com receio de grandes desapontamentos, pelo que prefiro deixá-las em sossego e agradecer àquele que fui a oportunidade de as folhear no momento exacto. Sou patriota, amo o meu país e sofro enormemente com o estado a que chegámos, mas sei que o futuro já não depende da minha entrega. Ah, como trabalhei pela "causa", anos a fio de privações, ingratidões e ataques ferocíssimos daqueles que se diziam do mesmo campo. Agora, sou um observador. Foi nessa condição que escrevinhei a meia dúzia de linhas que o nosso amigo Walter Ventura teve a gentileza de publicar nas páginas do Diabo.

12 dezembro 2005

Freitas do Amaral: finalmente algum pensamento estratégico


Como não sou sectário - lobista, partidista, curibequista - não posso deixar de apontar aspectos positivos em políticas sectoriais que estimo positivas para o país. A política externa portuguesa está de parabéns, pois ao longo dos últimos meses tem desenvolvido iniciativas várias que tendem a retirar as Necessidades do ramerrão do pensar-pequeno e do miserabilismo a que nos habituáramos. Depois de duas décadas de especialização em paternalismo - leia-se ajudas a fundo perdido à Guiné-Bissau e S. Tomé - e vassalagem ao maná da Europa-balsa-de-salvação, Freitas do Amaral quebrou o mau feitiço e obrigou os funcionários do MNE a evoluírem e aceitarem os dados da cultura diplomática hodierna, marcada pelo profissionalismo, pelo estudo e por uma postura pró-activa. A recente aproximação à Rússia, a resolução de graves mal-entendidos com o Brasil e agora a assinatura de um histórico acordo comercial com a China são demonstrativos da emergência de uma nova atitude da dioplomacia portuguesa. No que respeita à gestão interna do Ministério, Freitas do Amaral domesticou alguns abusos, retirando privilégios escandalosos e impôs concursos públicos para provimento de lugares de adidos, contrariando o sempiterno amiguismo.
Um país pequeno deve ter uma forte como criativa diplomacia, pelo que aos diplomatas compete contrariar por todos os meios a precaridade do orçamento que o Estado lhes faculta. Freitas do Amaral parece estar a ensaiar uma nova cultura num ministério que se fora apagando, menorizando, quase demitindo, do papel cimeiro que lhe cabe. Estes primeiros sinais são auspiciosos. Importa que se mudem hábitos, preconceitos e atitudes e que a especialização dos diplomatas se aprofunde, afastando um certo amadorismo diletante. Lembro que aos diplomatas franceses, alemães, britânicos e holandeses exercendo actividade em regiões-chave do planeta são requeridas qualificações específicas para o desempenho de tais funções, nomeadamente um conhecimento profundo da cultura, da história, da vida institucional e da língua dos Estados em que trabalham. Ora, no MNE tudo se passava como nos séculos XIX e XX. A um diplomata exigia-se um apelido sonante, um francês à Eça e o domínio das elementares regras de cortesia. Isso já não é suficiente. Há, decerto, diplomatas inteligentes, esforçados e empreendedores. Infelizmente, a velha cultura persevera. Importa que os diplomatas sejam avaliados pelo desempenho, que as carreiras sejam julgadas pela qualidade - tal como todos os quadros dirigentes da função pública - e que a recompensa seja proporcional aos serviços prestados. Quando isso acontecer, o MNE será um veículo relevante da imagem e dos interesses de Portugal no mundo.