09 dezembro 2005

Weltanschauung taxista do mundo


"Enforquem esses porcos", "vamos a S. Bento e fuzilamo-los todos", "era já encostados à parede", "bandidos, escroques, impostores, mandriões". Entrei no táxi pelas 8.30 h e tive de ouvir uma cascata de adjectivos ao gosto do Sr. Gil Vicente. O taxista, com iras celestes, lá berrava, sobrepunha-se ao noticiário da rádio, repetia "precisamos de 10 Salazares", "isto só vai com um Hitler", "vão engolir-nos a ficar com isto" e outras manifestações de espírito. Fartei-me de rir, pois sei que tais discursos fazem parte da animação de [alguns] profissionais do volante. Não de todos, pois até há os que já nos brindam com música clássica. Repentinamente, na paragem de um semáforo, passou uma mulatinha elegante e bonita, dengosa e vaidosa como as "cabritas" angolanas. O homem ficou mudo, acalmou-se. Virou-se para trás, piscou-me o olho lúbrico e disse: "aquela mulatinha é muita boa. Até me dá saudades o tempo em que estive na guerra". A visão do mundo de um taxista está carregada de surpresas.

07 dezembro 2005

Leopold Trepper: o Grande Jogo nazi-comunista

Já havia devorado o livro na minha juventude, como quem lê uma novela de espionagem.
Confesso que tenho um fraco por estórias de espiões e por enredos onde, no fio da navalha, heróis de máquina fotográfica em riste, debruçados sobre arquivos ultra-secretos, sacam ao inimigo os arcanos e roubam-lhes a vitória. Os espiões são homens de uma coragem excepcional, vivem sós, ocultados no total anonimato como sombras deslizantes numa noite de nevoeiro. Para eles, um copo a mais, um envolvimento amoroso, um telefonema ou uma simples palavra proferida durante o sono pode desencadear consequências desastrosas como letais. Desta vez, ao ler a auto-biografia de Leopold Trepper, cruzando-a com perspectivas mais recentes facultadas pelo acesso aos arquivos soviéticos, compreendi o alcance tremendo das até aqui meras suposições sobre a luta de bastidores que se travou durante a 2ª Guerra Mundial. Trepper foi, como sabem, o arquitecto da Orquestra Vermelha - a rede de espionagem soviética na Alemanha e países ocupados - emparceirando com Richard Sorge e Garbo (Juan Pujol) entre os maiores mestres do ofício. Foi uma enorme dor de cabeça para a Abwehr de Canaris e Schellenberg da GESTAPO, mas não deixou de desenvolver - no limite da duplicidade - um papel na intriga política e diplomática a que obriga a grande estratégia. Afinal, a Alemanha e a Rússia estiveram em contacto permanente e desenvolveram múltiplas iniciativas para encontrar uma solução negociada para a contenda. Não fosse Himmler - partidário de um acordo com os Aliados - e Martin Borman e Goebbels lá teriam conseguido fazer as pazes com os arqui-inimigos comunistas. Como dizia um general alemão a Trepper, com o petróleo soviético os panzers chegaram a Paris, com o couro soviético se calçou a infantaria alemã e com os cereais da Ucrânia se alimentou a frente interna do Reich até àquele fatídico 22 de Junho, quando a Whermacht desencadeou a Operação Barbarossa. Estaline e Hitler ainda tentaram, em 1942 e 43 encontrar um compromisso, e mesmo após a tremenda batalha de Kursk, espantados com a ainda forte capacidade ofensiva dos alemães, se falou no Kremlin numa paz separada.
A política é uma coisa verdadeiramente suja. Não sabiam os camandantes alemães que a localização exacta suas unidades, efectivos e estado de prontidão era passada aos russos, como demonstração de "boa vontade"...pelos próprios serviços secretos alemães.

06 dezembro 2005

60 anos no trono do país dos sorrisos



Comemorou-se ontem o 80º aniversário do Rei Bumibhol da Tailândia, o decano dos chefes de Estado. Dia nacional, as comemorações foram grandiosas em Banguecoque, com a tradicional parada militar na grande avenida fronteira ao Throne Hall (Anantasamakhom) e as festividades populares - genuínas e sentidas - de um povo que se revê no seu rei. Homem de grande visão, pai da reforma agrária, arquitecto da modernização e garante da liberdade de um povo jamais aviltado pela colonização ou ultrajado pelo comunismo, Bumibhol (Rama IX) ocupa o trono desde 1946. Em Lisboa, participámos na cerimónia que a embaixada do antigo reino do Sião organizou para o efeito. É deveras tocante o afecto que os siameses exprimem pelo seu rei. Dizia-me ontem uma diplomata que o rei é sagrado, pois representa a perdurabilidade da comunidade nacional, a força da memória e das tradições, pelo que - e estou certo da fiabilidade das suas palavras - "em caso de necessidade, todos os tailandeses oferecerão voluntariamente a vida para defender o seu rei e o trono". Que bom seria se a Europa aprendesse algo com os tailandeses e não seguisse as pisadas dos "pais fundadores" da oclocracia: os Marats, os Dantons, os Robespierres e demais ganga.

Aniversário de SAR


Lembrado pelo insubstituível Misantropo - um daqueles que escreve muito e bem - assinalo o aniversário natalício de SAR o Senhor Dom Duarte Pio de Bragança, legítimo herdeiro dos Reis de Portugal, que tanta faltam fazem num país que esgravata putativos a Belém. Por quanto tempo mais teremos de suportar o pesado fardo da republiqueta à El Salvador ou à Dominicana ?
Quantos mais generais, almirantes, banqueiros e demais homens de negócios ? Quantos mais atropelos às elementares regras de comer à mesa ? Quantas mais "primeiras-damas"? Quantas mais casas civis e sacos azuís ? Quantas mais eleições para o menos mau entre os piores ? Já jurei a mim próprio que não ponho os pés - nem o óbulo - na urna. Pela República não aposto; aliás, como nunca apostei em cinódromos e hipódromos !

05 dezembro 2005

Dois minutos com a Deusa




Creio ter sido em 1997 ou 1998. Estava em Paris a terminar o meu mestrado, quando um fotógrafo amigo me perguntou: "então, amanhã queres ir comigo à sessão de lançamento das Memórias da Leni Riefensthal ?". Fiquei encantado, pois tinha pela realizadora de Olympia: Fest der Volker e prodigiosa fotógrafa dos Nouba uma verdadeira veneração. Conhecia as Memórias, pois havia adquirido a edição espanhola um ou dois anos antes, mas a perspectiva de ver a deusa empurrou-me. Confesso não gostar de sessões de autógrafos. Aquilo é demasiado fordiano, cheio de automatismos e rituais, mas estar perto dela, mesmo que no meio da multidão, enchia-me de satisfação. Lá fui. No momento em que me aproximei, não me ocorreu outra coisa - pateta, confesso - que "Leni, adoro-a". Ela riu-se muito e perguntou-me de onde vinha. Depois, falou no Sol, no mar e nesse povo de marinheiros que são os Portugueses. Acho que falou demais, pois a seu lado alguém lhe terá dito para continuar a "produção de autógrafos". Acho que simpatizou comigo (ou com a extravagante ideia de encontrar um Português) e chamou-me de volta para me oferecer um postal. À distância olhei para aquela senhora franzina, de noventa e tal anos, cuja vida fora tão terrível como maravilhosa. Irradiava eternidade. Obrigado, Leni.

04 dezembro 2005

Defendam o nosso património dos gatunos


Já se deu conta o caro leitor da expansão do negócio de Antiguidades no nosso país? Já percorreu as artérias onde tal negócio prospera a olhos vistos ? Já atentou nas grutas de Ali Babá, carregadas de obras de arte sacra, supostamente oriundas de "capelas particulares" ou do recheio de colecções "particulares"? Acredita ? Não, eu também tampouco ! São obra dos bucaneiros que assaltam inpunemente as nossas igrejas e mosteiros votados ao abandono, espalhados pela geografia nacional e visitados por falsos turistas que, armados de câmaras fotográficas, fazem o prévio reconhecimento para o saque subsequente. Alguém ouviu, até ao momento, um só dignitário da Igreja, do IPPAR ou das associações de defesa do património bramar contra esta verdadeira praga que está a matar a cultura portuguesa? Sei que em tempos padres houve que trocavam talhas douradas por carros e cuecas, que autarcas fechavam os olhos a um retábulo desviado em troca de uns quantos favores ou de crentes que permitiam que se fizesse mão-baixa de uma escultura, de uma alfaia ou de uma naveta em prata se a contrapartida fosse uma casa de banho nova para o centro paroquial, um televisor para o centro de dia ou umas quantas cadeiras para a sede dos escuteiros. Mas agora a coisa está mais grave. Dir-se-ia que os bandidos de Napoleão voltaram e estão a delapidar, do Algarve ao Minho, tudo o que os nossos antepassados, com amor e sacrifício, nos deixaram. Isto é uma vergonha...de bradar aos céus !