02 dezembro 2005

Porque acredita nos Portugueses

Ouvir os Portugueses

República e Laicidade: a resposta de Luís Mateus

Do Arquitecto Luís Mateus, dirigente de República e Laicidade, recebi a seguinte mensagem, que publico na íntegra, remetendo os leitores deste blogue para o texto que aqui publicámos na passada terça-feira. Como mandam as regras da elementar boa-educação, pedi ao autor, pela mesma via, autorização para a divulgar.
MCB
"Caro Miguel Castelo Branco,
Espero que não me leve a mal pelo comentário que aqui lhe deixo.De uma breve leitura do blogue COMBUSTÕES, retive as suas seguintes afirmações:"Tenho para mim que antes um crucifixo que um crescente, um orixá, uma estrela de David ou um qualquer penduricalho plástico saído do modismo americano. Antes D. José Policarpo que um tele-evangelista; antes a Bíblia que o Corão; antes a Moral e Religião que a doutrinação política intoxicadora; antes Cristo que o "mercado". Pessoalmente -- e porque, ao jeito de Condorcet, imagino um mundo onde "o sol só ilumine homens livres, tendo com único senhor a sua razão" (citadode cor) -- não entendo porque há-de ser, hoje, um crucifixo preferível a um crescente, a um orixá, a uma estrela de David ou a um qualquer penduricalho plástico saído do modismo americano; tal como não vejo qualquer vantagem naBíblia relativamente ao Corão, na Moral e Religião relativamente à doutrinação política intoxicadora, em Cristo relativamente ao "mercado" -- concedo que ouvir José Policarpo em vez de um tele-evangelista teria a eventual vantagem de uma maior moderação do gesto e de uma garantidaentoação portuguesa no falar do português...Ficou-me contudo uma questão: para além daquelas suas (a meu ver discutíveis) preferências -- e porque claramente as não assume como preferências absolutas, porque claramente as afirma como um «mal menor» a que estaríamos condenados --, não haverá alguma perspectiva, algum caminho, alguma política que, efectiva e positivamente, deseje para este nosso(velho/envelhecido e pobre) país?Desculpe-me esta intromissão na sua caixa de correio e aceite as minhas saudações (republicanas e laicistas)
Luís Mateus"

30 novembro 2005

A Nova Rússia

A Nova Rússia, de Nuno Castelo-Branco. Óleo sobre tela (100x60 cm), 2003.

Os nossos amigos exterminados

Não sendo propriamente um misantropo, a verdade é que tenho uma preferência especial pelos quadrúpedes caseiros. Os "bípedes implumes" - não-galináceos - saturam-me, entediam-me, irritam-me ou espantam-me pela maldade, pela inconstância, pelo chupismo, pela infidelidade e fealdade. Crianças lindas - como tadas as crias humanas - transformam-se em sacas de carne e chispe carregadas de maldade, violência e remoques, manias e vícios de carácter. Quem diria que criaturinhas tão simpáticas - que temos a obrigação de mimar e proteger - se transformem, por infusa determinação genética, nos homens e mulheres que nos rodeiam. Dir-se-ia que a razão e as hormonas trabalham em parelha para afundar a espécie, acicantando-lhe a cobiça, a crueldade, a venalidade e a violência gratuita contra os seus semelhantes. Se a violência humana tivesse, ao menos, efeitos malthusianos, como as trepadeiras que se garroteiam umas às outras para atingir a copa das árvores, ainda seria capaz de compreender. Mas não, os filhos dilectos de Deus vivem para mentir, são hipócritas, são inteligentemente predadores e desertificadores daqueles afectos singelos, simpáticos e empáticos, que encontramos nas crianças. O humano diverte-se com surplus killing, gosta de fazer sofrer.
Estas pulsões violentas desacarregam-se, naturalmente, sobre os nossos melhores amigos animais. Impossibilitados de falar - não têm polícias, tribunais, lóbis, leis e prisões - os desgraçados cães e gatos são objecto do mais vil destino. Comprados, trocados, pontapeados, abandonados, abatidos ou atropelados, andam por aí aos milhões, expostos à crueldadezinha de bípedes frustrados em busca de vítimas compensatórias.
Para quando uma política eficaz que leve à prisão os torturadores de animais ?
Para quando a legislação draconiana que leve à barra dos tribunais atropeladores, patrocinadores de lutas de cães, angariadores de espectáculos "tauromáquicos" e fetichistas do gatilho que aos fins-se-semana inundam os nossos bosques e charnecas a matar tudo o que se move ?
Lá vêm eles com as sacrossantas tradições, com a "cultura" e outras hipocrisias desculpabilizadoras, próprias das hormonas armadas com a maldita razão !

29 novembro 2005

República e Laicidade: associação cívica


O pedido para que se removam os crucifixos nas salas de aula da rede escolar oficial, apresentado à Ministra da Educação no passado dia 30 de Março, a que aludimos anteontem , já deu os primeiros frutos públicos.
O inefável seguidor de Trostky, Francisco Louçã, afirmou que a retirada de crucifixos das escolas públicas portuguesas devia ter acontecido na tarde de 25 de Abril de 1974 ou, quando muito, no dia em que a Constituição foi aprovada. Passe o aproveitamento político, típico do populismo da extrema-esquerda caviar, a agenda da Associação República e Laicidade estava há muito confeccionada. Poucos dias após a tomada de posse do XVII Governo Constitucional, dirigido por José Sócrates, realizada no dia 12 de Março, a sobredita associação, há muito familiarizada com a estrutura, competências e procedimentos do Ministério da Educação entregou à nova titular, Maria de Lurdes Rodrigues - curiosa em temas relacionados com a História da Maçonaria portuguesa - a carta que só agora transtornou o noticiário nativo.
A Associação República e Laicismo é, sem tirar nem pôr, uma entidade nascida da convergência de figuras do PS e da Maçonaria. Não gostamos, decididamente, das teorias da conspiração, mas atente o caro leitor à relação que em baixo facultamos e retire as conclusões que julgar oportunas.
Orgãos Sociais da República e Laicidade
1) Luís Mateus, membro destacado da Maçonaria Regular.
2) Maria Helena Carvalho dos Santos, historiadora e professora universitária, responsável pela secção "Problemas da Intolerância" no Instituto de Estudos Portugueses, Presidente da SociedadePortuguesa de Estudos do Século XVIII, militante socialista,ex-Secretária de Estado Adjunta do Ministro da Educação no IX Governo Constitucional presidido por Mário Soares e Grã-Mestre da Grande Loja Feminina da Maçonaria Regular.
3) Maria Helena Corrêa, professora universitária, subscritora da lista de proponentes de Mário Soares à Presidência da República.
4) Francisco Carromeu, militante do PS e verador municipal.
5) Ludwig Krippahl, um dos responsáveis pelo blogue Diário Ateísta de cujas páginas se desprendem pérolas de doutrina anti-cristã que fariam corar o pornógrafo autor do "clássico" Bispo de Évora: "Quiçá o tornou intolerante a velhice ou o Alzheimer. Deus andava tão enxofrado com o divertido método que os humanos tinham engendrado para se reproduzirem, que encomendou um filho a uma pomba. Esta recorreu a uma barriga de aluguer e sujeitou a mulher a uma cesariana para a manter virgem, indiferente aos murmúrios e chistes que sofreu um pobre carpinteiro de Nazaré."
6) Ricardo Alves, o mais destacado colunista do Diário Ateísta.
Não deixa de ser anedótica a notória incompatibilidade entre os pergaminhos e atributos a que se arrogam os "valentes zurzidores da fradalhada"e o tom, no mínimo indigno e tresandando a falta de respeito, dos escritos de alguns dos dirigentes de tal associação. Não sou crente nem pertenço a qualquer agremiação confessional, pelo que se me impõe a obrigação de não me pronunciar sobre as crenças e convicções religiosas dos meus concidadãos. Ora, pelo que se desprende de alguns textos - senão de todos - assinados por dirigentes da insigne confraria, não há ali nem laicismo nem civismo. Tudo aquilo fere as narinas pela grosseria, pela afronta e pela baixeza. Julgo que a Maçonaria nada ganha com esta quixotada, posto que regressa em força à visibilidade com os desbragamentos que terão ditado o clamoroso fracasso da 1ª República.
Julguei que o PS se curara da "doença infantil" do ateísmo, filha do positivismo militante e do cientismo substitutivo da religião. Julguei que os anos haviam serenado as excitações primo-republicanas - que trouxeram Salazar - mas não. Afinal, enganara-me ao presumir que esta confraria seguia a onda zapaterista, com o mimetismo provinciano próprio dos portugueses. A coisa estava há muito preparada. Só espero que não tenha sido cozinhada com os de cá e os de Madrid !
Começo a compreender por que razão Maria Barroso não aparece nos actos públicos do Dr. Soares...

28 novembro 2005

Livros para o Natal: Quando a China mudar o mundo


Vinte por cento da população do planeta, 60 milhões de pianistas, multiplicação do PIB por cinco desde 1978, 97% da população alfabetizada, quintuplicação do rendimento médio por habitante desde 1980, 170 cidades com mais de 1 milhão de habitantes e outras desmesuras fazem do Império do Meio o grande protagonista da cena internacional, anunciando a emergência de uma mega-potência capaz de equiparar os EUA por volta de 2050. O bater de asas deste Ganso Selvagem gigante provoca ciclones nos mercados mundiais. A China, ao aderir à Organização Mundial do Comércio, ditou a morte a muitos proteccionismos e indústrias cuja existência era há muito artificial, pelo que toda a histórica hodierna passou a ter um antes e um depois medido a partir da aberura chinesa.
Quando a China mudar o mundo, de Erik Izraelewicz, agora publicado pela Ambar, é um daqueles livros que se impõe ler. Destrói mitos, consolida apreensões e oferece um quadro explicativo acessível a um grande público. Qualquer decisão e investimento estratégico decidido em Pequim afectam inexoravelmentre o maior banqueiro e empresário ocidental, o mais modesto accionista, a dona-de-casa, o consumidor e o simples cidadão, pelo que acabou o tempo em que o exotismo e as anedotas ditavam a lei. De nada nos serve defender aquilo que se vai esboroar no choque inevitável da realidade. Se a China é uma ameaça, também pode ser uma oportunidade única de mudança estrutural de economias adormecidas. A revolução globalizadora, que já nada pode deter, alterou as relações internacionais e firmou o capitalismo. Quaisquer reacções e tentativas involucionistas serão doravante retaliadas. A China aceitou o repto e ganhou, por ora. Cumpre-se saber se as consequências da adopção do capitalismo e das regras do mercado - a democracia e a ascensão de uma classe média exigindo participação na vida política, até hoje monopólio do PCC - permitirão a manutenção da ascensão do país. Quanto à Europa, terá de rever o seu modelo sob pena de morrer sufocada.
Recomendo vivamente a sua leitura.
Izraelewicz, Erik
Quando a China mudar o mundo. Porto: Ambar, 2005

27 novembro 2005

Cristianismo

Sou a-confessional e, como tal, não terço armas por questões que não me dizem respeito. Contudo, não posso deixar de me sentir agredido quando um governo toma a decisão - tirânica, isto é, sem auscultar quem quer que seja senão os inimigos do cristianismo - de mandar retirar os crucifixos das escolas. Irrita-me tanto o ateísmo militante como a religiosidade que se impõe, pois uma e outra atitudes tresandam a falta de respeito. Esta iniciativa da Ministra da Educação é tipicamente portuguesa. Na onda do zapaterismo, que ao menos tem a provelbial coragem espanhola de abrir uma guerra civil, aqui faz-se tudo em pequeno: é o liliputianismo português no seu melhor, à escala da missanga e da filigrana. O cristianismo é, quer queiramos ou não, a matriz fundamental da nossa cultura. Bem sei que a Europa seria outra se os nazarenos a não tivessem evangelizado. Bem sei que a imposição do cristianismo foi, ao contrário do que rezam os piedosos revisionismos, uma revolução cultural que provocou a morte a milhares de sacerdotes pagãos, queimou-lhes os templos, intimidou os crentes de Júpiter, de Saturno, do Sol Invicto, de Mitra e de Mani, abateu as árvores sagradas dos Saxões, levou à fogueira legiões de adivinhos, arúspices, "bruxas e bruxos", queimou bibliotecas e provocou um recuo evidente do pensamento filosófico, científico e estético que se edificara desde o primeiro milénio a.C. até ao século III da nossa Era. Sei que a imposição do suave jugo de Cristo foi, em grande parte, obra da engenharia da imperatriz Helena, mãe de Constantino, que pela Terra Santa andou a recolher provas e relíquias para legitimar o poder absoluto e jus divinista do novo totalitarismo cesarista. Pesem as malfeitorias da génese, o Cristianismo deu provas de fortaleza e dedicação ao abeirar-se das grandes esperanças e sofrimentos dos fracos, dos doentes e desvalidos, promovendo uma nova antropologia fundada na caridade e na salvação. Intelectualmente, lançou as raízes das ideias de liberdade, igualdade e fraternidade entre todos os membros da espécie humana - que a Revolução usurparia - e deu à Europa a unidade de destinação que lhe permitiu expandir-se e sobreviver. Devemos-lhe muito. O laicismo - que compreendo - não transporta nenhuma fundamentação essencialista, pelo que as sociedades em que se impôs são menos estáveis, mais conflituosas e mais atreitas a cíclicas doenças colectivas vicariantes da sede do sagrado. O século XX foi marcado pelo totalitarismo, que não teria sido possível numa Europa cristã. A necessidade do sagrado é consubstancial ao humano, pelo que, quando a religião é atacada, rompem-se todos os liames que unem o corpo social. No caso pendente, o dos crucifixos retirados das escolas, trata-se, mais que um gesto inútil, de um gesto gratuito. Tenho para mim que antes um crucifixo que um crescente, um orixá, uma estrela de David ou um qualquer penduricalho plástico saído do modismo americano. Antes D. José Policarpo que um tele-evangelista; antes a Bíblia que o Corão; antes a Moral e Religião que a doutrinação política intoxicadora; antes Cristo que o "mercado".