25 novembro 2005

X Files


Sei que em tempos de crise campeiam os medos, companheiros inseparáveis da fome, da peste, das guerras e da morte. A nossa pacata sociedade de modorra e conservantismo vai na onda da depressão. Abro os jornais do dia e aí estão, em tinta negra sobre papel reciclado, os textos que farão as delícias dos historiadores de mentalidades daqui a 20 ou 30 anos: sequestros, matricídios, parricídios, pedofilia, assaltos, infanticídio, mendicidade, desemprego, encerramento de fábricas, predicadores de dedo em riste apostrofando contra forças diabólicas, conspirações, seitas, terrorismo, cheias e secas e demais castigos divinos, bruxos, predições, sinais nos céus...
A depressão chama Thanatos, a crise desiquilibra os fracos, os vulneráveis, os sugestionáveis. Parece que o mundo está prestes a cair sobre todos nós, vítimas da luxúria, do luxo, da abundância e de todas as pragas mosaicas que o Deus de Israel lançava sobre os desgraçados que a Ele obedeciam como escravos. Abro os jornais de 1898 elá estão as mesmas coisas. O mundo não muda; os homens são iguais. É a crise mental cíclica anunciando a nova Aurora ! Metade da humanidade vive imersa no medo da outra metade. Tudo o que se nos é dito carrega armadilhas diabólicas, fantasias e historietas que pensava estarem há muito confinadas ao universo infantil. Ontem apareceu-me um louco, que sempre havia tomado por uma criatura minimamente equilibrada, dizendo-me que os anjos estão a surgir a muitos "puros". "Anjos? Essas entidades aladas?" Sim, os anjos são emissários e estão a alertar-nos para o cataclismo que se aproxima". A criatura é professor de Filosofia. Se até a Razão e o Fogo Grego, que tanto riam da pistis dos pobres pregadores, se deixaram vencer pelos terrores, não sei em que mundo vivo.
Espero, sinceramente, e para bem da nossa pacatez burguesa, que a pistis desses loucos de Deus não os transforme em guerreiros de Deus. O ex-filósofo, confrontado com uma simples pergunta, respondeu-me: "foi Deus que me enviou". Respondi-lhe à letra, como o Senhor Voltaire:"se vem em nome de Deus, mostre-me a procuração". Acrescentei: "entre numa livraria, vá a uma biblioteca, leia um bom livro, compre um CD de boa música, acalme-se e deixe as coisas passarem". A resposta à infantilização, ao desiquilíbrio, à histeria e ao afã de fazer coisas péssimas está na cultura. "E porque não também na ocupação do corpo ? Vá a um ginásio, faça luta e essas toxinas desaparecem. Amanhã acorda outro." "Deixe-se de esgravatar no lixo que inunda a Internet, lixo pseudo-religioso tão nocivo como a pedofilia". Ficou furioso. Espero não o voltar a ver.

24 novembro 2005

A CIA e Portugal



Anda por aí um alvoroço dementado - próprio de um país sem notícias - a propósito da utililização de aeroportos portugueses por aeronaves da CIA. Que mal há nisso? Não somos aliados dos EUA? Não têm as nossas autoridades, especialmente os nossos serviços de informações, contactos, protocolos e obrigações perante os seus congéneres europeus e norte-americano? Persiste a ideia, bolorenta como a Guerra Fria, que os serviços a que chamamos secretos se dedicam a conspirações, conjuras e atentados contra a paz e segurança dos povos. Nada mais errado, pois devemos-lhes a nossa segurança. Não existissem tais instituições e estaríamos (ainda) mais expostos a bombistas, terroristas, kamikazes e demais celerados. Os comunistas são, obviamente, os mais exaltados neste coro de protestos contra a CIA. No seu tempo - quando a defunta URSS dirigia uma rede de espiões, sabotadores, agitadores e informadores - os partidos de Moscovo inventaram a cabala da CIA ao mesmo tempo que davam guarida aos comissários enviados pela Inteligência soviética. O mito do espião malfeitor é, claramente, uma velharia. Neste caso, uma velhacaria.

23 novembro 2005

Mama Sume, Mama Sume, Mama Sume


Foi ontem a enterrar mais um combatente de Portugal. Sobre o ataúde, o vermelho da sua boina brilhava como a consciência do dever cumprido. No passado como no presente, depositárias da unidade e preservação da Pátria e do bom nome de Portugal - na paz e na guerra, em defesa da África Portuguesa, nas trincheiras da Flandres, em Goa, Damão e Diu, em Timor e Macau, mas também na Bósnia e no Afeganistão - as Forças Armadas foram e ainda são um dos esteios essenciais da nossa sociedade. Para além da política, do falso pacifismo e de um certo civilismo que reproduz o gosto pelo caos, pelo contestarismo burguês e pela irreverência que mascara o ódio contra toda e qualquer autoridade - quando não a expressa vontade de dar por encerrada a existência de Portugal - a ética militar, a voluntária renúncia da liberdade civil e a disciplina são um exemplo para todos. Há, decerto, péssimos militares, mas felizmente sobrelevam as brilhantes tradições castrenses de um povo que soube, ao longo da História, fazer da fraqueza força e manter viva a chama que tem mantido, nos bons e maus momentos, a permanência deste povo quase milenar. Fui miliciano durante cinco anos e foi-me oferecido o que de pior e melhor encerram as Forças Armadas. Lembro-me do melhor: da camaradagem, do esforço colectivo nas marchas, na fome, no frio e na sede, da disciplina e na hierarquia que se aceita como algo de tão natural como o acto de respirar. Pena é que a nossa sociedade não saiba acarinhar aqueles milhares de homens e mulheres que se profissionalizaram na arte de bem morrer por todos nós.
Ontem como hoje, na guerra e na paz, não há praças nem galões em torno da bandeira de Portugal. Há, só, portugueses. Mama sume, mama sume !

22 novembro 2005

Rodrigo Emílio: PEQUENO PRESÉPIO DE POEMAS DE NATAL




Com a chancela da editora Antília, animada por esse português de primeira linha que dá pelo nome de Alberto Araújo Lima, será apresentada ao público no próximo dia 30 de Novembro, pelas 19 horas, no Círculo Eça de Queirós, a obra póstuma do nosso Rodrigo Emílio Pequeno Presépio de Poemas de Natal. Confesso que me perturba ler esse grande príncipe do nosso sofrimento colectivo. Há em Rodrigo Emílio o gesto largo e o verbo crepitante da tradição camoniana, o bocageano desassossego e irreverência, a dor resgatadora de Monsaraz, a gravidade de António Corrêa d'Oliveira, a permanência inegociável da tradição e do amor ao povo de um Pedro Homem de Mello e a grandeza solene de Couto Viana. A Estrada Real que percorreu o Poeta de soldado vestido não foi a via crucis , quase suicidária, que muitos teimam retratar. Rodrigo foi o primeiro, o maior, o mais puro e o mais valente. Não foi o poseur que se deixa morrer para exemplo. Vio-o sempre como um homem único, inimitável, calcorreando aventuras espirituais a que o vulgo não pode aceder. O sorriso, a finura e a candura não escondiam violência sublimada, nem acrimónia escarninha. Dizia-me sempre, sem querer ensinar, que o melhor triunfo é aquele que brota do Amor. Vivia perplexo com a maldade dos homens, a inveja e a má-fé dos medíocres, mas não percepcionava o mal como uma entidade transcendental, eterna e absoluta; antes como uma privação de luz e verdade. Nestes Poemas de Natal - cuja aquisição É OBRIGATÓRIA - está, totalmente, a mão do criador. Agora que está longe, ausente, apercebemo-nos da sua absoluta grandeza. É essa a maldição daqueles que são superiores. Só hoje lamento, egoisticamente, não ter sabido estar mais tempo com o Ausente.
Rodrigo Emílio é, com António Manuel Couto Viana, que prefacia a obra, o espelho de virtudes de uma velha raça que se eleva sobre o cascalho da mediocridade roncante em que se precipitaram as belas-letras portuguesas. Ler um e outro, tributar-lhes respeito e admiração, não basta. Importa que a cultura portuguesa os reconheçam e lhes confiram o lugar hoje ocupado por ídolos.


FÉERIE DE NATAL:
DA TALHA DO RETÁBULO À TÁVOLA DA CONSOADA


Enluminura natalícia

Rojam-se aos pés de Jesus
os reinos da Natureza...
O mundo fende-se em luz:
— fica a luz do mundo acesa...

Pelo Sinal da Santa Cruz,
juntam-se à volta da mesa
entre iguarias de truz,
a agonia dos perus
e acepipes de princesa
à sobremesa
— os bons, os justos, os crus,
quebrando, em bodas comuns,
penitências e jejuns
de penúria ou de pureza...

(As ementas e menus
fazem jus, mais do que jus
à liturgia burguesa.).

A estrela alumbra e seduz
de arrebalde em redondeza,

Maria mira essa luz.
São José medita e reza...
Quanto ao Menino Jesus,
Faz ó-ó. Dorme em beleza!...

(Casa de São José, em Parada de Gonta,
às portas do Natal de 1994)



Antília Editora Lda.
Rua 15 de Novembro, 43 - 2.º4100-421 Porto
Telef.: 226068828
Telem.: 917885190Email: antiliaeditora@gmail.com

21 novembro 2005

Sessão espírita


Um domingo perdido em frente da nefanda caixa-maravilha. Chuva e vento convidando a uma boa leitura, a uma visita à exposição da colecção da galeria do Rei D. Luís ou a uma hora de braçadas na piscina. Mas não. Cismei que não saía para assistir a oito horas de documentários que o canal Historia dedicaria aos 30 anos sobre o passamento de Francisco Franco. Uma perda de tempo, um clister, uma purga, um vomitório que envergonharia o mais empedernido mentiroso. Fiquei a saber que:
1) Franco era um semi-analfabeto, com a formação intelectual de um homem medíocre;
2) Franco era enfermiço, complexado e debatia-se com fantasmas edipianos;
3) Franco era um militar sem imaginação;
4) Franco e Salazar detestavam-se;
5) Franco erigiu um regime corrupto;
6) Franco desposou uma "pega ladra" coleccionadora de jóias;
7) Franco sempre quis ver a neta no trono e tentou derrogar a cláusula sucessória;
8) Franco tinha por irmã uma locupletadora de terrenos;
9) Franco era uma criatura fria, calculista, cruel e "medieval";
10) Franco atrasou em décadas a prosperidade espanhola.
Testemunhas ? Nenhuma, com excepção de uma sobrinha de Dona Carmen e de Ricardo de la Cierva. Acusadores? Meia dúzia de jornalistas carregados de baias, despejando banalidades e ódio quimicamente puro, bem como uns velhos lacrimejantes - bons guerrilheiros obedientes a Carrillo - e um fradeco cantando hossanas à Frente Popular, a Azaña e à Passionária. Esta gente não consegue um pouco de distanciamento ? Já não tenho paciência para fanatismos, para ódios cansados e coisas velhas. Dou graças por ter saído a tempo desse mundo de superstições e vistas curtas das crenças políticas e do caudal de banalidade em que vivem enterradas as pessoas que teimam em tiranizar o próximo com convicções nascidas da ignorância e da má-fé.
Depois, perguntei-me, aturdido ainda:
1) Ganhou ou não ganhou Franco a única guerra vitoriosa travada contra o comunismo, a corpo limpo e a tiros ?
2) Devolveu ou não Franco a Espanha a monarquia, travejamento fundamental da unidade do país ?
3) Foi ou não Franco o obreiro das revoluções industrial, social, urbana, tecnológica e científica que permitiram à Espanha ocupar a 10ª posição mundial ?
4) Foi ou não a Franco que se deveu a criação e riqueza dessa classe-média, carregada de brilhantina e chique de Holla com que se pavoneiam os espanhóis por meio mundo ?
De facto, foi graças a Franco que a Espanha se tornou democrática, tolerante e próspera. A democracia decorre da síntese de mudanças de atitude que só se podem afirmar depois de vencidos os atrasos económico, cultural e científico. Perguntava o Caudillo a Adolfo Suarez se julgava inevitável a mudança do regime autoritário após a sua morte. Suarez disse-lhe que sim, que a Espanha seria inexoravelmente democrática. Franco ficou absorto e respondeu com um gesto de ombros. Sabia que aquela Espanha deprimida, negra, esfomeada e rural do passado havia sido revolvida pela sua governação. Sabia que a prosperidade pede liberdade e participação e que aqueles que o haviam secundado seriam os primeiros a denegri-lo ou a esquece-lo. O que não se pode compreender é o afã, que diria quase esquizóide, em perpetuar ódios, ressentimentos e a damnatio memoriae sobre um homem que salvou a Espanha do comunismo e que retirou o país da medievalidade.