18 novembro 2005

Instituições Portuguesas (VII): o doutorismo


Em Portugal é mais fácil encontrar um doutor que um sapateiro, um estivador, um camponês, um operário ou um padeiro. A infestação de doutores assumiu proporções tais que quase arrisco afirmar haver um doutor em cada esquina, em cima de cada árvore ou em baixo de cada pedra da calçada. Há doutores a servir cafés, doutores a vender telemóveis, doutoras a tomar conta de crianças, doutores a fazer cargas e descargas ou a impingir-nos férias poligrupo, tapetes marroquinos e cristaleiras nas ruas . A universitarite não conhece limites sociais, mentais e etários, pelo que vemos verdadeiras criadas de servir, autênticos deficientes mentais e sem-abrigo a estender o doutorismo na ponta de garras verdadeiramente zoológicas ou no prolongamento de queixadas paleontológicas que nem Bosch ou Zurbarán, por amor à espécie humana, se atreveriam pintar. Como disse com piada e acerto Alçada Baptista, após os 30 anos de idade cada um é responsável pela cara que tem. Estes doutores, saídos em ranchos dos viveiros-universidades, quase ágrafos, exibindo um português de vão-de-escada e uma total incapacidade para o uso de faculdades intelectivas básicas, impuseram-se-nos com a arrogância de uma praga que ameaça destruir o que de distintivo a Universidade havia laboriosamente erigido desde a Idade Média; a saber, a superiorização pelo duro labor do estudo, a humildade cultural e a sede inextinguível de conhecimento. Abandonam as universidades como entraram: vazios, mas mais perniciosos porque arrogantes no manuseio da granelagem de tópicos científicos; bárbaros, mas mais especializados, pois aprenderam as técnicas de vendas, a programação de computadores, as técnicas da análise psicanalítica, o cálculo de resistência dos materiais, os sistemas constitucionais, a mecânica dos fluídos, a periodização das eras históricas, a desconstrução de um texto literário mas nunca leram uma obra literária, nunca entraran numa biblioteca ou num museu, nunca foram tocados pelo inebriante, pelo inefável ou pelo indizível da contemplação de tudo aquilo que nos diz "eis-me diante de ti, partilha da minha grandeza". Tenho vivido décadas cercado de doutorecas e doutorzinhos com estantes pejadas de Saramagos, Lobos Antunes, Joões de Mello e restante cardápio de intocáveis - em sentido literal - daquela que se transformou em carta de alforria para o reconhecimento social. São produto da escola portuguesa, que parece ter sido concebida por um deus louco. É apenas no ridículo que se aparenta com a abadia de Theleme, mas aqui não se cultiva o poliglotismo, a nobreza, as artes e o convívio. É uma anarquia de programas e teorias pedagógicas, ministros que entram por uma porta e logo se volatilizam, novos ministros que de camartelo em punho lançam o fogo sobre a seara do predecessor, stôras e stôres proletárias que se deliciam, à hora dos intervalos, a falar do cocó do menino, das peúgas do marido, na saída do Mário Frota ou da última chicotada psicológica do jogo de Domingo. São, sem tirar nem por, iguaizinhos aos queridos papás e mamãs dos monstrozinhos barulhentos, insolentes e grosseiros que os esperam para mais 50 minutos de terapia ocupacional em que devieram as aulas. O panorama não sofre alterações, do básico ao universitário, com a agravante do acesso à docência universitária, que no ensino básico e secundário decorre de concurso público, ser claramente marcada pelo grupismo, pelo lóbismo e servilismo.
O doutorismo escalona-se internamente pela corrida aos títulos. Há milhares de doutorecas e doutorzecos, aos encontrões, espezinhando-se, comprimindo-se, aguardando a abertura de uma pós-graduação, de uma especialização, de um mestrado, de um doutoramento, que até dos já inventados pós-doutoramentos, uns com 25, outros com 27 anos - sem referências, sem bases - exibindo certidões de triunfo para o "mercado de trabalho". Externamente, é a corrida às fórmulas de tratamento. Há os dr's (com minúsculas), isto é, os licenciados; há os doutores (com doutoramento), os Prof.'s dr.'s (os licenciados que leccionam como assistentes dos Prof.'s Doutores, que possuem doutoramente mas não agregação), e os Professores Doutores, que exercem nos pináculos. Esta fantasia de títulos não resiste, muitas das vezes, a um dedo de conversa. Figuras cinzentas, monocórdicas, invisíveis, capazes de anestesiar um tigre da Sibéria, de petrificar o mercúrio ou transformar a Amazónia numa cratera lunar.
O doutorismo é um mal menor num país de analfabetos? Não creio. Falseia, mascara e esconde o perpétuo divórcio da inteligência com a nossa sociedade. Enquanto assim formos, seremos, sem apelo, os últimos.

17 novembro 2005

Coroas e monarquias (II)


Objecções adicionais que se produzem amiúde a respeito da instituição real, toldadas por um véu aparente de racionalidade, prendem-se com a suposta superioridade subjectiva dos detentores da chefia de Estado republicano - cooptados ou eleitos pelos seus concidadãos - face aos chefes de Estado dinásticos, ou ainda, no exagero da manutenção de uma custosa representação - apanágio da sumptuária régia - quando comparada com a modéstia da vida dos presidentes. São dois tópicos pequenos, quase insignificantes a roçar a banalidade, mas que escondem o maior inimigo das monarquias contemporâneas. Estes argumentos exprimem, com disfarce, o mito igualitário; por outras palavras, escondem a inveja. " Se eu não posso ser rei" - dirá o capitalista - "por que razão terão eles o direito de o ser" ? "Somos todos iguais, logo não pode ser tolerada a manutenção de privilégios familiares e de linhagem numa sociedade de cidadãos". É consabida a estreita relação existente entre o poder do dinheiro e a fabricação e rotação das elites no mundo moderno. Os cidadãos são, de jure, iguais, mas os que detêm o dinheiro - empresas, comunicação social e protagonismo - são, de facto, os únicos com aspirações perduráveis ao poder. Os outros, ou são excepcionalmente dotados, ou resignam-se ao papel de caudatários das cortes plutocráticas. O poder do dinheiro garante vantagem social: educação esmerada, influência e profissionalização política. Ora, os filhos dos ricos são, por inerência à sua fortuna, os únicos que aspirarão à chefia de Estado republicana. Olhando para o friso dos presidentes desta 3ª República apercebemo-nos da evidência desta afirmação. Com excepção do General Eanes - produto do thermidor revolucionário - todos os outros são homens oriundos de berços dourados.
No que concerne aos candidatos às eleições que se avizinham, com excepção de Jerónimo de Sousa e Cavaco, os restantes são homens saídos da elite endinheirada. Sobre Cavaco recai, de forma toldada mas perceptível, o sorrisinho crítico das alusões à "bomba de gasolina" de Boliqueime. As repúblicas libertaram-se menos da sua matriz liberal-burguesa de Oitocentos - do enriquecei e prosperai - que as monarquias contemporâneas. Os monarcas do liberalismo português foram todos, sem excepção, homens altamente qualificados do ponto de vista cultural. Os monarcas constitucionais das coroas europeias e asiáticas destacam-se pelo exercício de qualidades humanas e intelectuais que concorrem directamente com muitos nomes grandes da comunidade científica mundial, pelo que está demolida, pelo facto, a tese da congénita incapacidade dos chefes de Estado dinásticos.
Quanto à sumptuária, gostaria de lembrar que o orçamento que cabe à instituição Presidência da República Portuguesa é três vezes superior à dotação atribuída a Juan Carlos de Bourbon, rei de Espanha. A quem beneficia a República ? Quem perderia com uma Restauração ?

16 novembro 2005

Coroas e Monarquias


Sei que algumas das minhas opiniões a respeito da questão monárquica chocam a sensibilidade de muitos simpatizantes da causa real; muitos mais situados na aurea mediocritas sentir-se-ão revoltados por atentar contra convicções do tempo presente. Que sensibilidade será aquela e que convicções serão estas ?
1) Estima-se que os chefes de Estado dinásticos ( vulgo "reis") são pessoas como quaisquer outras, com direitos e obrigações similares aos demais concidadãos, mas carregando o pesado ónus de uma privação da liberdade individual dos titulares em prol do interesse colectivo. As monarquias constituicionais - que estabelecem o princípio do carácter eminentemente arbitral do chefe de Estado na fórmula "o rei reina mas não governa" - quebraram há muito o conceito de monarquia (mono-arquia), ou seja, da irresponsabilidade do soberano perante os outros poderes, que historicamente eram subsidiários ao desempenho da monarquia, mas hoje dele se autonomizaram e até a sobrepujaram. O rei constitucional submete-se a um texto fundamental, às leis e às instituições que, separadas, são fontes de soberania. Resta-lhe desempenhar funções - relevantes, sem dúvida - de representação do Estado, interptretando perpetuidade da comunidade de valores e memória que representa a nação e intervir, em situações extremas, como figura apaziguadora de tensões que possam quebrar a unidade e coesão nacionais. De facto, numa perspectiva rigorosamente politológica, já só existem coroas e não monarquias.
2) Afirma-se que a subsistência de regimes monárquicos se prende mais com características específicas de algumas sociedades, posto que a fórmula republicana se enquadra melhor no espírito do tempo presente, caracterizado pela afirmação da igualdade, da participação livre dos cidadãos e no correspondente direito destes a ascenderem a todos os cargos e funções de um Estado fundado na soberania do povo. Assim, se ainda se explicava a sobrevivência de uma "monarquia constitucional" sob o Liberalismo - que se caracteriza pelo primado da soberania da Nação - não restariam grandes argumentos para a manutenção de tal instituição quando o princípio democrático de soberania popular é o único tido por legítimo.
Porém, como a história recente demonstrou, as "monarquias" são mais eficientes que as repúblicas na gestão das crises internas, são mais representativas que as chefias de Estado republicanas - eleitas ou impostas - e melhor interpretam o desejo de unidade e bem-comum dos cidadãos. Não será por acaso que os países mais civilizados, prósperos, livres e progressivos da Europa se mantiveram monarquias, quando os mais pobres, conservadores e propensos à demagogia e ao neo-feudalismo devieram repúblicas; por outras palavras, os países onde as superstições comunista e igualitária nunca tiveram qualquer expressão eleitoral mantiveram a monarquia e os países com forte tradição autoritária escolheram a república. Não será por acaso que, em África, exceptuando a República da África do Sul, só há um país que escapa ao flagelo dos tiranos ubuescos. Esse país é Marrocos e é monárquico. Na Ásia, o Japão, a Tailândia, o Sultanato de Omã e o Reino da Jordânia fazem a excepção num continente marcado por ditaduras sanguinárias ou por integrismos de toda a sorte.

15 novembro 2005

O coração das trevas

O governo militar da Birmânia - que havia crismado há anos o país com a esotérica designação de Myanmar, que significa "país de todas as raças" - acaba de transferir a capital (Rangoon/ Yangoon) para as penedias densamente arborizadas do centro do país, impedindo por ora a deslocação das embaixadas acreditadas. Alguns analistas atentos da problemática sudeste-asiática colocam a possibilidade de tão intempestiva decisão se prender com a verdadeira histeria - a comprovar - de uma iminente "agressão imperialista" ao Estado birmanês. País auto-excluído da cena internacional, a Birmânia é um dos últimos santuários do purismo socialista, reintrepretado à luz de uma conveniente amálgama de budismo e marxismo ambientado. Não fosse uma extravagância ou a memória delida da antiquíssima tradição asiática das capitais nómadas, lembrando a itinerância das moradas dos grandes khans mongóis, e dir-se-ia que no país nada mudara desde a tomada de poder pela clique militar que se apossou do poder em 1962. Mas esta súbita mudança não é única nos anais da história recente da região, pressagiando funestos acontecimentos dignos da lembrança filmográfica de um Apocalipse Now ou, mais grave, da tragédia cambojana sob os anos de chumbo de Pol Pot. Estas deslocações, estes rebaptismos, essa vontade de sair do mundo e fechar totalmente o país às "perversões" do Ocidente lembra a célebre como malfadada política khmer do Angkar: um governo secreto, em paradeiro desconhecido, imerso nas selvas, sem jornais, rádio, tv's e internet.
Pyinmana (assim se chamará a nova "capital") anuncia um desses sonhos utopistas como regressivos de uma pureza restaurada. Deu frutos abomináveis no Camboja de Pol Pot, deixou um rasto de morte no Afeganistão dos Talibã e concitou - ao invés de o aplacar - o desprezo da comunidade internacional. Se não queriam uma intervenção, agora estão a pedi-la.

14 novembro 2005

O selo vermelho


Os CTT acabam de emitir um selo comemorativo do 92º aniversário do nascimento de Álvaro Cunhal. É sabido que o afã de lucros e oportunidades de mercado não conhece fronteiras, pelo que a evocação de Cunhal, destinada a um nicho importante da sociedade portuguesa - aquela falange reaccionária, cronofóbica, ultra-conservadora, moralona e nostálgica que cultua o defunto secretário-geral - se explica mais por razões comerciais que por um qualquer ardor marxista-leninista. Os coleccionadores de memorabilia, bem como os amantes do locus horrendus esfregarão as mãos de contentamento. Fazemos-lhes vénia pela oportunidade única de agregarem uma máscara portuguesa à galeria de facínoras e fanáticos, genocidas e entusiastas do sofrimento alheio que fizeram do século XX a Era dos Tiranos. Cunhal era um destes entusiastas da perversidade, não se lhe podendo desculpar a "coerência" pela profissão de crenças genocidas com o argumento ilibador da ingenuidade. Era um estalinista conspícuo e profissionalizado, com exacto e vivido conhecimento das taras de um regime de morte e escravidão. Foi serventuário do NKVD de Beria, sabia do Gulag e dos 40 milhões de mortos do comunismo soviético, das fossas de Katyn, da matança dos Kulaks e das minorias étnicas do Caúcaso, das purgas, dos hospitais psiquiátricos, da mineração de urânio executada por dezenas de milhares de trabalhadores-escravos, dos "julgamentos populares", das fomes artificiais decretadas por Estaline, da morte de milhares de crianças espanholas republicanas em campos de concentração, dos choques eléctricos, das bastonadas, dos afogamentos no Mar Negro, da morte de dois milhões de soldados alemães em campos de morte, dos pogroms aos judeus russos, da demolição de catedrais e monumentos da alma russa, apoiou a invasão da Hungria, Checoslováquia e Afeganistão e cumpriu com fria determinação o calendário dos seus senhores da Lubyanka. Cunhal viveu na URSS e sabia - como a historiografia agora prova - que a Rússia dos sovietes era uma pocilga de malfeitorias, fome e servidão. Nos trabalhos de casa, Álvaro Barreirinhas mimetizou com excelência os esbirros do Pai dos Povos: denunciou à PVDE um secretário-geral desobediente, mandou calar os mais ousados, declarou guerra à cultura que não compaginava com os esmeros infantilizadores do jdanovismo, perseguiu com ardor missionário tudo e todos que não lhe vergassem a cerviz. Foi um monstro, cego, frio, calculista. O país gosta destas criaturas gélidas, que confundem certeza e fanatismo.
Os CTT's sabem-no tão bem quanto eu. O afã de lucros não olha a meios. Coisas do capitalismo !
Alguém disse que a evocação de um grande homem se celebra pela data do seu nascimento e o de um celerado pela data da sua morte. Os CTT's pensaram e fizeram de forma diferente !

13 novembro 2005

Oldies: Halt Stand, rotes Madrid (1937)

Quando em Madrid mandava a Cheka, as prisões enchiam-se de "inimigos de classe" e Estaline era o Deus dos Trabalhadores, cantava-se o Halt Stand. Pela noite, as camionetas regorgitavam de "sabotadores", "desviacionistas", "traidores", "terratenentes", "clericais" e "parasitas monárquicos". Saíam, furtivas pelas azinhagas e por alturas de Carabanchel ouviam-se os disparos secos.


Halt Stand, rotes Madrid,
Halt Stand, stolzes Madrid,
das Weltall glüht, die Menschheit blüht,
der Erdball singt ein Heldenlied,
Millionen singen mit,
Halt Stand, rotes Madrid!

Und schicken dir die Faschistenauch
ihre Söldner ins Land
Sie alle werden zerbrechen
an deinem Widerstand

Und wollen sie uns verwehren
an deiner Seite zu sein
die kühnsten Kämpfer auf Erden
marschieren in deinen Reihen