11 novembro 2005

O dia de crepes

Um pouco por toda a Europa evocou-se o dia do armistício que precedeu a paz injusta de Versalhes. A Primeira Guerra Mundial terminava e já anunciava a Segunda. Humilhada, reduzida a única culpada de um conflito que todos europeus febrilmente pediram, a Alemanha preparou a desforra. Morreram na hecatombe 13 milhões dos melhores jovens do continente, geração inteira cevada na mortandade ou desfigurada no corpo e na alma. Caíram as grandes monarquias estabilizadoras do mitteleuropa, abriram-se as portas da política aos improvisadores messiânicos, à delinquência e à inversão de todos os valores que haviam permitido a superiorização do Ocidente. Mas a Grande Guerra foi mais além da Geopolítica e da balança do poder mundial. Foi uma verdadeira catástrofe moral. Depois desse aborto, os europeus transformaram-se, definitivamente, naquilo que haviam imputado à generalidade das outras civilizações: transformaram-se em selvagens especializados.

08 novembro 2005

TAP: o sucesso do brasileiro

Uma grande vitória para Portugal. A TAP reergue-se das cinzas e passa a dominar o mercado do Atlântico Sul. Para os cultores do pessimismo, da aflitiva auto-flagelação nacional, a união de esforços agora conseguida com os nossos irmãos brasileiros vem comprovar que, afinal, para além das esmolas europeias, o país continua a ser o que sempre foi: uma nação atlântica. A globalização é uma inevitabilidade. Sabendo antecipar cenários, a globalização pode favorecer os audazes. Quem se fecha e deixa amedrontar, morre. Para quem assume os riscos com criatividade, a globalização pode trazer lucros a uma escala em tudo diferente da mercearia de bairro, da padaria e do café de subúrbio.
Outra evidência, mortal para o brio dos políticos-gestores. Os políticos que fiquem fora das empresas e deixem os gestores encartados fazer aquilo que sabem: negócios lucrativos.

06 novembro 2005

Na floresta da hipocrisia e da metalinguagem

Abro o jornal e preciso de um dicionário do langage de bois politicamente correcto. Para ajudar os mais desprevenidos na arte da hermenêutica do jornalismo prostituído, aqui deixo uma parca amostra das artes e manhas da cifra em uso, a que o saudoso António José Saraiva dava o nome de "geringonça". Sem qualquer arrumação temática e alfabética, aqui vão alguns. O caro leitor que tenha a bondade de fazer novas sugestões.
1) "Jovens": i.e, imigrantes de primeira, segunda ou terceira geração envolvidos em alterações da ordem pública. Quando etnicamente europeus, chama-se-lhes delinquentes, criminosos e marginais.
2) "Resistentes": i.e, comunistas, ex-comunistas e companheiros de jornada dos movimentos estalinistas que se opuseram ao Estado Novo e ao salazarismo. Se usada para activistas de direita, as expressões indicadas serão: trauliteiros, caceteiros, bombistas.
3) "Trabalhadores": i.e, operários não qualificados e outros braçais. Se próximos do PC, serão também "trabalhadores". Lembro que a nobilitação a "trabalhador"também se aplica(va) a sindicalistas profissionais [que nunca exerceram qualquer profissão produtiva], a intelectuais orgânicos (i.e. agitadores) e a revolucionários a tempo inteiro.
4) "Antigo Regime": i.e, Estado Novo. A expressão, anacrónica, remete intencionalmente para a inevitabilidade da Revolução, um tempo ante que tende a apresentar a história como um movimento irresistível.
5) "Solidário": i.e, marxista aggiornato em demanda de uma santificação laica. Se católico, conservador, de direita e patriota, chama-se-lhe benemérito, uma outra forma de dizer esmoler.
6) "Um homem esclarecido": i.e, comunista, ex-marxista arrependido ou compagnon da mitologia abrilina. A expressão usa-se com o mesmo intuito para "um homem de convicções" ou "um homem de cultura". As direitas só têm tarados, maníacos, extremistas e analfabetos.
7) "Povo": sinónimo de massa humana enquadrada pelas esquerdas. Se agindo em sinal oposto, chame-se-lhe populaça.
8) "Movimento de Libertação": i.e, grupos armados e treinados pela ex-URSS e pela RP da China. Se inspirados pelos EUA, dado a expressão "terrorista" ser ferida de preconceito racista, deverá ser aplicado o termo "tribalista" ou "movimento armado".
9) "Homem forte": i.e, um chefe de Estado vitalício alcandorado ao poder por um movimento marxista. Se o não for, use-se ditador.
10) "Colectivo": i.e, minoria que se apossa de um sentimento geral, dando-lhe uma coloração vermelha. Em caso contrário, use-se agitadores.
11) "Ideias abertas": i.e, um ateu militante, posto que livre pensador remete para demoradas explicações que podem ferir a eterna ingenuidade dos católicos ávidos de bem-aventuranças. Ao pagão chame-se-lhe mitómano, extravagante ou anti-cristão.
12) "Abordagem científica": i.e, abordagem materialista marxista. Tudo o mais cai na superstição, no obscurantismo e no facciosismo.
13) "Fenómeno": i.e qualquer movimento que não esteja amparado pela "compreensibilidade"da tabela periódica do esquerdismo.
14) "Zona residencial": bairro burguês. Se se tratar de uma área residencial de esquerda, use-se bairro, reforçando-o com "popular".
15) "Nostálgico": aqui caberão todas as expressões políticas incorrectas ou diabolizadas. Também se pode usar "imobilista". Se de sinal oposto, use-se "antigos admiradores", "conservadores" ou "fiéis".