04 novembro 2005

Ralé, subsídios e poder da rua: metástases do Maio de 68


1) Aumentar o parasitismo da ralé suburbana, pagando-lhe um imposto para não violar, não matar, não queimar. As abadias francesas faziam o mesmo aos vikings. No ano seguinte voltavam outra vez, pois sabiam que quem dá, muito mais terá guardado.
2)Desculpar o fogo posto, a vandalização e os tiros contra bombeiros, forças policiais e ambulâncias. Tudo se desculpa a um inocente "Apache". São os "jovens" !
3) Desarmar a polícia e transformá-la numa espécie de Guarda Suíça. Acabarão, mais tarde ou mais cedo, com a ralé às portas das Tulherias, pedindo mais sangue e cabeças.
4) Subsidiar as organizações de extrema-esquerda acicatadoras da violência, bem como aos seus pregadores, habitualmente "sociólogos", "pedagogos" e "animadores" estipendiados pela cegueira do "Estado-refém-do-politicamente-correcto". São os assaltados, os donos dos imóveis queimados, os agredidos que pagam à cordoaria que fabrica os baraços que os vai pendurar.
E depois dizem que sou "reaccionário"...

03 novembro 2005

Bernardo Guedes da Silva

Só hoje, tão desatento sou, fui surpreendido pelo falecimento de Bernardo Guedes da Silva, com quem tive o privilégio de conviver e de quem fui sempre fiel admirador. Homem reservado mas que se revelava um interessante conversador, caracterizava-o uma inteligência metódica, clara e sem desacertos, uma memória invejável, uma experiência de vida que diria quase temerária e uma coerência desconcertante no plano ideológico que lhe mereceu muitos inimigos. Era, simultaneamente, et pour cause, um homem aberto ao debate, não raro revelando uma agudíssima percepção da multiplicidade de factores que envolvem a acção pública. Não poucos o desconsideraram. Ao invés, sempre o tive por um homem de meridiana claridade, jamais se coibindo de dizer quem era e o que pensava. Leio-o ainda, uma vez por outra, nas colunas do velho Debate, de Jacinto Ferreira. Abro neste momento o seu Combate, a segunda edição que teve a gentileza de me enviar para a redacção de O Dia, onde desenvolvi actividade como sub-director entre 1993 e 1996. Bernardo Guedes da Silva facultou à extinta Nova Monarquia apoio desinteressado. Lembro o ciclo de conferências que desenvolvemos no Hotel Roma, naquele distante verão de 1987, integralmente pagas pela sua generosidade. Do Pedro, que conheci em finais de 1986, fiquei, desde então, fiel amigo e admirador. Quando olho para o Pedro, vejo a cara, a ponderação, a discreta elegância e a timidez de Bernardo Guedes da Silva. Por detrás destas, a mesma fortaleza de convicções, a mesma vontade de fazer mais e melhor. Tal pai, tal filho.

02 novembro 2005

Não queria tocar no assunto, mas toco


A questão da violência associada à imigração não abandona a ribalta dos noticiários. Não é apenas Paris que se foi transformando, ao longo dos últimos anos, numa cidade vandalizada, grafittada, insegura e insalubre, com milhares de sem-abrigo dormindo nas estações do Metro, altercações policiais, vazamento de lixos em parques e praças, montras estilhaçadas, viaturas incendiadas, cabines telefónicas destruídas, poças de urina em arcadas de monumentos nacionais, igrejas e museus, assaltos à mão armada, tumultos religiosos, idosos espancados, tráfico de droga incontrolável e essa sensação de insegurança e imprevisibilidade que minou a PAX social de uma Europa que se julgava, finalmente, um continente de liberdade.
É Roma, é Milão, é Viena de Áustria, é Londres, Manchester, Bruxelas, Berlim, Madrid, Marselha, Dusseldorf, Hamburgo, Barcelona, Sevilha, Palermo, Haia, Antuérpia, Lille, Bristol...
Quando uma questão é localizada, os sociólogos chamam-lhe fenómeno. Quando uma questão é generalizada, chamamos-lhe um problema. Há, de facto, um problema - gravíssimo - que toca a imigração e ameaça destruir todos os equilíbrios que fizeram da Europa uma região de desenvolvimento, riqueza, bem-estar e tolerância. A respeitabilidade da democracia - i.e. o respeito pela alteridade, pela livre expressão de ideias, salvaguarda dos direitos individuais, respeito pelas minorias, império do Direito e da Lei - está a sofrer abalos que nem provações anteriores conseguiram diminuir.
Surgem, aqui e ali, vozes culpabilizadoras desta forma de organização política das sociedades que permite que cidadãos indefesos sejam consecutivamente expostos à violência e a maus-tratos. O medo, a insegurança e a revolta são maus conselheiros e são, decididamente, os maiores espectros para uma sociedade aberta e democrática. De novo vemos grades cobrindo janelas e varandas, portas blindadas, ruas desertas, cerrado policiamento urbano, angústia e inquietação. Vivi e estudei em Paris há uma década. Quando lá voltei, na primavera passada, fiquei assustado com a magnitude das mudanças que a outrora "cidade luz" passara a exibir. Dei comigo a dar razão a Oriana Fallaci, cujos terríveis libelos A Raiva e o Orgulho e A Força da Razão - entre nós editados pela Bertrand - lançaram a perplexidade entre os avestruzes da inteligência estúpida, os bizantinos que querelam futilidades quando os Turcos assediam Constantinopla e entre os sempiternos inimigos do Ocidente.
Como não sou, nunca fui e jamais serei racista, nem considero ter o Ocidente o monopólio da inteligência, sinto-me perfeitamente tranquilo. O que se passa hoje na Europa é consequência de três ou quatro décadas de frenesim desenvolvimentista e "lucratista"que fazem lembrar a corrida à mão-de-obra escrava africana nos séculos XVII e XVIII. Os ciclos da cana-de-açucar, do algodão e do tabaco passaram, mas os problemas de meia América aí estão, sem que ninguém encontre uma solução para as sequelas da exploração vergonhosa dos negros caçados pelo trato esclavagista. Há dois factores que, conjugados, tornam possível a democracia: cidadania e riqueza. Não há democracia sem inculcação de valores e conhecimento, como também a não há em sociedades pobres. Ensino, cultura, formação profissional e integração de valores de respeito, tolerância e aceitação compaginam com altos rendimentos, desafogo e paz social. Ora, a imigração, nos termos em que tem sido praticada por governos irresponsáveis, convida ao empobrecimento, à derrogação do modelo social europeu, à anomia e ao surgimento de movimentos populares reactivos. Alguém terá de me explicar ainda qual a relação entre globalização e imigração. Globalização não é sinónimo de migrações incontroláveis. O Japão e a China globalizam-se, a Coreia do Sul e Israel globalizam-se e que eu saiba não têm políticas de imigração laxistas. Posso viver 10, 20, 30, 50 anos no Japão como trabalhador e nunca poderei aspirar à cidadania nipónica. Posso viver uma vida na Coreia, em Singapura ou na Tailândia e pedir-me-ão, sempre, que respeite os valores, os ritmos e as estéticas dessas sociedades. A Europa tinha de primar pela diferença ! Aqui, tudo é relativo, tudo é racionalizado, tudo é escopo para "análises compreensivas". Nada tenho contra o respeito - admiração, até - que deve ser tributado a culturas que se nos superiorizaram neste ou naquele aspecto. O meu "multiculturalismo" entende-se como respeito recíproco. Quando recebo em minha casa um judeu ou um muçulmano, não lhe sirvo porco. O que se passa é o inverso. Estamos proibidos de comer porco e beber vinho em nossas casas por podermos receber, inadvertidamente, visitas cujos hábitos alimentares os interditam.
Os incidentes que se vêm repetindo por toda a geografia europeia vêm demonstrar que algo importa fazer antes que nos precipitemos numa era de trevas. Nicolas Sarkozy declarou a tolerância zero à violência, bem como uma política firme mas humana face à imigração. Por firmeza entende o primado da lei, da ordem e da justiça do Estado de Direito; por humana, entende a capacidade das autoridades em analisar e separar o que interessa e não interessa às sociedades anfitriãs. Imigração por cotas, como os EUA e o Brasil praticaram ao longo de um século ? Sim. Combate sem quartel à imigração ilegal ? Legalização de ilegais, contrariando a lei ? Não. Integração das comunidades migrantes e exigência de absoluta compreensão das regras por que se pautam as sociedades de acolhimento ? Necessariamente. Investimentos europeus, parcerias justas e estimulação dos circuitos comerciais entre a Europa e países com excesso de mão-de-obra ? Sim. Imposição de condições à ajuda económica e desenvolvimento de países pobres, com clara fiscalização do crédito ? Sim.
Li há momentos que a Grã-Bretanha vai passar a exigir a novos candidatos imigrantes conhecimentos extensos de história, cultura e língua inglesas. A França vai seguir-lhe as pisadas. Ou não compreendem os avestruzes e os bizantinos que se o não o fizermos agora algo de terrível se vai passar ?

31 outubro 2005

Contrariando as Cassandras

Persistia a ideia, velha de 100 anos, que os norte-americanos seriam, à imagem dos italianos, exímios soldados em guerras fratricidas e medíocres quando postos à prova em conflitos internacionais. A desculpa para os repetidos sucessos das Forças Armadas dos EUA de 1898 às duas guerras do Golfo assentava no peso industrial e na desproporção de meios e tecnologia frente a todos inimigos. A Segunda Guerra Mundial e a Guerra da Coreia haviam demonstrado a quase impossibilidade de bater tal máquina bélica em condições de embate clássico de grande intensidade. Contudo, em situações excêntricas, o gigante imobilizava-se, aturdia-se e perdia, como ficou claramente exposto nos arrozais e nas selvas do Sudeste-Asiático. A propaganda comunista fez disso doutrina. A desforra dos pequenos e dos pobres sobre a "nova Roma" encheu o imaginário de duas ou três gerações de voluntaristas, revolucionários e românticos da nova capa-e-espada. Mao foi ao ponto de considerar os EUA um "gigante de pés de barro", um "tigre de papel" cuja blindagem seria perfurada como manteiga pelas espingardas animadas pelo indómito fervor dos combatentes revolucionários. Por outro lado, era comum o tropo da cobardia da sociedade norte-americana, incapaz de arriscar e manter fora de casa, expostos às fatalidades da guerra, grandes contingentes em tempo indeterminado.
Estes dois lugares-comuns caíram por terra. Ao contrário do que se dizia, as forças armadas dos EUA não são apenas vencedoras no tiro-e-queda da balística pesada, nos bombardeamentos aéreos e nos combates em que o inimigo não pode ripostar. O soldadinho americano tem-se portado admiravelmente bem no Iraque e no Afeganistão: luta casa-a-casa, pátio-a-pátio, túnel-a-túnel, caverna-a-caverna, expõem-se a todos os perigos e armadilhas e vence com ou sem apoio aéreo. Pergunto se algum exército europeu contemporâneo arriscaria tanto, durante tanto tempo e com tanta persistência em lugares como a conurbação de Bagdade ou nas montanhas do Afeganistão. Pergunto se alguma sociedade europeia aceitaria enviar centos de milhares dos seus rapazes e raparigas para teatros de operações a 12.000 km de casa. Tem havido grandes manifestações pedindo o retorno dos militares, mas são significativamente diferentes daquelas moles que pediam a retirada sem condições do Vietname do Sul. Sinto-me perfeitamente justo ao escrever estas linhas, pois sou insuspeito de quaisquer amores pelo "modelo americano". Não posso, contudo, deixar de respeitar a coragem desses homens e mulheres que fazem aquilo que nenhum europeu ousaria fazer. Não sou mitómano - coisa que muitos me reprovam - pelo que não sigo mentiras convencionais.

Não posso responder a mais e-mails

O "caso" Rodrigues dos Santos está a concitar inúmeras reacções. Recebo diariamente mais de 60 mensagens pedindo-me explicações sobre este ou aquele aspecto da obra de Mascarenhas Barreto. Lamento não poder responder a mais solicitações. Confesso que raramente abro a minha caixa, que se vai inundando de spam, pelo que a triagem que faço é necessariamente deficiente e nem sempre justa na avaliação do interesse de cada mensagem. Julgo que a melhor solução seria adquirir um exemplar do Codex 632 e encomendar o Colombo Português: provas documentais, a que aludi na passada semana.

30 outubro 2005

Reunificação da Coreia

Os jornais atribuem merecido relevo à delegação desportiva conjunta com que as Coreias se apresentaram hoje aos Jogos da Ásia Oriental, que se celebram em Macau. A existência de dois Estados povoados por pessoas da mesma língua e cultura não constitui propriamente um atentado aos direitos universalmente apregoados nos areópagos internacionais. Se é uma gritante contradição à luz de uma certa ideia de independência e liberdade que arranca da Revolução Francesa, mas, sobretudo, do Tratado de Viena - que consagrou o conceito de uma Europa dos Povos; leia-se, povos com direito a fruir sem limitações a sua identidade e destinação - o nosso velho continente continua a exibir vestígios de uma ideia de Estado soberano em que os diferenciadores linguístico e étnico não são, por si, determinantes para o Estado Nacional tal como o Liberalismo o pensou. Basta lembrar o exemplo da Áustria (ou da Bielorússia), para tal evidência se esfumar. Lembrar, também, as "identidades imaginadas" pelo folclore, pela tradição postiça, pela fabricação jurídica unificadora, para perdermos qualquer princípio de certeza estabilizadora. É hoje uma evidência que nenhuma retórica pode escamotear, que a Itália, a França e a nossa vizinha Espanha são construções idealizadas de juristas, políticos e historiadores. O mesmo acontece com a Coreia. A Coreia foi, é verdade, independente e unida durante séculos, para cair na órbita chinesa até 1910 e logo de seguida colonizada pelo Japão até 1945. Ora, a ideia de uma "nacionalidade coreana" é tomada de empréstimo à tradição jurídica e filosófico-política ocidental. A Ásia está cheia de "identidades" privadas de Estado - os Chan, os Karen, os Hmong, os Iau, os Aka, os Curdos - possuem massas críticas demográficas e territoriais que as capacitam para o usufruto do direito à auto-determinação e independência. Ao invés, há na Ásia Estados cujos povos não se diferenciam em nada dos seus vizinhos, nem por razões étnicas e linguísticas, nem por motivos religiosos. É o caso, por exmplo, do Laos.
O que me parece no particular da Coreia, é que a Coreia do Norte se transformou numa entidade inviável à luz das convenções internacionais. Estado-pária, fora da ordem saída do colapso do comunismo, é objecto de embargo, suspeição e declarada antipatia. Tem um regime monstruoso ? Tem. É um Estado com um enorme potencial desestabilizador para todo o Extremo-Oriente ? É. É fonte de indizível sofrimento para os seus habitantes ? É. Agora, partir de perspectivas valorativas e escolher como fim a sua dissolução, sem consulta do seu povo, surge-me como uma imposição tirânica. E é o que vai acontecer. As Coreias não se vão reunir. A Coreia do Norte vai ser incorporada na Coreia do Sul. Prefiro mil vezes a rica, democrática e progressiva Coreia do Sul à grotesca pátria de Kim Il Sung e seu filho monstrozinho, mas tenho para mim que antes de tomar partido afectivo pelo regime de uma e outra, importa respeitar os cidadãos.