28 outubro 2005

Paraísos: 25.000 mortos por seis barcaças de lenha

A construção do Canal do Mar Branco, inútil como faraónica obra decretada por Estaline e cantada por Gorky, foi executada em 20 meses por 150.000 escravos do Gulag e custou 25.000 vítimas. Hoje, é sulcada diariamente por seis barcaças carregadas de lenha. A vida não tem valor algum.

27 outubro 2005

A guarda negra do Papa


Sempre tive uma admiração sem limites pela Companhia de Jesus. Compreendo que o ódio, a inveja e teoria da conspiração que a envolveu durante séculos tenham origem na qualidade excepcional dos seus sacerdotes e na absoluta liberdade por que ingressaram nessa elite da Igreja Católica, sem acicate da fome, da segurança e de uma vida fácil. A Companhia nunca foi benquista pelo Santo Ofício, pois pregou a heroicidade onde os outros semeavam resignação, temor e conformação. A Companhia nunca foi instrumento de governos e poderosos, procurando antes a eles aceder para melhor exercício da sua missão. Acresce que, como português, lhes devo a extrema dedicação às causas que durante dois séculos e meio se confundiam com a ideia de Portugal. Os jesuítas eram os primeiros a chegar, os mais ardorosos na permanência e no exemplo e invariavelmente os últimos a partirem. Os Holandeses e o Ingleses temiam-nos e por algum motivo confundiam-nos com os Portugueses. Cometeu S. Francisco Xavier excessos ? Cometeram os religiosos das missões da Ásia abusos na conversão forçada de nativos, nos jogos de poder pela supremacia na luta pelo monopólio da evangelização ? Sim e não. Sim, se nos submetermos ao capricho do anacronismo - misturando sensibilidade contemporânea com as de tempos passados - ou de uma visão do "perigo jesuíta" que floresceu sob os despotismos Iluministas ou sob o Liberalismo.
Vem este textozinho a propósito de uma conversa que tive ontem o privilégio de travar com dois sacerdotes da Companhia. Homens lúdidos, cultos, abertos à discussão honesta, fluentes em várias línguas mortas e vivas, carregados de boa-vontade e dedicação. Homens alegres, sem o ciciar de outros padres, radicais no seu cristianismo mas sem mácula de intolerância. Com eles pude falar. Nunca daquelas bocas saíu uma condenação, uma apóstrofe, um comentário intimidatório. Sabendo que perdi a fé há muito, senti-me, com eles, de novo atraído para uma visão heróica que, como a Companhia o demonstrou, não é incompatível com a ética cristã. Infelizmente são poucos, raros e sem meios. Outros, ricos, ciciadores, chegam mais alto e recebem a gratificação pelo emprego arrumadinho e rotineiro que vão fazendo !

26 outubro 2005

Rodrigues dos Santos e Mascarenhas Barreto


Contra o muro da censura oficiosa, em defesa da propriedade intelectual; contra a historiografia estipendiada pelos espanhóis e italianos, pela discussão pública de uma tese imbatível; contra a utilização da RTP para promoção de merchandising de contrafacção, por uma informação livre de amiguismos. Se existe liberdade de informar e ser informado, a RTP que convide Augusto Mascarenhas Barreto a apresentar as suas provas sem intermediação.
Da Amazon, retiramos a seguinte informação relativa ao acolhimento que a obra de Barreto tem merecido junto da comunidade científica internacional, longe dos nossos Cosmes de Alexandria (i.e. obscurantistas).
"Mascarenhas Barreto is a Portuguese writer fallen in disgrace. He dared to spend a big portion of his adult life questioning the establishment and wondering how come documental proof is not being taken seriously about Columbus (if that is his real name) and his background. For that he is considered a personna non grata in the circles of the so-called "professional historians" (not by all of them fortunately)! Don't expect this book to be taught in any school in the USA, Italy or Spain. Mr. Barretos' works are considered to be sinful. In a way Mr. Barreto's critics address hiw works in a somehow similar to the middle ages watchdogs and the burning on stake activities, that a particular Institution was so proud of in order to prevent the truth to come out to challenge the "established" truth. This book is a very serious document that you should read if for nothing else than to get an overall perspective of why the Columbus' issue is one of the best kept secrets in the Library of Congress."

25 outubro 2005

Rodrigues dos Santos e Mascarenhas Barreto


José Rodrigues dos Santos apresentou ao público o seu último romance de "investigação". Em pleno rescaldo do vendaval Dan Brown, este Codex 632 surge com um travo de ersatz. Não desconsiderando a inteligência e o activismo do seu signatário, lembramos que o déjà-vu é duplamente penalizador para a obra. Em primeiro lugar, pois pretende constituir-se em êxito literário em pleno descenso de popularidade de um filão que fez história e já só cativa os eternos retardatários. A ficção histórica envolta em mistérios ( com o Graal, o Merlim, os Templários e demais tropos da mitologia new age para consumo de massas) é chão que já deu uvas. Como dizia a Professora Maria Fernanda de Olival, "há sempre alguém a querer viver da História", como quem diz: "mostra-me o teu cartão e dir-te-ei se estás habilitado". Em segundo lugar, julgo inaceitável que José Rodrigues dos Santos, que deu à RTP-1 uma entrevista que vale milhões em publicidade, não tenha feito qualquer alusão ao pai da tese de Colomo português. Foi graças ao trabalho de uma vida que Augusto Mascarenhas Barreto tornou quase imbatível a tese da origem portuguesa do descobridor do Novo Mundo. Sou amigo de Augusto Mascarenhas Barreto, cuja obra Colombo Português: provas documentais, tive o gosto de apresentar publicamente na Sociedade de Geografia. É um monumento à agilidade, à argúcia, à erudição e a essa qualidade tão rara entre os historiadores portugueses que dá pelo nome de coragem intelectual. O Doutor Rodrigues dos Santos bebeu-a sofregamente e verteu-a por completo nas "provas" do seu Codex 632. Parece-me despropositado que não tribute um louvor público ao seu mentor.
Há coisas que não devem ser silenciadas. Tenho consideração por Rodrigues dos Santos. Espero que tenha agora o elementar gesto de retribuição àquele cuja tese está toda - da primeira à última página - no Codex 632.
Lá vêm eles dizer "lá está o Castelo-Branco a arranjar sarilhos". Infelizmente, sou como sou. Há coisas que não consigo calar. Se todos fossemos assim, julgo que poderíamos viver num país melhor.

24 outubro 2005

Prostituição: só Eduardo Catroga escapa


Li na edição de hoje do Correio da Manhã um curioso friso de depoimentos sobre as 10.000 prostitutas brasileiras e do Leste que oferecerão os seus serviços à vasta clientela portuguesa nativa. O governo prepara - pelo que se diz - a legalização dessas trabalhadoras, mas esbarra com condicionalismos legais que se prendem com a inexistência de jure da profissão. Para obstar a tal escolho, prevê a legalização do ofício.
O que mais me interessou foram os depoimentos de figuras políticas e universitárias sobre a eventual relegalização das maisons close, encerradas no início da década de 60 por imposição dos lóbis moralistas. Salazar não queria fechar as casas onde iam todos os pais de família, mas ter-se-á rendido quando a Igreja e algumas "mães do Estoril e do Restelo" ameaçaram o regime com retaliações bíblicas. Ora, pelos depoimentos que li, Portugal avançou muito pouco nos últimos 40 anos. Do economista César das Neves, que considera a eventual legalização "uma conspiração contra a atitude tradicional portuguesa" - rodriginho a que se recorre sempre que os argumentos faltam - aos partidos muito ligados à mediocracia pequeno-burguesa, todos a acham inoportuna, prematura, incómoda e incompatível com os valores plasmados na Constituição. A hipocrisia atinge píncaros de cinismo com o PCP, que persiste em mudar "as condições sociais que levam uma mulher à prostituição". De todos os depoimentos sobressai o de Eduardo Catroga, que advoga a legalização, não tanto por razões fiscais, mas de saúde pública e defesa das prostitutas.
O país assim continua, agarrado a piedosas mentiras, a moralices desbotadas e a cruzadas purificadoras que o caracterizam desde o século XVI. Quando não há mais nada na agenda, quando o futebol não dá golos, a economia não cresce e o Euromilhões não sai a um português, lá vem um Savonarola ou um Calvino dar largas à moralzinha e aos "valores tradicionais". Eles mal sabem que o Rossio era, por alturas do terremoto, um dos maiores prostíbulos da Europa, que não havia "famílias" de apelido para além das fidalguias terratenentes (vide as actas da Inquisição) e que todos tinham filhos de todas e amantes por conta ao gosto ou na proporção das bolsas. Quanto aos valores tradicionais, esses são os victorianos, e são tão tradicionais e genuínos como o folclore, os trajos regionais e a música "tradicional", todos inventados entre 1880 e 1930. Não há pachorra - decididamente - para aturar a atmosfera desta terra onde, parece, nada de relevante acontece desde o terremoto. Ou terá sido o terremoto um castigo divino lançado sobre o Rossio-bordel ?