22 outubro 2005

As civilizações são transitórias

Glosando a consabida expressão de Pareto, a história não é apenas "um cemitério de elites" mas, também, um cemitério de povos, culturas e civilizações. Nada é eterno, tudo passa. Enterradas nas areias, devoradas pelas florestas, submersas pelos lagos, pelos rios e pelos oceanos, há centenas de culturas que um dia se julgaram eternas. Se nos fosse possível colocarmo-nos no século XIII, todo o orgulho de "centralidade" europeia que ainda nos enche de atrevimento para dar lições aos outros esfumar-se-ia. Então, só no continente africano, quatro orgulhosos povos sobrepujavam em riqueza, força militar e iniciativa qualquer região europeia. O que é hoje feito do Mali, dos Songhay, do Zimbabwe e dos Mamelucos do Egipto ? Morreram, caíram no esquecimento e são exumados por arqueólogos. Na Ásia, o que subsiste dos canatos mongóis, das riquíssimas sociedades de opulência que floresciam ao longo da rota da seda, das megalópolis khmers ? Desertos flagelados pelos ventos e pelas areias, ou densa selva. Nas Américas, o que resta no Iucatão, nos Andes e em Technotitlan ? As civilizações são perecíveis, com as línguas e seus códigos de escrita e sistemas de medição, mais as cosmologias, as weltanschauung, as noções de bem e de mal, de belo e feio, mais os deuses e os heróis, os reis e os sábios, os generais e tudo o que enche a vida dos homens. O grave é julgar que a morte das civilizações não é connosco. Os europeus, agarrados a esta ficção, continuam a pensar que o mundo será sempre um obediente aluno da cartilha nascida na Hélade, revivescida pelo Renascimento, alargada pelo Iluminismo, mundializada pela da Revolução e exorbitada pelo Capitalismo. Dizem os catrapázios da Geopolítica que o poder é errante e que o vazio de poder convida um novo poder. Ora, nesta hora de declínio, a Europa teria de dar largas à sua capacidade de buscar poder para subsistir.

21 outubro 2005

Os meus candidatos

Não voto; sou monárquico. Não tenho outro candidato que o Chefe da Casa Real Portuguesa.

20 outubro 2005

Da impossibilidade de julgar os tiranos


Segui ontem com toda a atenção, dos canais árabes à CCTVI (chinesa), as notícias referentes à primeira sessão do julgamento de Saddam Hussein. Confesso que não gostei de ver um outrora poderoso homem caído, algemado e submetido à vingança. Reprovei e experimentei uma mescla de pena e revolta. O mesmo sentimento ocorrera quando Milosevic fora levado e exibido em Haia como uma atracção de circo. Pese tudo o que fizeram ou deixaram que se fizesse em seu nome ou dos seus regimes, nada do que se lhes imputa desculpa humilhações públicas reiteradas de que são alvo, agora que se esfumou o poder e a atracção que exerciam sobre os sempiternos servidores dos déspotas. O que pode um tribunal fazer com tais personagens senão transformar-se naquilo em que um tribunal se não pode deixar cair ? Testemunhos, insultos, pragas e lágrimas, dedos acusadores dos juízes e diálogo de surdos concorrerão para o triunfo da justiça ou, antes, para demonstrar quão relativa esta é no momento em que a estrela dos tiranos empalidece e voltam a ser homens comuns, frágeis e dignos de piedade ? Há neste julgamentos públicos algo de sórdido que me enche de repulsa. O que teria feito o Tribunal de Nuremberga com Hitler ? Exibi-lo magro, mal vestido, empurrado para as audiências por dois brutamontes da polícia militar ? Ouvir os seus tesmunhos e interrompê-lo com risos, recriminações e comentários ? Fotografá-lo na cela de pijama e em tronco nú, para gaúdio dos leitores de revistas de antecâmara de dentista ? A justiça democrática não pode submeter-se ao capricho da revindicta. Sabemos que a justiça das tiranias se serve dos tribunais como um reles instrumento de propaganda. Quem não viu as vergonhas sessões dos "tribunais populares" de Estaline, os confrangedores documentários do julgamento dos implicados no atentado contra Hitler de Julho de 1944, com o juíz Freisler a chamar "porco imundo" a um Marechal de Campo que segurava umas calças seis números acima do seu tamanho ? Quem não viu as sessões em que foi julgada a viúva de Mao ? Tudo aquilo é de um mau gosto, de uma crueldade e de uma banalidade maléfica sem desculpas. Contudo, os tribunais que se dizem representantes da boa consciência, do respeito às regras da decência e salvaguarda dos direitos elementares devidos a acusados deveriam pautar-se por outra postura. Pergunto-me se não seria preferível deixar entrar na cela de tais acusados um revólver, uma cápsula de cianeto ou uma corda. Um leão, mesmo que desdentado e velho, reduzido aos 4x4 metros de uma grade de zoológico é um leão. Como budista, aprendi que a vingança é um impulso cego que mata a justiça. Perdoar aos assassinos não é perdoar os seus crimes, mas permitir-lhes defenderem-se, arrependerem-se e reconquistarem a dignidade de que os seus crimes os afastaram. Sei lá se Saddam não poderia passar o resto dos seus dias a cultivar rosas, a cuidar dos presos no inferno penitenciário iraquiano ou a escrever romances !

19 outubro 2005

Está muito enganado, Dr. Almeida Santos

Quem tais afirmações profere é o inefável A. A. Santos, que foi outrora um dos mais ricos homens do Moçambique colonial. O Sr. AAS não nasceu em Moçambique e foi lá que fez riqueza. A minha família - refugiada e não retornada - por lá esteve durante quatro gerações e aqui aportou sem um Escudo. Não temos qualquer ressentimento contra a África. Pelo contrário, somos africanos de etnia branca e amamos Moçambique, coisa que AAS de todo desconhece. A verdade verdadeira é que AAS persiste em escamotear um facto que salta à vista do menos avisado: os únicos beneficiários do "sistema colonial" foram homens como ele; os únicos que por lá fizeram cabedais e regressaram sem um átomo de responsabilidade e remorso são os adoráveis cínicos que se banquetearam com sinecuras durante o período colonial e, depois, emprestaram toda a energia demolidora em trair as esperanças e a boa-fé dos seus concidadãos. O Sr. AAS é uma assombração que teima em fazer crer aos menos avisados que o destino da África Portuguesa era o caos, a guerra civil e o abandono precipitado. Ora, as guerras civis em Angola e Moçambique foram consequência da forma como AAS, Mário Soares e demais amadores de pirotecnia desenvolveram as negociações com "movimentos de libertação" cuja implantação era diminuta e domínio territorial nulo. Sei que AAS o sabe tão bem como nós. Como todas as mentiras, importa que sejam mil vezes repetidas para que a verdade não sobreleve.

18 outubro 2005

Instituições Portuguesas (VI): o grupismo

Em Portugal todos fazem parte de grupos. Sem o grupo, o português sente-se perdido. Este grupismo atravessa transversalmente os domínios público, privado e íntimo, apossa-se do desporto, da religião, da política, da educação, das artes e do espectáculo, da comunicação, da moda e das empresas. Todos são casados com todas, todos são primos, tias, irmãos, ex-colegas de escola e universidade, ex-camaradas de tropa, amigos de amigos, com sobrinhos, afilhados frequentadores dos mesmos cafés, das mesmas livrarias, dos mesmos teatros e bancadas. Este grupismo deu em lóbis para todos os gostos, havendo quem pertença a vários ao mesmo tempo, solicitando um favor aqui, uma isenção ali, um lugar para um amigo desempregado acolá, um julgamento brando para um conterrâneo, uma medalha para um ignoto - e muitas vezes ignaro - protegido, um doutoramento, um programa de televisão, a chancela para uma editora ou uma nota nos jornais lidos. Da senhora das limpezas - como eu as admiro, caramba - ao Presidente da República, a regra do jogo é pertencer a um grupo. O sacrifício que se tributa é tão diminuto quanto escravizante, mas de bom grado o português prescinde da liberdade, pois é coisa perigosa e inútil numa sociedade em que o singular é olhado como aberração. O que se pede ao grupista ? Encontros, reuniões, convívios que se arrastam por anos - a ordália de se fazer "parte de algo" - e o prémio final: um lugar.
Qual o fundamento do grupismo ? A crónica pobreza do meio, a promessa do caldo e do naco de pão do dia de amanhã, a inexistência de um Estado imparcial e abstracto. Em Portugal, as instituições são pessoas, património de grupos, pelo que o juíz, o polícia, o general, o médico, o ministro, o padre, o banqueiro e o catedrático não o são pelo talante mas pelo grupo em que estão inseridos. A sedimentação do grupismo provocou três desastres irreparáveis: a incompetência triunfante e aplaudida, o atrevimento criminoso e a protecção. É por isso que temos um Estado de Leis e não um Estado de Direito. As leis existem e só se aplicam como retaliação a quem não faz "parte do grupo". É por isso que temos uma Universidade miserável e improdutiva, uma Igreja rural de seminário de "manhãs submersas", umas forças armadas amarrotadas e gordas, uma polícia dormitante, umas academias de velório, um jornalismo de vão de escada, uns partidos políticos mentecaptos, um desporto de voyeurs e estridências e um meio artístico postiço.

17 outubro 2005

Instituições Portuguesas (V): inveja


Se há característica dominante entre os portugueses, essa será, sem dúvida, a inveja. Não é por acaso que o vate Luís Vaz a inscreveu como última palavra do Canto X dos Lusíadas. A inveja, tal como a encontramos em Portugal - uma dor persistente, aureolada pela suposta "decência" de quem se sente ungido para desferir estocadas - não se esgota em minutos, como o ciúme. Persiste, cresce, cultiva-se de acidez, amargura e frustração até dominar e obnubilar aqueles que a servem. Não sei, sinceramente, como pudemos fazer crescer tal monstro. Uns invocarão a Inquisição como fautora desta anomalia de carácter. Parcialmente errado, pois os espanhóis tiveram-na durante séculos e desprezam a inveja na proporção em que a acarinhamos. A incapacidade de emular, o medo de se atrever, a cobardia de medir forças e acarear qualidades, a inibição de dizer "aqui estou" e "sou assim", aliadas a uma cultura de resignação, a uma recusa de tudo o que envolve risco e novidade - ou seja, o sempiterno reaccionarismo - levam-nos a esgotar a energia remanescente em verrina, insulto, diz-se diz-se e frémito niilista. O grande problema, de que a inveja é parteira, é o facto de, em Portugal, se detestar tudo aquilo que não se conhece, de se odiar tudo onde se intui existirem qualidade e superioridade. Não é demais lembar que os nossos grandes homens tiveram uma vida miserável. Onde as franças, as espanhas, as itálias e alemanhas coroam, aplaudem, incentivam e premeiam, Portugal enterra vivos aqueles que pelas raras qualidades se elevam da mediocridade. Mas este sentimento ignóbil não se esgota nas "grandes invejas". É omnímodo, insinuando-se nas mais corriqueiras situações do dia-a-dia. O português nunca diz a um(a) amigo(a) : "como és inteligente", "tenho por ti grande admiração", "como estás bela", "esse corte de cabelo fica-te muito bem", "seria tão bom se ganhasses a lotaria", "tens uns filhos inteligentes". Não. Confrontado com uma boa-nova, o português cala-se, desvia o olhar, empalidece e esboça um gracejo: "parabéns, agora tens uma data de malta a invejar-te".
Durante a Inquisição - essa lepra que nos transformou em analfabetos e cobardes - enviavam-se uns papelinhos anónimos para um fradeco alcoolizado e obeso dar início a uma sórdida investigação que terminava, as mais das vezes, em confisco de bens ou churrasco. Depois, sob o Liberalismo, a inveja transformou-se em gazetas. As polémicas jornalísticas portuguesas do século XIX são um monumento erigido à inveja. Ao pé dele, a Praça do Comércio sentirá...inveja. Actualmente, a inveja está por todos os lados e torna-se ainda maior com o estreitamento de horizontes do país, outrora com 2.000.000 km2, hoje reduzido a 90.000 km2 carregados de queixas, ranger de dentes, ajustes de contas e esperanças mortas. Disse-me um dia um pianista brasileiro que o público mais frio que alguma vez vira fora o português. "Aqueles caras até olham uns para os outros antes de aplaudirem". Que pena, pois quando se libertam da atmosfera invejosa, os portugueses até passam a dirigir cumprimentos sorridentes, a triunfar e a serem felizes. Foi assim quando saíram do curral da Santa Inquisição, desbravando brasis, ásias e áfricas e ganhando confiança em si mesmos. O Zé Soldadinho partia para Angola e Moçambique como um mujique e regressava livre. O Zé emigrante partia recalcado, corroído de penas e invejas e regressava, mais aberto e arejado, para inveja dos que por cá haviam ficado.
Fui há dias a uma sessão pública dedicada à blogosfera no feminino. Uma das intervenientes brilhou pela inteligência, espontaneidade e graça. Olhei para a restante mesa e conferencistas e fiquei convencido da qualidade da sua prestação: as outras, com excepção - claro - da participante brasileira, estava verdes de...inveja.