12 outubro 2005

Bem-aventuranças

Há, pelo menos desde Homero, o pai da literatura ocidental, a ideia da superioridade do passado sobre o presente. As cosmovisões de raíz "indo-europeia"adoptaram esta visão de um declínio inevitável da espécie humana, naquilo a que os filósofos chamam de visão trágica de vida. O passado ante-histórico terá sido de ouro, povoado de deuses, o passado remoto de prata, tendo por protagonistas meio-homens, meio-deuses, e o presente será de ferro. Os semitas também não divergem muito de nós, ocidentais, neste olhar nostálgico sobre um passado em que os homens teriam vivido mais próximos de Deus, que lhes retribuía com existências centenares e actos de grandeza heróica de todo inacessíveis aos nossos contemporâneos. Se o europeu Antigo, consciente da sua pequenez, gerou uma ética trágica - que os romanos tão bem evidenciavam - os semitas selaram pactos e juras de fidelidade a Deus, deste esperando o reatamento da aliança perdida com o Criador. O profetismo vetero-testamentário, mas sobretudo o cristianismo, evidenciam esta esperança na revolução do passado. Revolução quer dizer retorno do passado, supostamente interrompido pelo afastamento da verdade. Não sendo uma visão redonda do tempo, fechado em ciclos de criação e destruição, não deixa de ser uma atitude conservadora que convida à acção para repor uma ordem perdida. Em tempos de crise, quando todas as portas do futuro se parecem fechar, os povos e as sociedades olham para o "passado" com saudade. Ora, da esquerda mais ideologizada ao seu oposto, verificamos que esta busca do passado não-histórico parece, de novo, ganhar consistência operativa. Um mundo perfeito, povoado pelo Bem e pelo temor a uma ordem eterna que os homens não podem violar parece dominar e encontramo-la em todos os azimutes políticos. A sensação do vazio presente, da diluíção, da "decadência" convida à acção. Contudo, o tempo não pára. Dentro de dez, quinze anos, haverá um renovo da "visão da seta", de um tempo que se constrói por si, carregado de entusiasmo criador. Sempre assim o foi, assim será uma vez mais.

10 outubro 2005

Eleições

Além da feliz eleição da Maria José Nogueira Pinto para a qual convictamente contribuí, estas eleições apenas merecem umas linhas.
1. Esmagamento da futebolada. A vitória de Rui Rio demonstra bem que os portuenses souberam bem dar uma resposta clara ao caciquismo do sr. Pinto da Costa, acolitado pelo candidato do PS que nada mais é senão uma pálida sombra do "cara de abacaxi" mais conhecido no universo presidiário americano por "recluso Noriega".
2. Esmagamento do gens soarensis. O paraquedismo jamais foi uma actividade recomendada a obesos e o despenhamento de João Soares em Sintra foi elucidativo, fazendo prever o destino reservado ao progenitor na próxima corrida a Belém. A propósito da preparação para o exercício da chefia do estado por leigos na matéria, foi pouco edificante a atitude ontem arrogantemente assumida por Mário Soares ao apelar ao voto no filho. Ou desconhece a lei, ou pior ainda entende estar acima dela, fazendo ou dizendo o que bem lhe apetece.
3. Parabéns ao B.E. por conseguir finalmente a eleição de um vereador à C.M.L. Convém dizer que se escudou atrás de um "independente" muito ao gosto do Arq. Ribeiro Telles. Bem me parecia que aquela questão do túnel trazia candidatura no bico. Com o furor alternativo de Louçã, ainda veremos hasteada na sede do Bloco a bandeira azul e branca, pois hoje já copiam escandalosamente os velhos autocolantes da JM dos anos 80 com uma tal energia alternativa. Sei bem quem desenhou o antepassado do crachá bloquista. Por acaso até pertence à minha família. Pura e simples cópia ou rasteira Telles/Sá Fernandes?
4. Felgueiras, Valentim e Isaltino. Dá que pensar.
4.